O boi e os gases-estufa
Hermano de Melo*
Desde 2006, circula na mídia a idéia de que os ruminantes, especialmente o gado bovino, por meio da sua flatulência – leiam-se arrotos e puns – seriam responsáveis por despejar na atmosfera uma parcela significativa de gases efeito-estufa, o que contribuiria de forma decisiva para o aquecimento global. Conforme relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), intitulado “A grande sombra do gado”, “os gases emitidos por excrementos e flatulência de bovinos, ovinos e suínos, por desmatamento para formar pasto e a energia gasta na administração do gado respondem por 18% dos gases-estufa circulando atualmente no mundo”.
Mas o relatório vai mais longe e diz que a atividade agropastoril é responsável por 9% da emissão mundial de CO2, 65% da emissão de ácido nitroso (NO2) e 37% do metano (CH4), que é 23% mais tóxico que o CO2 e vem do sistema digestivo dos ruminantes. O documento assinado por Henning Steinfeld, chefe da FAO para o setor, conclui que “o custo ambiental por cada unidade de produção agropecuária tem de cair pela metade nos próximos anos, apenas para impedir que a situação piore”.
Em artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, de 07/05/2007, porém, e intitulado “Ecologia não combina com ideologia”, Xico Graziano mostrou, que os números apresentados pela FAO são enganosos e não suportam uma análise mais acurada. E exemplifica: “Consta do relatório que uma vaca pode arrotar até 500 litros de metano/dia. Como o rebanho bovino mundial atinge 1,4 bilhões de cabeça, tal volúpia gasosa seria um desastre ecológico. Dados da Embrapa, no entanto, mostram que um boi libera cerca de 60 quilos de metano ao ano ou quase 30 gramas por dia, e não 500 quilos como diz o relatório da FAO”. E conclui: “É errado considerar que a agropecuária seja a maior responsável pela emissão dos gases-estufa. De fato, as emissões veiculares e as chaminés nas metrópoles são as grandes vilãs do aquecimento do Planeta”.
Mas a histeria sobre a emissão de gases-estufa pelo trato intestinal dos bovinos chegou a tal ponto que, em 2007, o cientista alemão Winfried Dockner, da Universidade de Hockenheim, desenvolveu a primeira pílula antiarroto para vacas do mundo! Citando o relatório da FAO, o cientista confirmou que o arroto dos ruminantes responde por 4% das emissões de metano do planeta e como o consumo de carne cresce a tendência do aumento das emissões seria inevitável. Na ocasião, Dockner acreditava que o nível de metano seria reduzido de 4 para 2%, mas ele não obteve sequer patrocinadores interessados em sua idéia.
Em outubro de 2008, num relatório de 600 páginas encomendado pelo governo australiano, o assessor e economista Ross Garnaut pediu que os australianos substituíssem a carne bovina e de carneiro por derivados do canguru para ajudar a proteger o planeta dos efeitos do aquecimento global (Folha Online, 03/10/08). E na Suécia, conforme reportagem da Revista Época (23/10/09), o consumo de carne vermelha pode estar com os dias contados. Alguns suecos afirmam, inclusive, que sentem uma sensação de culpa quando consomem alimentos derivados do gado. E se as novas orientações alimentares forem seguidas a Suécia pode reduzir entre 20% e 50% a emissão de gases na produção de alimentos.
E mais recentemente (27/10/2009), o jornal londrino The Times divulgou declarações de Lord Stern of Brentford, professor da London School of Economics que, baseado no fato do gás metano liberado pelos rebanhos bovinos e ovinos ser mais efetivo como gás de efeito estufa que o gás carbônico, propôs que a humanidade pare de comer carne! Segundo ele, os rebanhos são gigantescos hoje em dia para suprir a demanda crescente de carne pela humanidade, cujo número atinge hoje a cifra de mais de 6 bilhões de habitantes. E completa: “A carne é um desperdício de água e cria uma grande quantidade de gases efeito-estufa. Ela coloca uma enorme pressão sobre os recursos do mundo. Uma dieta vegetariana é melhor”.
Não há dúvida que a criação de bovinos na sua forma extensiva é um dos vilões responsável pelo aumento dos gases-estufa na atmosfera e do conseqüente aquecimento global. Mas isso se deve muito mais ao desmatamento e a queima de vegetação que se promove antes de sua instalação do que pelos arrotos e pumpuns eliminados pela flatulência bovina. Estes são absorvidos numa boa! E isso é válido tanto em grandes áreas da região amazônica quanto aqui no cerrado brasileiro. Daí, no entanto, a propor a eliminação da carne bovina e ovina da dieta humana vai uma distância muito grande! Será que o aquecimento global que acontece atualmente no mundo não seria mais uma crise do modelo civilizatório atualmente implantado em países com desenvolvimento acelerado como China, Índia e Brasil?
A resposta a essa pergunta pode vir da reunião que acontece em Copenhague, Dinamarca – a COP- 15, de 7 a 18 de dezembro próximo, onde os líderes mundiais discutem um novo protocolo de emissões de gases efeito-estufa que substituirá o Protocolo de Kyoto. Cerca de 20.000 delegados de 192 países devem estar presentes ao encontro, inclusive o presidente Lula. E Lord Stern é taxativo: “Copenhague é uma oportunidade única para o mundo se libertar de sua trajetória catastrófica atual, ou seja, reduzir pela metade as emissões globais de gases efeito-estufa até 2015 e passar das atuais 50 para 25 gigatoneladas”. É ver pra crer.
* Médico-veterinário, Escritor e Acadêmico de Jornalismo.
Publicado no jornal Correio do Estado em 30 de novembro de 2009.
O mal do século
Hoje li um texto muito interessante. Era um tema muito comum para mim, tratava sobre discriminação racial na televisão e como a mídia é usada para perpetuar velhos preconceitos. Claro que eu já tinha conhecimento da maioria das coisas citadas pela autora. Mas o que mais chamou minha atenção foi a indignação daquelas palavras. Pois embora eu soubesse tudo o que estava escrito em momento algum pensei em manifestar minha indignação como a escritora.Creio que isso se deve a uma doença dos tempos modernos: o comodismo.
O comodismo é uma infecção transmitida pelo vírus mediocridade e pode atingir todo tipo de pessoa e em qualquer faixa etária. O vírus afeta a capacidade dos neurônios de interpretação, provocando confusões entre o que é de fato importante, por exemplo: de repente o futebol parece tão mais importante que o caso de sexismo dentro de uma universidade e aqueles debates da faculdade sobre temas cotidianos são tão cansativos. Depois da confusão mental, passa o vírus a atacar o sistema límbico (o responsável pelas memórias de curto prazo), tornando mais difícil armazenar dados importantes como aquela barbaridade que você leu no jornal sobre o governo ou o nome daquele governante que foi pra CPI e ano que vem vai pedir seu voto novamente. A doença também ataca a visão, torna difícil enxergar a verdade dos fatos, o doente começa a ignorar o paradigma de felicidade imposto nas propagandas, por exemplo. Em seguida parte pra capacidade motora e deixa a pessoa completamente incapaz de fazer qualquer coisa pra mudar o meio em que vive ou até mesmo a sua própria vida, este sintoma é evidente em pensamentos como: “protestar não leva a lugar nenhuma” ou “ah, nem vou naquela conferência chata porque isso nunca dá em nada”; este estágio costuma ser terminal. O leitor atento certamente notou que o comodismo quando não aleija a vítima, mata-o. Normalmente decapita o seu senso crítico e mata uma grande parte da personalidade do enfermo, que acaba virando um servidor público com cara emburrada ou um pseudo-profissional que acha que seu trabalho só serve para ganhar dinheiro e seu diploma é a melhor coisa que você pode conseguir na universidade.
Felizmente, com o tratamento certo essa patologia tem cura. E o tratamento nem é difícil, basta algumas doses diárias auto-análise para conhecer quem você é de fato e coragem suficiente para enfrentar a si mesmo. Basta lembrar da receita dada pelo Dr. Renato Manfredini “Vocês vão fazer alguma coisa pra mudar as suas próprias vidas? Eu cheguei à seguinte conclusão: não adianta consertar o resto, tem que consertar agente..ajuda pr’a caramba!”
Pyro
Em 16/11/2009
O trator e o laranjal
Hermano de Melo*
Fonte: Jornal Nacional, 05/10/2009 – G1.com.br
Na noite de segunda-feira (05/10/2009), o Jornal Nacional da TV Globo mostrou imagens captadas de um helicóptero no momento em que um trator conduzido por lideranças do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), derrubava uma fileira de pés de laranjas da fazenda Santo Henrique, da Cutrale, em Iaras, interior de São Paulo. Calcula-se que de 3 a 7 mil pés de laranjas foram destruídos de um milhão plantados. Na ocasião, a coordenadora do MST, Claudete Pereira de Souza, justificou assim a ação: “Não destruímos nada, retiramos os pés de laranja para garantir o plantio de feijão, porque ninguém vive só de laranja”. As imagens, porém, foram chocantes e serviram de munição para os que não querem ver a reforma agrária implantada no Brasil.
A reação foi imediata. No dia seguinte, a justiça de São Paulo determinou a reintegração de posse da fazenda invadida pelas 250 famílias de Sem-Terra desde o dia 28 de setembro. Tanto o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, quanto o presidente do INCRA, Rolf Hackbart, condenaram a ação do MST.“Uma imagem grotesca, injustificável sob qualquer ponto de vista”, disse Cassel. Hackbart acrescentou: “O movimento tem errado muito e espero que uma situação grotesca como essa o faça refletir sobre suas ações”. E o presidente Lula classificou o ato do MST como de “vandalismo” (JC Online, 07/10/2009).
Mas a reação maior se deu no Congresso Nacional. A bancada ruralista recolheu assinaturas em nova tentativa de abrir a CPI para investigar o repasse de dinheiro público ao MST. Senadores da oposição e governistas criticaram no plenário a ação do MST. A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidenta da CNA (Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária), afirmou: “Isso é mais uma ação do MST irracional e ilegal e com financiamento público que é o que mais traz indignação à população”. O presidente do STF, Gilmar Mendes, condenou a invasão da fazenda Santo Henrique e disse que “não pode haver nenhuma tolerância com quem desrespeita a lei e que o governo corte qualquer tipo de ajuda a entidades que cometem crimes”.
O MST, por outro lado, argumenta que as terras pertencem de fato à União, mas são usadas ilegalmente há dez anos pela Cutrale, uma das maiores produtoras de suco de laranja do Brasil. Em nota, o INCRA condenou a ação dos sem-terra, mas disse que reivindicou as terras em 2006 e que aguarda decisão da justiça federal. A multinacional Cutrale, por outro lado, apresentou documentos à Justiça de São Paulo em que afirma ser proprietária da área e argumenta que a terra é produtiva. Mas o MST rebateu: “A produtividade da área não pode esconder que a Cutrale grilou terras públicas”.
Coincidência ou não, em 13/10/09, a CNA apresentou resultados de uma pesquisa encomendada ao Ibope que revelou que 47,7% das propriedades de assentamentos rurais consolidados não produzem o suficiente nem para a família e que 75% dos assentados não têm Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). A presidenta da CNA, senadora Kátia Abreu (DEM/TO),voltou à carga: “Estamos criando verdadeiras favelas rurais, distantes de todas as políticas públicas, já que tudo no campo custa mais caro”. Mas tanto o INCRA quanto o MST afirmam que a amostragem foi mal feita e é insuficiente para tirar conclusões, porque as pessoas ouvidas representam apenas 0,1% das 920.861 famílias assentadas.
É evidente que a ação do MST foi infeliz e injustificável. Mas é preciso entender que o movimento dos trabalhadores sem-terra não se constitui num bloco monolítico e está sujeito a erros. É provável também que no interior do movimento existam “olheiros” sempre dispostos a colocar o MST em maus lençóis perante o governo federal e a opinião pública. Senão,como explicar a presença do helicóptero do serviço de inteligência da PM sobrevoando o local no momento exato em que o laranjal era destruído pelo trator? Sabe-se que o cinegrafista amador Flávio Jun Kitazume filmou as imagens uma semana antes de serem veiculadas no Jornal Nacional. Ele é oficial da PM em Bauru, SP, e foi afastado da cidade em 2007 porque integrava um grupo de policiais que cometiam sérios abusos contra os direitos humanos (site “Vi o mundo”, de Luiz Carlos Azenha, 08/10/09).
Outro ponto importante é saber se a área em questão é de fato da Cutrale e se é produtiva. Segundo texto recente do doutor em Geografia, Ariovaldo Umbelino de Oliveira (Brasil de Fato, 22-28 de outubro de 2009), a Cutrale possui 30 fazendas em São Paulo e Minas Gerais, totalizando 53.207 ha. Desses, seis delas de 8.011 hectares foram classificadas como improdutivas pelo INCRA, desde 2003, e das 30 fazendas relacionadas não consta a área de Iaras. Isto significa que a fazenda Santo Henrique não é de propriedade da Cutrale – é grilada!
Por fim, não se pode analisar o episódio de Iaras isolado de seu contexto. A cena do trator devastando o laranjal vai muito além de uma simples tentativa de “satanização” do MST no Brasil. Ela se encaixa em um conjunto de “sinais de fumaça” que indica uma forte guinada para a direita nos atuais cenários políticos interno, latino-americano e internacional, particularmente após o fim da crise financeira mundial. Nesse rol, se encaixam, dentre outros: o tratamento dado à questão indígena e agrária no Brasil e no MS, a direitização crescente do governo Lula-PMDB, a assunção de prefeitos e governadores ultraconservadores, o ressurgimento de figuras políticas do passado – leia-se Ronaldo Caiado e outros, o golpe de Estado em Honduras, o envio de tropas pelos EUA ao Afeganistão, a demonização dos governos de Chávez na Venezuela e de Ahmadinejad no Irã. Não é de admirar, portanto, que a Reforma Agrária no Brasil caminhe em passos tão lentos, em passos de tartaruga.
* Médico-Veterinário, escritor e acadêmico de jornalismo da UFMS.
Artigo publicado em 05 de novembro de 2009, no Correio do Estado.
O lugar de cada coisa*
Mais uma vez eu não consegui dormir! Isso não é novidade, mas os motivos, dessa vez, não foram as matérias que eu não faço, as transcrições de entrevista e nem o ensaio que, finalmente, acabou. Foi um único motivo e me fez querer – sei lá, acho que é muito mais que isso –, precisar escrever! É isso, eu preciso! Eu tenho dessas coisas de ter a necessidade de fazer perguntas, de querer que as pessoas saibam, que as pessoas leiam, que elas escutem… E tal e etc. e coisa!
Pois é, a pergunta da vez é, ‘de onde vem?’. Durante muito tempo eu estive as voltas com um clássico das perguntas, ‘por quê?’. Teve também, o ‘quando?’, passando pelo ‘onde?’. Se eu fosse fazer uma lista de todas as perguntas que eu já fiz, esse seria o texto com o maior número de pontos de interrogação já escrito.
Agora, vocês é que devem estar se perguntando: “Esse sujeito pergunta tudo isso pra quem, afinal?”. Eu, maluco e estranho, pergunto a mim mesmo, para Deus e até para o Universo. Sim! Eu falo sozinho, mas já avisei que sou doido. Em algum lugar na TV tem alguém dizendo que “não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas”. Deixando de lado qualquer clichê ou frase de efeito, comigo deve mesmo ser assim.
Há tantas e muitas coisas que todo mundo deveria saber de onde vem, principalmente as ruins. Assim poderíamos pegar, por exemplo, a violência, a descriminação, o preconceito, a corrupção, a falta de dinheiro, a dor de barriga e outro monte de porcarias e levar de volta para o lugar de onde saíram e, antes de irmos embora, trancar a porta e jogar a chave fora!
Eu não quero começar nenhuma grande reflexão sobre os males do mundo e nem quero que ninguém saia por ai filosofando sobre nada. A vontade de escrever surgiu pelas coisas simples e, de certo ou talvez, porque eu não tenho nada pra fazer, sei lá. Mas de onde vem a inspiração?
É, é isso mesmo! De onde vem a inspiração da bailarina que ouviu a música, criou a coreografia e foi fazer arte usando o corpo? E a curiosidade do poeta da lágrima solitária que quis saber o que perdemos enquanto os olhos piscam, de onde vem? E o desejo do moço e/ou velho que canta desafinado para saber de onde vem a calma de um alguém? E de onde vem o traço do cara que derreteu os relógios para quem sabe, assim, parar o tempo? E de onde vem? E de onde? Onde?
Será que tem alguém aí que também gostaria de descobrir e saber onde fica o tal lugar? O que vocês gostariam de saber de onde vem? Será que todos fazem perguntas? Será que todo mundo precisa de respostas? Eu acho mesmo que não. Acho que nem todo mundo é assim. Mas eu sou, eu preciso! Se alguém encontrar o mapa que indica o caminho, me avisa porque eu estou à caça das minhas respostas.
*Eu dedico esse texto à Thaysa. A moça que vê o sol beijando o mar, toda vez que ele vai repousar. Shimbalaiê! Porque eu vou estar na platéia, sempre, assistindo ela dançar…
O aquário gigante
Hermano de Melo*
Das 1.500 obras anunciadas recentemente (02/10/09) pelo governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), como parte do programa “MS Forte – Ações para o Desenvolvimento”, e com investimentos previstos da ordem de 3 bilhões de reais (espécie de PAC estadual), uma delas foi considerada “emblemática”. Trata-se da construção do “Aquário do Pantanal” no Parque das Nações Indígenas, em Campo Grande, que deverá ser concluído entre dezembro de 2010 e início de 2011. Dessa forma, a Cidade Morena vai entrar para um seleto rol de cidades do Brasil e do Mundo, inclusive Cuiabá-MT (em reparos), a possuir um aquário gigante aberto à visitação pública.
O projeto Campo-grandense, assinado pelo renomado arquiteto paulista Ruy Ohtake (Parque Ecológico do Tietê, Projeto de adequação do Morumbi para a Copa do Mundo de 2014, etc.), em formato de um cilindro disposto horizontalmente e extremidades ogivais, terá mais de 10 mil metros quadrados de área construída e custará cerca de 60 milhões de reais aos cofres públicos estaduais. O “Aquário do Pantanal” abrigará mais de 350 espécies de animais, entre répteis, peixes, crustáceos e moluscos, com toda a rica biodiversidade dos rios do Estado e grande variedade de animais e plantas típicas. Prevê ainda bares, cafés, lojas e restaurantes que vão compor os espaços de convivência e descanso, integrados às atrações do Aquário.
O Governo do Estado justifica a execução do projeto porque “se trata de um importante espaço público que vai incrementar o turismo, gerar emprego e renda e garantir mais qualidade de vida à população. Será mais uma opção de lazer e entretenimento e promoverá a educação ambiental e a conservação do patrimônio natural do Pantanal”. Ao visitar o Estado, em dezembro do ano passado, Ohtake afirmou: “O Aquário de Campo Grande não será apenas um local de visitação para conhecer a fauna aquática do Estado. Será possível ter contato com bichos do Pantanal, almoçar em um restaurante suspenso com vista para toda cidade, entre outras atrações. O Aquário atuará como um instrumento de educação ambiental aliada ao lazer”. (Midiamaxnews, 02/10/09).
Após o anúncio do pacotaço de obras, os políticos presentes apoiaram em uníssono a iniciativa governamental. A prefeita de Três Lagoas, Simone Tebet (PMDB) disse: “As obras irão beneficiar Mato Grosso do Sul pelos próximos 40 anos”. O presidente da Câmara dos Vereadores, Paulo Siufi, não deixou por menos: “A Capital ainda é a menina dos olhos do governador. Vai receber o ‘Aquário do Pantanal’ no Parque das Nações Indígenas!” E quando perguntado se não seria importante a construção da unidade da UEMS, ao invés do Aquário, foi taxativo: “Houve uma pesquisa com a população (sic) e optamos pelo Aquário”.Para o atual prefeito Nelsinho Trad (PMDB), o Aquário vai auxiliar nos projetos de educação ambiental: “Imagino a curiosidade que vai provocar. Um lugar com tantas espécies juntas. É muito bom”. (Campograndenews, 02/10/09).
Em princípio, não se pode condenar a atitude do governador ao lançar em noite festiva tantas importantes obras para Mato Grosso do Sul, inclusive o megaprojeto “Aquário do Pantanal”. Afinal, ele deve pensar, prefeitos e governadores (inclusive ele mesmo e o atual prefeito Nelsinho Trad) já fizeram isso no passado e se deram bem – foram reeleitos! (Obramania, Correio do Estado, 25/06/07). Ademais, quem pode ser contra a construção de um belíssimo “Aquário” de 60 milhões de reais, onde a criançada e o público em geral irão apreciar os peixes nativos do pantanal sul-mato-grossense e, ao mesmo tempo, saborear um ‘pintado no espeto’ no restaurante local?
Por outro lado,é preciso fazer algumas ressalvas. Em primeiro lugar, será que é legal e ético por parte de um governo qualquer (quer seja municipal, estadual ou federal), anunciar um extenso pacote de obras às vésperas de um ano eleitoral? Segundo, numa escala de 0 a 5, qual será o nível de prioridade de uma obra da magnitude do “Aquário do Pantanal” em Campo Grande, no lugar, por exemplo, de uma creche em Selvíria ou de uma escola em Anastácio, ou mesmo da revitalização do centro de Campo Grande? Finalmente, por que os governantes, em geral, ao invés de perseguirem metas sociais, insistem em medir o desenvolvimento local pelo número de avenidas duplicadas, viadutos construídos, ruas asfaltadas, obras faraônicas anunciadas?
Na praia de Iracema, Fortaleza,Ceará, onde se implanta projeto semelhante ao daqui e que custará aos cofres públicos de lá cerca de 250 milhões de reais, o Fórum de Defesa da Criança e do Adolescente e o Instituto de Desenvolvimento Social e Cidadania impetraram uma ação civil pública para barrar a construção do “Aquário do Ceará”. As entidades alegam que “o poder público, antes de iniciar obras gigantescas como essa deveria olhar mais para o sistema sócio-educativo”. Mas a julgar pela febre de “Superaquários” que deverá assolar as diversas cidades do País nos próximos anos, é provável que em breve “esta terra ainda vai se tornar um imenso Aquarial”.
* Escritor e acadêmico de jornalismo
Artigo publicado no jornal Correio do Estado no dia 19 de outubro de 2009.
Perfil de um “modinha”
Rafael Shiroma
Ando de bota, calça jeans socada no rêgo (de preferência apertando as bolas também), uso camiseta apertada para paga uma de “garoto malhado”, a camiseta de preferência tem que ser do curso de veterinária, ou qualquer coisa relacionada a boi, boné pra mim tem que ser da Nelore (pra mim isso é marca de boné, não é raça de boi).
Nas horas vagas gosto de sair com meus amigos na S-10 cabine dupla do meu pai tocando aquele sertanejo ou funk, nós vamos lá no Miça e depois agente fuma uns “arguile” até dar a hora do show do João Carrero e Capataz ou alguma violada que tiver por ai. Levo a minha canequinha personalizada para encher a cara de cerveja. Pra mim, o limite é o coma alcoólico (as mina se amarra num bêbado).
Time do coração: qualquer um que estiver ganhando, até porque é o que tem mais torcida, né!!
Pior compra que já fez: Dreamcast, ia ser a modinha do ano, pena que faliu…
Livro de cabeceira: A Modinha e o Lundu no Século XVIII
Programa favorito: Esquadrão da moda
Filme Inesquecível: Brüno
Filosofia de vida: “Na vida nada se cria, tudo se copia e por tempo limitado”
O que você tem a dizer sobre o protesto do diploma? NADA?
Foi assim mesmo, de uma hora para outra que eu decidi: “tenho que tacar um sapato nele”! Depois do e-mail que recebemos avisando da vinda do Ministro Gilmar Mendes à Campo Grande, para discutir a questão agrária (?????) no I Encontro do Fórum Nacional para Monitoramento e Resolução dos Conflitos Fundiários Rurais e Urbanos, eu não tive dúvidas; tenho que acabar com o cara que disse para eu ser cozinheira!
As minhas – nossas – lendas do Jornalismo da UFMS me acompanharam. Afinal, Keyciane e Flávio não perderiam isso por nada! E disseram que iam me visitar na prisão caso minha mãe, que estava avisada, não pagasse minha fiança. Fomos ao Palácio (Im)Popular da Cultura ontem, para que eu pudesse realizar a minha façanha.
Mas, nos deparamos com o primeiro problema; quem irá nos levar da UFMS até lá? Apelei para a classe burguesa e pelo meu poder de veterana na Universidade: “Rafaaaael, leva a gente, por favor?”. E ele, super gente boa, nos levou. Valeu mesmo Rafa!
Enfim, chegamos com um nariz de palhaço, um Flávio pintado e uma Keyciane de faixa. Encontramos vários acadêmicos em frente ao local do evento e nos juntamos a eles. “Gilmar é marajá, não precisa estudar!”. Corremos atrás de um carro que “supostamente” trazia o Ministro, e paramos nos quatro ou cinco policiais que impediram a nossa passagem. Se o Gilmar entrou pelos fundos eu não posso afirmar com certeza, porque aprendi na faculdade (que ele diz não precisarmos), que é dever do Jornalista noticiar apenas aquilo que é verdadeiro, que foi apurado diversas vezes. Mas tomara que ele tenha entrado pelos fundos mesmo!
Voltamos, gritamos com a ajuda do saudoso Professor Mario Marcio Cabreira e do casal Evelin e Lyvio, que deram ideias de gritos mais originais (Gritos Censurados!). Quando tudo estava muito bem, obrigada, escutei uma voz que dizia “Vamos embora”. Olhei para Keyci com cara de “o quê?”, e a voz confirmou o que eu havia ouvido. Era o Presidente do Sindicato dos Jornalistas de MS, Cleiton Salles que falava: “vamos embora, já chamamos mais a atenção para a gente do que para o evento, está ótimo”. E os protestantes obedeceram menos eu, Keyci, Flávio e Rafa. Não iríamos embora de jeito nenhum, precisávamos arranjar uma maneira de sermos ouvidos, cara a cara. Não era hora, lugar nem momento de levantarmos uma bandeira branca.
Claro que concordo com o “panelaço”, mas é preciso ter mais coragem e ir além do “bater de panelas”. A Keyciane disse: “vamos entrar? O que estamos fazendo aqui fora?”. Obviamente estávamos com medo, os seguranças haviam nos visto no protesto e podiam impedir a nossa entrada. Flávio e Rafa ficaram lá fora enquanto Keyci e eu… Entramos! Mas faltava entrar no lugar onde estava o Ministro. Um segurança meio desconfiadinho ficou nos encarando, então, me separei da Keyci e ela tentou primeiro. Tentou e… Entrou! “Sim, sim, eu vou conseguir entrar também”, pensei. Dei uma volta e, adivinhem?! Entrei!
O evento estava no fim, ouvi a voz do Gilmar Mendes desejando uma boa noite a todos os presentes. Mas não encontrava a Keyciane. O pessoal bateu palmas (????) e foi se dirigindo a saída enquanto eu, perdida, não sabia se gritava “SAFADO! CACHORRO! DEVOLVA O MEU DIPLOMA!”, ou se procurava a Keyci. Fui indo mais perto, mais perto, mais perto e, quando me dei conta estava lá, no meio dos Jornalistas que buscavam desesperadamente uma palavra do Ministro. Eu só queria o meu diploma!
Sem Rafa, sem Flávio e sem Keyci eu peguei minha câmera, que não é lá um IPhone mas serviu. “Ministro, o que você achou do protesto do diploma?” (…). O nada se repetiu três vezes, até que ele me respondeu, ou não respondeu, pelo o que me pareceu. Queria perguntar mais, mas minha colega de profissão “voltou à questão agrária”. Eu não me importei. Não joguei um sapato nele, mas fiz algo que eu não imaginava que poderia fazer. Fiz por vocês que lêem agora este texto, que buscam uma razão para continuar neste curso. Por mais que pareça clichê de filme infantil, quando queremos algo, e fazemos de tudo para alcançar o que almejamos, conseguimos. Pode não ser na primeira, na segunda ou na terceira, como no meu caso, mas uma hora conseguimos. E ainda no clichê de filmes bonitos, com ou sem diploma eu acredito: podemos mudar o mundo com o Jornalismo.
Raphaela Potter
O que você tem a dizer sobre o protesto do diploma? NADA?
Raphaela Potter, acadêmica do 2º ano de Jornalismo da UFMS, mostra porque, na classificação de JORGE (2008)
, é o tipo de repórter “entrão”. E, de quebra, faz a provocação ao Gilmar Mendes que ninguém mais teve coragem de fazer! E mostrou para todo mundo por que um curso superior faz sim a diferença na formação do Jornalista.
Dilma e o governador
Hermano de Melo*
Depois de esperar alguns dias (falaram até em chá-de-cadeira!), o governador do Estado, André Puccinelli (PMDB), foi finalmente recebido em audiência pela ministra-chefe da Casa Civil da presidência da República, Dilma Roussef (PT), no último dia 15 de setembro, em Brasília-DF. Conforme a imprensa local, no encontro, o governador apresentou à ministra o anteprojeto de Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) elaborado pelo governo estadual, que define as áreas de plantio da cana-de-açúcar e cria a Zona de Proteção da Planície Pantaneira (ZPPP). Segundo consta, outros temas foram discutidos, tais como, a recomposição das perdas com ICMS do gás boliviano, a construção de uma fábrica de fertilizantes no Mato Grosso do Sul, suspensão das portarias da FUNAI que determinam estudos antropológicos no MS, e a assinatura de convênios para Educação e Sanidade Animal e Vegetal. É provável até que o encontro tenha sido mais uma vã tentativa de recompor o utópico palanque único PT/ PMDB no MS.
O anteprojeto de ZEE que o governador expôs à ministra Dilma prevê uma área de dois milhões de hectares – parte dos territórios dos municípios de Rio Negro, Corguinho, Rochedo, Anastácio, Miranda e Aquidauana – onde será proibida a construção de novas usinas de álcool, mas permite o plantio da cana-de-açúcar em Pedro Gomes, parte do território de Coxim, Rio Verde de Mato Grosso, São Gabriel do Oeste, Alcinópolis, Rio Negro e Figueirão. Na ocasião, o governador André Puccinelli afirmou que “o Governo de Mato Grosso do Sul, fez o mapeamento das áreas desde 2007, com discussão com toda a sociedade (sic), participação da Embrapa, WWF e o Ministério do Meio Ambiente (sic). E para todos eles podemos plantar cana em parte da Bacia do Alto Paraguai”. E acrescentou: “O texto do ZEE se baseia em estudo científico e tecnológico e por isso deve ser respeitado pelo Governo federal”. E pergunta: “Cadê o pacto federativo? Se não for respeitado pelo Governo Federal está sendo implodido”, referindo-se à proibição da plantação da cana-de-açúcar na planície pantaneira, posição defendida pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc (ZaeCana).(Correio do Estado, 16/09/2009).
Ainda no encontro com a ministra Dilma, o governador Puccinelli enfatizou que “o nosso ZEE de nada valerá se for enviado ao Congresso o PL (Projeto de Lei) do ZaeCana (Zoneamento Agroecológico Nacional da Cana-de-açúcar) com a redação atual”. E destacou: “A opção mais correta é a da exigência de processos produtivos com certificação socioambiental para enfrentar barreiras não tarifárias e atender mercados internacionais mais exigentes”. E, mais recentemente, (Correio do Estado, 17/09), o governador declarou: “Vamos perder a soberania e sacrificar Mato Grosso do Sul. Não vou deixar entrar usina na bacia hidrográfica, mas a cana sim, por que ela recupera o solo, as voçorocas. De que valeu a participação dos técnicos que dizem que pode plantar cana? Aí por conta do selo verde exigido por organismos internacionais vamos perder a soberania”.

É evidente que na sua visão desenvolvimentista e conservadora, o governador André Puccinelli acredita que plantar cana é menos prejudicial ao meio ambiente pantaneiro que construir usinas de açúcar e álcool no alto Paraguai. Será? Em primeiro lugar, é preciso entender que é justamente o plantio da cana que causa os maiores problemas ambientais e de saúde humana, especialmente durante a sua queima, transporte e processamento – é o que acontece nesta época do ano em extensas áreas do Estado de São Paulo e de Mato Grosso do Sul. E é claro também que o plantio de cana no alto Paraguai vai repercutir negativamente em toda planície pantaneira, tanto no que se refere à poluição do ar, das águas, quanto no seu impacto sobre as populações humanas e animais da região. Em segundo lugar, essa história de dizer que a cana-de-açúcar recupera o solo e as voçorocas, pode ser até que seja verdadeira, mas a pergunta é: a que preço? Por último,embora existam inúmeros argumentos contrários à plantação de cana no alto Paraguai, falar em soberania de Mato Grosso do Sul, quando se refere ao Pantanal é uma postura no mínimo equivocada, pois esse imenso santuário ecológico – considerado desde o ano 2000 como patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO, além de reserva da biosfera – apesar de inserido geograficamente no Estado do MS, pertence de fato a toda nação brasileira e, quiçá, ao mundo civilizado, tendo em vista o processo de globalização e a interdependência entre as nações.
Antes, porém, de tomar o chá de cadeira da ministra Dilma Roussef e levar essa proposta indecorosa de plantio da cana-de-açúcar no alto Paraguai, o governador deveria ter ido ao auditório da Câmara Municipal de Campo Grande, em 14/09 último, para assistir à palestra do jornalista Washington Novaes “A idade dos limites: por uma nova cultura na relação com a natureza”, do projeto ‘Diálogos Contemporâneos’. Lá ele saberia que o desenvolvimento econômico a qualquer preço não é sinônimo de bem-estar social. E que mais cedo ou mais tarde as futuras gerações cobrarão da geração atual – especialmente de seus governantes e políticos – não apenas as toneladas de açúcar e álcool produzidas em áreas que deveriam ser preservadas, mas sim o que não fizeram para preservar essa importante reserva ecológica chamada pantanal sul-mato-grossense. E dirão: “Vocês sabiam e nada fizeram”. (Jacques Chirac, ex-presidente da França,Johanesburgo, 2002).
* Professor, escritor e acadêmico de jornalismo
Artigo publicado em 23 de setembro no jornal Correio do Estado
Tomates,touros e bebês
*Hermano de Melo

Três eventos tradicionais de cunho turístico-cultural-religioso veiculados recentemente pela mídia – dois deles na Espanha e um na Índia – causaram forte impacto no imaginário das pessoas que os assistiram, embora sejam exibidos anualmente. O primeiro deles aconteceu nas ruas da cidade de Buñol, Valencia, Espanha, onde cerca de 40 mil pessoas travaram verdadeira batalha campal com tomates durante três dias seguidos na chamada “Tomatina”. O segundo se deu nas ruas do centro histórico de Pamplona, país Basco, norte da Espanha, durante as festividades de São Firmino (San Fermin), quando pessoas comuns e corredores oficiais (“Os Divinos”) arriscam a vida correndo à frente de meia dúzia de chifrudos e enfurecidos touros. E o terceiro ocorreu no santuário hinduísta-muçulmano de Baba Umer Durga, oeste da Índia, no denominado “ritual de prosperidade para o início do outono”, em que centenas de bebês são jogados de uma altura de quinze metros do telhado de uma mesquita e aparados precariamente em lençóis.
Conforme o jornal El País, na “Tomatina” deste ano (26/08/09), foram consumidas cerca de 100 toneladas de tomates nos três dias de festa que custaram 90.000 euros ao governo local, dos quais 28 mil foram gastos só em tomate! Apesar disso, o evento é visto como uma importante atração turística pela prefeitura, “pois movimenta muito o comércio da cidade”. E as imagens não deixam mentir: milhares de pessoas se lambuzam e nadam em verdadeiros rios de suco de tomate pelas ruas de Buñol. Mas será que há alguma coisa errada em tão inofensiva prática popular que acontece desde 1945? As respostas variam, mas o que chama atenção é o enorme desperdício de tomate nos três dias de festa. Até mesmo em blogs espanhóis essa preocupação é visível: “Lástima de tomates. Nunca entendi esta festa. É um desperdício de alimentos num mundo necessitado de artigos de primeira necessidade”. E outro diz: “Será que não dá pra substituir o tomate por outro produto vermelho qualquer que não seja alimento?”
Em relação aos festejos de São Firmino, o problema é outro. Na festa de nove dias (6-14 de julho) que atrai milhões de turistas de todas as partes do mundo, a atração principal é o encierro (corrida de touros), cuja graça consiste em fugir à frente de meia dúzia de touros que pesam cerca de meia tonelada cada um e que são escolhidos de acordo com o tamanho dos chifres (quanto maior, melhor!).Conforme a agencia EFE, na São Firmino deste ano um jovem espanhol foi morto e quatro ficaram feridos – um escocês, um americano, um espanhol e um francês (o escocês de 50 anos sofreu traumatismo craniano). Calcula-se que, desde 1922, quando as festividades começaram, até os dias de hoje, 15 pessoas morreram por touros nas ruas estreitas de Pamplona. Esse número parece irrisório, mas é que as estatísticas publicadas não contabilizam as dezenas de feridos e incapacitados que resultam da corrida de São Firmino. Também não se diz que, ao final da corrida, a maioria dos touros é morta por toureiros profissionais numa arena onde ocorre uma tourada tradicional, para delírio dos turistas. É bom lembrar, no entanto, que as festividades de São Firmino ficaram famosas após a publicação do livro de Ernest Hemingway, “Fiesta” (“Quando o Sol se Levanta”, no Brasil). (Diretodaredação, 26/07/09)
Quanto ao hábito hinduista-muçulmano de jogar bebês “morro abaixo” num ritual que eles supõem essencial para a prosperidade de seus rebentos, trata-se de uma tradição de 700 anos que se repete anualmente na Índia e que vem recebendo fortes críticas de entidades que defendem os direitos humanos no mundo. Em imagens mostradas na TV e em vídeos na Internet, os bebês são ainda chacoalhados e choram muito antes de ser atirados, o que levou ativistas pró-direitos das crianças a protestarem contra tal prática e uma comissão do governo indiano prometeu investigar o caso. Será? Aliás, sobre esse tipo de bestialidade humana basta dizer que mesmo que os bebês se tornem no futuro adultos fisicamente sãos e prósperos, é quase certo que eles serão também fortes candidatos a ocuparem consultórios psiquiátricos durante grande parte de suas existências.
Em resumo: Das práticas citadas acima, exceto talvez a “Tomatina” poderia ser classificada apenas como uma festa inofensiva, atração turística e uma tolice popular. Entretanto, no caso do encierro (corrida de touros) que acontece durante a Festa de São Firmino, em Pamplona, e o costume de jogar bebês ladeira abaixo no oeste da Índia, são práticas condenáveis que atentam contra a vida e a dignidade humanas e deveriam ser proibidas, apesar do forte apelo turístico-cultural-religioso que as cercam. Além disso, vale salientar que a corrida de touros em Pamplona, Espanha, se constitui num claro exemplo de maus-tratos aos animais, o que reforça a tese de sua proibição naquele país. Mas o que dizer então do rodeio de touros que acontece todos os anos na Festa do Peão Boiadeiro em Barretos, Estado de São Paulo, hein?
* Escritor e acadêmico de jornalismo.
Artigo publicado no jornal Correio do Estado em 04 de setembro de 2009.


