Sem título

07/02/2010 at 22:30 (Keyciane Pedrosa)

Fiquei em dúvida em que título dar a esse post. Surgiu-me dar-lhe o nome “Jogo dos 7 erros”. Mas, pensando bem, são bem mais de 7. São milhões de coisas erradas que acontecem nesse país diariamente, ao que a gente assiste imóvel, perplexo, besta, bunda-mole. Pensei também em chamar-lhe “Duas fotos e uma lenda: a justiça no Brasil”. Porque, realmente, se existe justiça por essas paragens, francamente, não me apresentaram. Mas também não gostei deste. Pensei em uma outra leva de nomes-clichê (nem tanto quanto o que ficou ali em cima) que já me fugiram da cabeça. Mas já não importa. Foram-se as idéias, ficou a perplexidade. E  se as imagens falam por mil palavras. Lá vão milhares de perversidades.

Vejamos essas duas fotos:

Prisão de BANQUEIRO acusado, entre outras coisas, de formação de quadrilha, em julho de 2008. Foto de Wilton Junior, da Agência Estado (Disponível em Galeria de Imagens da Operação Satiagraha, no site do Estadão).

A algema que nem se vê na foto da prisão do banqueiro, envolvido em escândalos históricos nos governos FHC e Lula, foi motivo de muito ba-fa-fá há época. Tudo por causa de uma tal súmula vinculante do STF (lei Dantas, para os íntimos) que limita o uso de algemas. Curiosamente, até agora nem um terço do alvoroço das algemas de 2 anos atrás foi manifesto pelas autoridades, operadores do Direito, ou pela mídia deste país (a exceção a essa e quase todas as outras regras está na Internet) em relação a essas algemas aqui:

Prisão de MILITANTE do MST acusado, entre outras coisas, de formação de quadrilha, em janeiro de 2010. Foto de Luis Cardoso da Agência Bom dia. (Reproduzido do Estadão pelo blog do Paulo Henrique Amorim).

Bem, isso sim é uma algema “espetaculosa”. A prisão, uma entre mais de 20 de militantes autorizadas pela justiça só no mês de janeiro, é decorrente da ocupação da Fazenda (grilada) da Cutrale, no interior do estado de São Paulo, e sua famigerada destruição de pés de laranja.

Perceberam o contraste? É ou não é para ficar sem palavras? É óbvio que os contextos são diferentes, os crimes também, as polícias, as épocas (ano eleitoral é dose!), e o mais óbvio de tudo: as justiças são completamente diferentes. Não há muito mais que eu consiga manifestar, além de uma enorme tristeza e aquela eterna pontinha de esperança expressa na prece diária de “Meus Deus, socorro!!!”.

***

Para quem não se lembra ou quer refrescar a memória em relação aos contextos originários das duas fotos, recomendo a leitura dos artigos do Hermano “Colarinho Branco” e “O trator e o laranjal“.

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Casamento silencioso

03/02/2010 at 12:08 (Hermano de Melo)

Hermano de Melo*

Trailer de "Casamento Silencioso", videocast da Folha

Exceto em ocasiões muito especiais, o silêncio no casamento é indicativo de que a relação não anda bem ou que foi definitivamente pros quiabos. Mas este não é de fato o mote central da comédia-drama romena dirigida por Horatiu Malaele,“Casamento silencioso” (2008), exibida no Cinecultura, durante o 7º Festival de Cinema de Campo Grande, MS – o Festcine Pantanal. No filme em apreço, o silêncio é imposto a uma festa em comemoração ao casamento de dois jovens num pequeno vilarejo no interior da Romênia, em 1953, durante a ocupação soviética e no governo do ditador Nicolae Ceausescu. A justificativa para isso é a morte na véspera do líder comunista russo Josef Stalin.

O filme se inicia, nos dias atuais, com uma equipe de TV que investiga fenômenos paranormais e que descobre um fato inusitado: numa determinada aldeia no interior da Romênia, onde ainda se vê esqueletos de fábricas deixados pelos soviéticos durante a ocupação do País, todos os habitantes são mulheres velhas enlutadas – não há homens, exceto o prefeito! A partir daí, o diretor faz um longo flashback aos tempos da ocupação russa em territórios romenos, a fim de revelar o porquê da não existência de homens no local.

Tudo começa com a paixão avassaladora entre dois jovens, Mara e Iancu, que depois de realizarem inúmeras estrepolias sexuais na floresta que circunda a vila romena, são ‘gentilmente’ convencidos pelo pai da noiva (assim como se fazia até pouco tempo por aqui) a se casar. E marcam então a data do casamento, quando haveria então uma grande festa para comemorar o evento. Mas eles não contavam com o inesperado: na noite anterior à data planejada para a festança, morre na União Soviética o líder comunista Josef Stalin e o governo romeno decreta então sete dias de luto oficial, proibindo todo e qualquer tipo de manifestação festiva, inclusive a do casamento entre os jovens.

Assim, no dia em que os camponeses comemoram nas ruas o casamento de seus filhos,chega à aldeia um emissário do governo Ceausescu, acompanhado de um oficial russo e do prefeito do lugar. E o diálogo que se segue é o que se pode chamar de cômico-trágico. O oficial romeno repete o que o camarada russo diz: “Nada de risadas, nada de casamentos, nada de funerais”. E o prefeito retruca: “Como nada de funerais? O camarada Stalin não vai ter um funeral?” E como resposta recebe um tremendo soco na cara do emissário do governo romeno. E tudo então é recolhido – mesas, comidas, enfeites, etc. – e a festa aparentemente acaba.

Os moradores, porém, ainda acreditam que podem enganar o governo Ceausescu e decidem então fazer a festa de casamento na calada da noite e de forma silenciosa. No intuito de não deixar transparecer que ali acontece uma animada festa de casamento, com a presença de autoridades locais, pais dos noivos, moradores, crianças e dos noivos, tudo – diálogos e discursos, tilintar de copos e talheres, banda de música, etc. – é feito de forma simulada e sem qualquer ruído. Até as bocas das crianças são tapadas com pedaços de pano para evitar risadas e o cuco do relógio de parede é ‘nocauteado’ quando insiste em anunciar a hora!

Mas aí então começa a cair um forte temporal, com raios e trovões, e o pai da noiva resolve liberar geral: os músicos para tocarem seus instrumentos, a dança, o falatório e a barulheira retornam a todo vapor ao recinto da festa. O resultado não poderia ser mais desastroso. De repente, um tanque russo vindo ninguém sabe de onde, rompe literalmente a parede do salão de festas e acaba com a comemoração de casamento com o uso da violência. Em seguida, todos os homens da cidade presentes ao evento, exceto o prefeito, são colocados na carroceria de um caminhão do exército e enviados para local não sabido e de onde jamais retornariam. E assim apenas as mulheres ficam no vilarejo romeno.

Descontados os clichês, o filme de Horatiu Malaele, “Casamento silencioso”, mostra de forma jocosa a reação da população local à invasão soviética da Romênia em 1953, e a platéia tem bons motivos para dar risadas durante sua exibição. No entanto, fica claro também que apesar das brincadeiras, a película denuncia de forma contundente o autoritarismo e a violência que ocorrem durante a invasão de um país por tropas militares estrangeiras, quer o invasor esteja à direita ou à esquerda do espectro político, ou o país invadido seja a Romênia em 53, o Vietnam na década de 60, ou o Iraque e o Afeganistão nos dias atuais!

Além disso, é possível inferir do filme de Malaele que, numa ditadura – tanto a vigente na Romênia em 1953 quanto a que aconteceu no Brasil em 1964, e outras que ocorreram em países sul-americanos na década de 70, além do golpe militar em Honduras (2009) – não se deve colocar num mesmo patamar de culpa, golpistas e golpeados, torturadores e torturados, exército e povo reprimido, mesmo quando estes últimos se utilizam de armas para lutar pelo país e restabelecer a ordem democrática! Nesse sentido, a Lei de Anistia brasileira, assinada em plena vigência da ditadura militar (1979), precisa ser melhor analisada. Esta talvez seja a maior contribuição que o filme dá aos que vêem nele algo mais do que uma simples cerimônia festiva de casamento matuto.

* Professor, escritor e estudante de jornalismo

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Floripa e os borrachudos

18/01/2010 at 14:52 (Hermano de Melo)

Hermano de Melo*

A praia e o borrachudo

Barra da Lagoa, em Florianópolis (Foto de Paulo Pinheiro). No detalhe, o borrachudo (Crédito: Vetores&Pragas).

Com o título “Indesejáveis”, deu na coluna de Cacau Menezes no “Diário Catarinense de 23/12/2009: “Assim como os que vieram para o lugar errado, há outra praga castigando a Ilha (Florianópolis): os borrachudos. Não dá mais para deixar janelas e portas abertas depois das 16h. Seja em casas ou apartamentos, nas zonas ricas ou pobres, todos sofrem. Tem borrachudo até no microondas da madame”. É claro que quando fala em borrachudo, o colunista não se refere ao conhecido “cheque voador” – aquele que vai e volta por falta de provisão de fundos. Ele fala de um tipo de inseto, vulgarmente conhecido como pium, que durante o verão inferniza a vida das pessoas – especialmente dos turistas – que se aventuram em cachoeiras e quedas d água, não apenas nas praias de Floripa, mas em outras regiões do litoral brasileiro.

Exageros à parte, o fato é que a incidência de borrachudos aumentou bastante neste final de ano velho-2009/início de ano novo-2010 em Floripa, e sua infestação, como se sabe, traz sérios problemas à população local, especialmente às crianças. É que as fêmeas desses insetos, além de sugarem sangue, provocam reações alérgicas e podem transmitir algumas enfermidades, como um tipo de filariose – a oncocercose –, por exemplo. Entretanto, existem também outras pragas que aconteceram nesse início de verão em Floripa, que tornam a questão dos borrachudos tão pequena quanto ela é de fato.

O que dizer, por exemplo, de uma população normalmente de 360 mil habitantes e que de repente chega a quase um milhão? E de temperaturas que, mesmo no verão chegam, no máximo, a 30 graus centigrados, e que neste final do ano-início de 2010 chegaram a 40º à sombra em Floripa? E da leva inédita de argentinos que por aqui aportaram e que se calcula atingiu a cifra de 20 mil hermanos loucos por praia e sol? E, finalmente, como absorver nessa ilha abençoada os milhares de carros que aqui aportaram vindos de diversas partes do Brasil e que atravancaram o trânsito na BR-101 e no interior da Ilha na virada do ano?

O que aconteceu, portanto, neste verão de Floripa é que, da mesma forma que no ano passado todos fizerem questão de fugir daqui por causa das enchentes que atingiram diversas cidades do Estado, este ano todos resolveram vir à Floripa e às outras praias de Santa Catarina! E isso é também verdadeiro para um grande número de turistas sul-mato-grossenses que aqui aportou nesse verão, inclusive o atual governador do Estado, André Puccinelli, e o anterior Zeca do PT, que decerto vieram acertar os ponteiros sobre as eleições estaduais deste ano, com a intermediação do sempre presente e enigmático senador Delcídio do Amaral.

O resultado de toda essa migração em direção à Santa Catarina e, especialmente, à Floripa, foi o verdadeiro caos urbano que tomou conta da Ilha nos primeiro dias de 2010! Faltou água nas praias do Norte da cidade, o serviço de coleta não deu conta de recorrer todo o lixo produzido no feriadão, o serviço de transporte coletivo não funcionou como deveria, e o trânsito no interior da Ilha parou. Houve congestionamentos gigantescos, e ai de quem se dirigisse, por exemplo, para a Lagoa da Conceição, passando pela Praia Mole, Joaquina e adjacências. Enfim, apesar de Floripa continuar a mesma maravilha – com suas praias, seus verdes, o litoral magnífico, um povo supimpa – pelo visto, o capitalismo selvagem também aportou por aqui. Em Barra da Lagoa, por exemplo, os hermanos argentinos tomaram conta de quase tudo: barzinhos, passeios turísticos, lojas e restaurantes, pousadas, etc., e fizeram com a população local – os manezinhos da ilha – também aderisse ao “vil metal”.

Existe outra praga, porém, ao que parece tão antiga quanto à própria Ilha, que precisa ser combatida com a máxima urgência: a imensa população de cães nas ruas de Floripa! São tanto os cães – nas residências, nas ruas, nas praias e outros lugares – que a sensação que se tem é que esses animais vivem em completa liberdade e sem qualquer controle dos órgãos responsáveis pela Vigilância Sanitária e da Saúde Pública. Barra da Lagoa, por exemplo, virou depositário desses animais, e que perambulam pelas ruas do bairro, colocando em risco os moradores e turistas que ali chegam. É preciso fazer alguma coisa urgentemente! Sintomático nesse sentido foi o episódio divulgado pela imprensa local em que um aposentado de 82 anos foi expulso de casa, onde criava sem as mínimas condições de higiene 48 gatos e alguns deles com sinais de doença!

Por fim, voltando aos borrachudos, a pesquisadora da Embrapa de Concórdia, Doralice Pedroso de Paiva, em trabalho recente, descobriu que “onde tem peixe significa que a água está limpa. O borrachudo, porém, é indicador de má qualidade da água, e denuncia que a água está suja”. Ou seja, a praga do borrachudo que ataca a população de Floripa neste verão é indicativa de que, apesar das praias maravilhosas, do verde sempre presente, e da consciência ecológica de seus moradores, a cidade parece sofrer do mesmo mal que atinge outras capitais brasileiras nos dias de hoje: o caos urbano, a poluição e a fúria consumista dos habitantes de outras grandes metrópoles. Uma pena.

Clique na imagem e assista a vídeo educatvio sobre as ações de combate ao borrachudo.

* Médico-Veterinário, Escritor e Acadêmico de Jornalismo.

Artigo publicado no Jornal Correio do Estado em 20 de janeiro de 2010.

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Um velho que lia histórias tristes

16/01/2010 at 23:17 (Keyciane Pedrosa)

Conheço um velho.

Um velho amigo.

Só o conheço há dois anos.

Mas ele já é um velho amigo.

Um velho com aparência de moço.

É verdade.

Mas, nossa amizade é velha.

Nossas conversas, quase caducas.

Por que velhos são os sonhos que nos mantêm aqui.

Por que velhos são os problemas que nos uniram.

Por que velha é a nossa esperança.

***

A verdade é filha do tempo

Não da autoridade

(Uma frase do Francis Bacon que li em algum lugar)

***

Ele tinha insônias periódicas.

E lia as minhas histórias tristes.

E chorava comigo.

Às vezes mais do que eu.

Era um velho paciente.

Mas não esperava nada parado.

Aguentava as minhas reclamações sem fim.

E reclamava junto.

Um velho que não conseguia advinhar nenhuma das novidades que eu queria contar.

Mas mesmo assim sabia o que eu pensava.

Um velho que merece tudo o que há de bom no mundo.

Por que o seu coração é um das melhores coisas que há.

***

E que fique muito mal explicado.

Não faço força para ser entendido.

Quem faz sentido é soldado…

(Poema que o Pyro me mostrou um dia desses)

***

Esse velho não se conforma.

E me fez ver que quando o assunto é universidade não importa a vontade da maioria

As coisas são o que são

E os impostos que se paga não podem ser em vão

(olha, até rimou!)

Aliás, esse velho amigo gosta um bocado de poesia.

E de outras coisas sem sentido.

Como comunicação e jornalismo.

***

Diz que idealismo morreu

Foda-se quem se vendeu

(Letra de rap do E.m.i.c.i.d.a.)

***

Ele me ensinou muito sobre essa coisa toda.

E tenho cá pra mim que ele será sim um bom jornalista.

Mesmo que pra isso tenha que viver

me dizendo coisas como:

***

Ainda assim fica aquele ne

no estômago

(Uma dessas coisas que você digita – ou tenta – no MSN)

***

Feliz Aniversário Flávio!

***

E muito obrigada!

…eu não teria feito nada naquela universidade sem você…

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Corrida tecnológica

15/01/2010 at 16:00 (Kamila Pinheiro)

A visão humana é estereoscópica, ou seja, tem a capacidade de perceber proporções, volume e profundidade dos objetos que nos circulam. A visão tridimensional que temos do mundo é resultado da interpretação pelo cérebro de duas imagens captadas por cada olho a partir de pontos de vista diferentes. Nossos olhos assim o fazem automaticamente; esse mecanismo também pode ser simulado por imagens sejam elas estáticas ou em movimento.

Durante um curto período, na década de 50, indústrias cinematográficas usaram o cinema em terceira dimensão, que não teve grande expansão devido à imatura tecnologia que não atendia os altos requisitos exigidos pelo cinema 3D. A televisão estereoscópica não conseguiu estruturar-se, e também por causa da limitação tecnológica, por exemplo, o sinal de vídeo difícil de sincronizar dos sistemas analógicos prejudica a qualidade da imagem, imprescindível para a visualização estereoscópica sem desconforto para o espectador.

Atualmente o cinema digital é real, as barreiras tecnológicas podem ser superadas, com o desenvolvimento da tecnologia vídeo digital, que facilita a manipulação das imagens, e a produção de óculos obturadores de cristal líquido permite uma nova forma de visualiza-ção tridimensional, tais avanços tecnológicos estão presentes em setores de uso militar e nos setores industriais.

A estereoscopia é resultado de pesquisas de vários campos teóricos, e está em constante evolução, e vem se revelando como inovadoras formas de comunicação, na qual a atenção deve enfocar-se, pois pode tornar-se uma tecnologia padrão, e abrir novos campos de atuação para profissionais de designer, comunicação, artes visuais, e quem se interessar por produção audiovisual. Além de ser uma ferramenta de trabalho e estudos de pesquisas tecnológicas em outras áreas como engenharia e medicina.

No Brasil há poucos pesquisadores direcionados ao estudo do audiovisual estere-oscópico, e não devemos ficar atrasados em relação a outros países que desenvolvem estes estudos em maior escala. Assim como nossos olhos vêem o mundo em três dimensões, a comunicação visual tende a seguir o mesmo caminho, evoluindo os aparelhos e mídias para a aquisição de imagens estereocópicas que em breve substituirá as formas atuais de visualização.

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Ei, seu ministro! E a democracia?

14/01/2010 at 13:05 (Autores Convidados)

Rafael de Abreu

O III Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) é fruto de uma participação de várias entidades da sociedade civil, movimentos sociais, poder público e militantes de diversas partes do Brasil. A construção durou mais de dois anos e foi consolidada e aprovada na XI Conferência Nacional dos Direitos Humanos que ocorreu em dezembro de 2008 em Brasília.

Qualquer Conferência é super importante para a democracia e para o país, pois é nela que todos os segmentos da sociedade se organizam e constroem coletivamente propostas que interessam a todos. O PNDH-3 é de interesse coletivo e criado pelo povo, um ministro e três comandantes das Forças Armadas, comprometidos com a democracia, nunca poderiam ter pressionado o presidente a alterar um documento criado pela sociedade.

Toda essa briga começou quando o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ameaçou junto com os três comandantes da Forças Armadas deixar o cargo. Eles consideram o PNDH-3 “revanchista” e absurda a criação da Comissão de Verdade e Justiça, que poderia encaminhar a apuração e a punição dos crimes e torturas cometidos na Ditadura Militar. Não é revanche caro doutor Nelson Jobim, além de justiça queremos provar que os mesmo que torturaram e liquidaram os brasileiros opositores ao governo, continuam agindo de má-fé e sem qualquer punição. Nos casos citados abaixo, por exemplo, quem garante que não são as mesmas pessoas, eles agem igualmente a cães raivosos.

Os Polícias Militares fazem segurança em fazendas de Mato Grosso do Sul nas áreas conflitos indígenas, embora a Constituição Federal deixa claro que em áreas de conflitos indígenas quem monitora é a Polícia Federal, e que ela depende de um pedido da FUNAI (Fundação Nacional do Índio). [http://www.inconsenso.com/2009/11/policia-militar-faz-seguranca-privada.html].

A revista Le Monde Diplomatique Brasil publicou neste mês uma matéria com o título “A ordem é matar e criminalizar camponeses” mostra a Polícia Militar tentando tirar integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais e Sem-Terra (MST) de uma fazenda na Bahia, o autor é Aton Fon Filho, advogado especialista em direitos humanos e membro da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. A matéria é muito construtiva para quem ainda dúvida dessas práticas.

Outro fato que chamou a atenção recentemente foi a ação dos polícias contra os manifestantes contrários ao governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda. [http://vimeo.com/8087713].

O documentário “Brad, mais uma noite nas barricadas”, mostra perfeitamente como a polícia no Brasil agiu e continua agindo. É mostrado também a reintegração de posse do Sonho Real em Goiânia, onde a Polícia Militar atira nas pessoas com bala de verdade, sobra até para o Brad Will que está filmando. [http://docverdade.blogspot.com/2009/08/brad-mais-uma-noite-nas-barricadas-2007.html]

São muitos os crimes cometidos contra os brasileiros, infelizmente estamos longe de um Brasil realmente democrático, atitudes como a do ministro e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em alterar o documento só mostra como ainda somos provincianos.

Ninguém aguenta mais tanta hipocrisia!

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BOOM!

11/01/2010 at 19:46 (Flávio Marques)

Ela ficou o dia todo de um canto a outro, era como se não achasse lugar em lugar nenhum. Dona Glória fazia o jantar enquanto seu Rogério assistia ao jornal. Tudo normal, até demais!

- Pai, uma pessoa pode explodir?
- Eu to ocupado agora minha filha!
- Não tá não pai. Uma pessoa explode?
- Marina, você, por acaso, é um homem-bomba?
- Claro que não!
- Então, me deixa ver o jornal e vá ajudar a sua mãe!

Tudo estava muito pior. A conversa com o pai deixou-a ainda mais cheia, parecia que já não cabia mesmo em lugar nenhum.

- Mãe!
- Nós já vamos comer. Vá lavar as mãos e chamar o seu avô!
- Mas eu não conseguirei comer nada.
- Quantas vezes eu já te falei para deixar a Marina comer fora de hora, hein Rogério?
- Agora vai fazer o que te pedi, anda menina!

Marina saiu da cozinha com a certeza de que a qualquer momento estaria espalhada pela casa, em pedacinhos. – Aí, quem sabe, me notariam e ficariam pensando “Por que nós não lhe demos atenção?”. É o mínimo que pessoa merece antes de sua explosão fatal, não é?

- Vovô, a comida já tá pronta. Mas eu não posso comer.
- Por quê?
- Porque eu to cheia. Eu to cheia feito lua.
- Eu sei bem como é isso. Mas saiba, eu tava aqui me lembrando de sua avó. Nós nos amávamos muito, minha querida.
- Você sente muita saudade, não é verdade?
- Ah, sim! Eu também passei muito tempo como lua cheia de tudo o que sentia pela minha Heloísa. Mas, pra minha sorte, um dia ela olhou para o céu. Se isso não tivesse acontecido nem sei o que teria sido de mim.

- Humffy, talvez você explodisse vovô!
- O medo e a incerteza fazem parte da vida, minha menina. Todos vão dormir sem saber se hoje será o ontem de amanhã. E lembre-se sempre que na vida há coisas que precisamos dizer, algumas apenas escrever e outras que precisamos contar a alguém. Esse seu velho avô estará aqui pelo tempo puder.

Naquela mesma noite, num pedaço de papel sobre a mesa do quarto:

Amanhã o Lucas vai saber que gosto dele. Quando a gente se casar, eu também vou ficar ocupada vendo o jornal.


ps: perguntar se o Lucas sabe cozinhar e dizer que é bom que ele aprenda!

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Um pouco mais que palavras

30/12/2009 at 23:24 (Matheus Cabral)

Quanto tempo que eu não dava minha “cara” por aqui. Um pouco por desleixo, um pouco por preguiça, mas eu acredito que minha ausência (prolongada, sim) foi de não ter algo realmente importante ou que valesse mesmo a pena comentar. Estamos no último dia do ano (ou à alguns 65 minutos dele) e com toda aquela gama de postagem das pessoas no twitter, falando de suas experiências ao longo do ano, eu me peguei em um momento nostálgico e sentimental (talvez seja redundância, não sei dizer) e resolvi falar algumas palavras, mas espero que serão mais que palavras, talvez lembranças, sentimentos, sei lá.

Esse ano foi um pouco conturbado para mim, acho que a maioria dos meus colegas de classe notaram. Eu não me sentia bem com um milhão de coisas que aconteciam ao meu redor, e isso não é de agora, vem de antes. Não me sentia bem, e acho que esse ano foi decisivo pra mim em inúmeras possibilidades.

2009 foi o ano de eu tomar uma decisão que pode ter sido a mais burra, ou a mais genial, que eu tenha tomado em minha vida. Abandonar o curso de Jornalismo. O primeiro momento que eu encarei essa ideia, tomei uma decisão de imediato, impensada, sim, mas não quis revelar nada a ninguém; pensei comigo “deve ser mais uma fase daquelas em que eu desejo ter um tênis novo e procuro conseguir isso até me esgotar e encontrar um novo modelo para me sentir atraído”. Não foi bem assim. A ideia amadureceu, tomou corpo e jogou sobre mim incontáveis argumentos que a fortalecia e fazia eu ainda mais a querer por perto.

Meu primeiro medo foi contar para os meus pais, tinha receio de eles discordarem da minha decisão e não me permitir seguir com meu plano. Eles discordaram, como todo pai sensato, que ralou anos para conseguir pagar uma escola decente para o filho, faria. Meu medo era a reação do meu pai, mas a dele foi a mais surpreendente “Faça o que você achar ser o certo”. Minha mãe bateu o pé, exigiu, ameaçou, mas diante da minha postura firme de continuar com aquilo, ela cedeu sem querer ceder. Normal.

Tomada a decisão, eu segui meu rumo, com dúvidas, mas segui. Eu tá infeliz, não queria mais continuar, e tomar essa decisão me deu um ânimo que nem mesmo eu vi algum dia em mim. Peguei nos livros, estudei (apesar de não ter sido daquele jeito “devorar os livros” eu estudei) e prestei meus vestibulares. Agora tô aguardando o veredicto se passei ou não.

O real motivo de eu ter passado aqui não foi pra relatar minha loucura de abandonar o curso, mas sim para deixar aqui minha marca e desejar a todos um feliz 2010. Posso não ter histórias incríveis compartilhadas com todos os colegas, posso não ter entrado em discussões calorosas, posso não ter rido com todos, mas quero lembrar a todos que não esqueço das aulas em que todos (ou quase) estavam presentes ali, voltados para um mesmo ponto, apreendendo a mesma ideia. Posso dizer que vou levar essa experiência para toda minha vida. Aprendi muitas coisas, até fiquei analisando o filme “Avatar” segundo a Escola de Frankfurt (depois parei e fui curtir o filme, claro). Muitas coisas foram vividas, muitas ainda serão e espero que todos aproveitem. E em breve (tomara) sei colega, mas de Universidade.

Espero que não foram somente palavras jogadas fora, e que signifiquem mais que isso. Obrigado, por tudo.

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daqueles que vem com o fim de um ano

27/12/2009 at 12:59 (Flávio Marques)

Eu ouvi o cara pedindo pra brincar, pra pintar o nariz. A brincadeira era a tal felicidade, mas até agora, aqui escrevendo, acho que ela não é muito fácil. Só que hoje passou por aqui um anjo, que veio à Terra há pouco tempo. Eu me lembro bem do dia. Foi um novembro de manhã e o anúncio veio pelo grito de seu moço que não se agüentava de alegria, era tanta que o moço-menino, que guardava um sorriso bem grande, desenhou o anjinho e veio correndo mostrar. Daí em diante todo mundo recebe toda a luz que vem dela, é ela sim! E é luz que vem da cabeça aos pés e ilumina a gente.

O mais engraçado é o jeito como ela faz isso, de deixar a vida tão boa e simples. E é um jeito que sai sem jeito e sem esforço. É como se ela não precisasse fazer nada e tudo ao mesmo tempo. Ela chega perto e fala ou não fala, já faz tudo ficar melhor. É um gesto, um sorriso que ela dá e isso já chega pra todos estarem rindo juntos. Os anjos têm guardado com eles a felicidade. Aquela que eu tinha falado antes e que desejo pra tanta gente. Felicidade que é muito mais que alegria e que vem sem motivo nenhum e com todos os motivos do mundo.

O meu anjo brinca de ser feliz dentro do jogo da vida, que é bem difícil e cheio de regras. É assim com as outras pessoas também. Mas essas regras não fazem diferença pra ela. Parece que quanto menos tempo se está sobre o tabuleiro, mais fácil ele fica. A menina do cabelo de sol não precisa de muita coisa pra jogar e se dar bem. Principalmente se ela estiver junto com o anjo mais velho. O moço tem sorte, recebeu dois de presente lá do céu. O anjo-menino já tá aqui há mais tempo, chegou a cinco outubros atrás. Ele agora brinca de um jeito diferente, com a mesma pureza dos pequenos, mas também sem tanta facilidade. Ai, eu fiquei pensando, enquanto olhava os dois brincando, o que é que muda? O que fica diferente? Parece que vamos desaprendendo enquanto o tempo passa.

No rádio escutei alguém dizendo “Será que é tempo que lhe falta pra perceber, será que temos esse tempo pra perder? E quem quer saber, vida é tão rara”. E a gente esquece-se disso, falta paciência e sobra pressa de chegar, de ganhar o jogo. Os meus anjinhos e todos os outros não se preocupam com isso, ainda. Mas será que essa preocupação precisar vir? E a raridade que é estar vivo, a gente esquece quando? Quem cantava a música que eu ouvi reconhece que “mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma [...] a vida não pára”. E que ninguém ouse mexer no ritmo vida, no seu ciclo. Mas para estar nesse jogo, nessa grande roda não precisamos correr a ponto de precisarmos atropelar uns aos outros. Eu vou ficar aqui tentando aprender com os meus anjinhos como brincar de jogar a vida, mesmo sem saber acho que toda criança é mestre nisso. Ah, mas tem uma coisa! Quem tiver a oportunidade de entrar na roda e subir no tabuleiro não pode correr muito, para não correr sozinho. Mas também não pode, de jeito nenhum, ficar parado.

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Copenhague e o pré-sal

19/12/2009 at 12:34 (Hermano de Melo)

Hermano de Melo*

Vídeo produzido pelo greenpeace.org.br


O Brasil, a exemplo da China e da Índia, apresentou à 15ª Conferência Mundial sobre Mudanças Climáticas (COP-15), em Copenhague, Dinamarca, a proposta de reduzir em cerca de 40% a emissão de gases-estufa até o ano 2020. Para atingir essa meta, o governo brasileiro se compromete, dentre outras medidas, a diminuir em 80% e 40%, respectivamente, o desmatamento da Amazônia e do Cerrado brasileiros. Mas para o principal negociador da União Européia (UE) para o clima, Artur Runge-Metzger, isso não basta. E cobrou uma posição sobre o uso do pré-sal: “Sabemos que muito petróleo foi encontrado em frente à costa brasileira. Ele será usado em grande escala?” perguntou. “Até hoje a matriz energética brasileira é limpa, majoritariamente de hidrelétricas e o País tem a vantagem de usar muito biocombustível. Mas isso pode mudar radicalmente se essa grande quantidade de petróleo for utilizada” (Agencia Estado, 11/12/2009).

E Runge-Metzger tem razão ao levantar tal querela. Ora, se o Brasil está efetivamente preocupado com o futuro do Planeta e a mitigação dos efeitos maléficos dos gases efeito-estufa, a fim de evitar o aquecimento global – e a sua proposta perante o Fórum do Clima em Copenhague revela isso – o que o País pretende efetivamente fazer com os cerca de 300 bilhões de barris de petróleo que se estima serão retirados da camada do pré-sal brasileiro a partir dos próximos dez anos?

Em relação à utilização do petróleo da camada de pré-sal no Brasil, há pelo menos duas correntes que defendem posições antagônicas. A primeira, amplamente divulgada pela mídia e encabeçada pelo próprio governo brasileiro, tendo como timoneiros o presidente Lula e a ministra Dilma Roussef, assegura que o óleo negro do pré-sal fará do Brasil um País muito melhor e que o povo brasileiro será o grande beneficiário desse imenso manancial de petróleo descoberto no litoral brasileiro. Como disse recentemente o presidente Lula: “O petróleo pertence ao Estado, ou seja, a todo o povo brasileiro.Com o modelo de partilha, poderemos aproveitar a riqueza que Deus nos deu. Não vamos deslumbrar e sair por aí como novos ricos torrando o dinheiro com bobagem. O pré-sal é um passaporte para o futuro”.

E o advogado Castagna Maia (Carta Capital, 27/09/2009), vai ainda mais longe e diz que com apenas 14% do que vai ser arrecadado com as reservas de petróleo do pré-sal (total estimado em 730 bilhões de dólares), “o Brasil pode fazer um novo fundo igual à soma do FAT e do FGTS, mais 20 trens-bala, uma Harvard tropical e corrigir e manter aposentadorias do INSS”. De certa forma, essa proposta reedita em muito a campanha ufanista “O petróleo é nosso”, desencadeada na década de quarenta do século passado e que culminou com a criação da Petrobrás, em 1953 (Kaosbrasil, 02/09/2009).

A segunda corrente, apesar de reconhecer a importância política e econômica do pré-sal para o País, não embarca nesse ufanismo todo. Ela alerta para o fato de que além de custos altíssimos relacionados à extração, pagamento de royalties, refino e comercialização do óleo extraído do pré-sal, os bilhões de barris de petróleo (estimativa) que serão retirados do fundo do mar brasileiro nos próximos 10-20 anos vão, de fato, na contramão da história! É o que diz, por exemplo, o jornalista e ambientalista Fernando Marcelo Tavares (EcoDebate, 28/11/2009): “Não há política e projeto no Brasil em andamento que possa garantir a conquista das metas anunciadas (em Copenhague). Enquanto para a sustentabilidade ambiental não existem projetos consistentes, nem recursos relevantes, o setor de petróleo e gás vai abocanhar mais de 60% dos recursos destinados à Indústria, cerca de 28 bilhões de dólares até 2012. E para 2015 estão previstas mais seis termelétricas movidas a carvão mineral, engrossando a lista de usinas poluentes do governo Lula. Para as reservas gigantes do pré-sal e todo o CO2 correspondente são estimados investimentos próximos aos 170 bilhões de reais”. E pergunta: “Como reduzir nossas emissões quando os investimentos e perspectivas estão voltados para a exploração de combustíveis fósseis?”.

De volta, portanto, ao argumento levantado em Copenhague pelo cientista do clima Runge-Metzger quanto à destinação do petróleo proveniente do pré-sal, sua preocupação é a mesma de milhões de brasileiros que pretendem deixar um País/Planeta melhores para seus filhos e netos. Neste caso, a pergunta é inevitável: como conciliar metas de 40% na redução de emissão de gases-estufa numa economia voltada essencialmente para o desenvolvimento de energias sujas, quer sejam suas fontes oriundas do petróleo, de termelétricas ou de cana-de-açúcar? E mais: quanto o Brasil vai investir nos próximos anos em projetos de energia limpa?

Por fim, ao afirmar que “a matriz energética brasileira é limpa porque se baseia essencialmente em hidrelétricas e biocombustíveis”, Metzger não percebeu que isso pode não ser mais verdadeiro nos dias de hoje! Uma hidrelétrica como a de Belo Monte, no Pará, provocará danos ambientais e humanos tão sérios quanto parte do petróleo retirado do pré-sal ou pelas termelétricas que se pretende construir até 2015. Quanto aos biocombustíveis, é só dar uma passadinha pelo interior de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, para constatar os danos provocados ao meio ambiente pela cultura desenfreada da cana-de-açúcar em áreas do Cerrado brasileiro. Que o diga a praga da mosca-do-estábulo, né?

Artigo publicado em 19/12/2009 no jornal Correio do Estado.

* Médico-veterinário, escritor, pesquisador e estudante de jornalismo.

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