Esgoto 100%
Hermano Melo*
Nos últimos dias, a população de Campo Grande, MS, foi bombardeada por intensa campanha publicitária da Prefeitura Municipal, Programa Sanear Morena3 e Águas Guariroba, onde se anuncia que a Cidade Morena terá 100% de cobertura de esgoto sanitário. Conforme a propaganda oficial trata-se do “maior investimento em esgoto, saúde e preservação ambiental da história da Capital e constará de R$ 636 milhões em investimentos, 2 mil km de rede coletora, 45 km de interceptores, 126 mil novas ligações de esgoto, 240 mil pessoas beneficiadas, 418 bairros atendidos, construção de nova Estação de Tratamento (ETE) e ampliação das ETEs Los Angeles e Imbirussu”.
O lançamento do programa “Esgoto 100%” aconteceu em 28/04/2012, no Centro de Educação Ambiental Imbirussu, e contou com a presença de políticos, autoridades, líderes comunitários e moradores de bairros de todas as regiões da Capital. Na ocasião, o presidente da Águas Guariroba, José Fonseca, afirmou que “Campo Grande já é referência em saneamento no Brasil, com os atuais 64% de coleta e tratamento de esgoto. Em todas as etapas do Programa Sanear Morena, vamos investir próximo a um bilhão de reais para levar 100% de esgoto coletado e 100% de esgoto tratado para 100% da população”. O prefeito Nelson Trad Filho (PMDB) ressaltou que “a empresa entendeu a necessidade de promover este avanço, e, no ano que vem, vamos chegar a 70% de esgoto”. O governador André Puccinelli (PMDB), concluiu: “O projeto mais do que saneamento, é saúde que advirá para todos os bairros”. Dados da secretaria municipal de saúde revelam que no período em que a rede de esgoto foi ampliada, houve uma redução de 34% nos casos de doenças provocadas por falta de saneamento.
O projeto repercutiu na imprensa e foi tema de artigos, inclusive de elogios do jornalista e empresário Antonio Hugo Rodrigues neste espaço, em 03/05/2012. Na mesma data, o arquiteto e urbanista Ângelo Arruda, parabenizou o prefeito da Capital e chamou atenção para o fato de que “prefeitos e governadores pouco se interessavam até pouco tempo por água e esgoto, pois enterrar tubos não dava votos”. Mas, “isso agora (2012) está mudando e enterrar tubos dá votos sim, pois reduz a despesa pública com educação, saúde e assistência social, em médio prazo”. É o caso, por exemplo, de São Caetano do Sul, no ABC paulista, que atingiu a marca de 100% de esgoto coletado e tratado em setembro de 2009.
É indiscutível a importância do programa Esgoto100% para Campo Grande no plano ambiental e de saúde pública. Mas se cometeu dois graves erros nas peças publicitárias que divulgaram o projeto: primeiro, omitiu-se que a meta 100% de esgoto só será cumprida daqui a 13 anos, ou seja, em 2025, e que a ampliação da rede de esgotos implica em mais 18 anos de concessão à empresa Águas Guariroba! Por ser um ano eleitoral, é muito provável que a divulgação maciça do programa tenha intenção de seduzir o eleitorado a votar no candidato oficial dos governos municipal e estadual à prefeitura de Campo Grande. Nesse caso, ela pode ser considerada como propaganda enganosa!
* Jornalista e Escritor
Vale da celulose
Hermano Melo*
De uns tempos pra cá, a cidade e o município de Três Lagoas, MS, antes reduto da pecuária bovina, são chamados respectivamente de “Capital” e “Vale da Celulose”, devido às suas extensas áreas de florestas de eucalipto e implantação de indústrias de papel e celulose. Isso ficou ainda mais evidente após a realização da “1ª Feira da Cadeia Produtiva da Indústria de Base Florestal Sustentável da Região” – a “Três Lagoas Florestal” (10-13/04/2012).
Na abertura do evento, a prefeita Márcia Moura (PMDB) agradeceu a participação das três importantes gigantes da indústria de papel e celulose – Fibria, Eldorado Brasil e International Paper – no desenvolvimento local: “Como cidadã e prefeita, dou meu testemunho que as florestas plantadas geram mais emprego e renda, fazendo crescer a cada dia mais oportunidades para todos”. E completou: “Segundo pesquisas, a população de Três Lagoas é uma das mais otimistas do Brasil, quanto às perspectivas de desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida”.
Parece não haver dúvidas quanto a isso. Dados divulgados no ano passado revelam que, só com a implantação da Fibria, uma das maiores fábricas de celulose do mundo em 2009, e capacidade para produzir cerca de 1,3 milhão de toneladas/ano, o PIB de Três Lagoas triplicou, o de MS aumentou 13%, e houve acréscimo de 0,15% no nacional. Hoje, as florestas da empresa já ocupam mais de 150 mil hectares e 100% da celulose produzida no país saem de florestas plantadas, o que agrada muito ao mercado internacional.
Mas será que todo esse boom econômico em Três Lagoas devido à eucaliptização e implantação das gigantes de papel e celulose é realmente sinônimo de desenvolvimento humano e melhor qualidade de vida da população local? Para a professora da UFMS, Rosemeire Almeida, esse corolário não existe: “Ao leitor desavisado fica a ideia de progresso, fartura de empregos, gente sorrindo à toa, a ignorar impactos do plantio do eucalipto. Não se fala, porém, do caos no trânsito que se materializa em seres humanos a lotar os leitos do único hospital público da cidade; da especulação imobiliária na cidade e no campo; do maior ataque de pragas em lavouras de milho; da pulverização com agrotóxicos nos assentamentos; do desequilíbrio em nascentes e córregos”. Diz o pesquisador da UFRGS, Oscar Sobarzo: “O agronegócio é muito concentrador, tanto em termos de propriedade quanto de produção e renda”.
Aliás, como disse recentemente a presidente Dilma Roussef na véspera do Dia do Trabalhador (30/04/2012): “Não quero ser a presidenta que cuida apenas do desenvolvimento do país, mas em especial do desenvolvimento das pessoas. Isto significa lutar por uma saúde melhor para os brasileiros pobres e de classe média; prover educação de qualidade em todos os níveis; lutar para acabar a pobreza extrema em todas as regiões do país; enxergar o trabalhador como cidadão e pleno de direitos civis; como consumidor, para comprar os bens e serviços que sua família precisa para viver de forma digna e feliz”. É justamente esse tipo de desenvolvimento que precisa acontecer no “Vale da Celulose”, no Estado do MS, e no Brasil como um todo.
* Jornalista e Escritor
** Artigo publicado no jornal Correio do Estado em 08/05/2012.
Galo gigante
Hermano de Melo*
Deu na imprensa local: uma das atrações da 74ª Exposição de Animais de Campo Grande, MS, deste ano (Expogrande 2012), que se encerrou domingo passado (22/04), foi a presença de galos da raça Índio gigante, considerado o maior galo do mundo, provenientes de Camaragibe, Pernambuco. Quando adulta essa ave pode alcançar mais de 1 metro de altura e os machos podem pesar até 6 quilos. Segundo criadores, esses animais são procurados por possuir massa muscular avantajada, resistência e rusticidade, além de carne saborosa. Ao final da feira, todo o estoque de aves gigantes havia sido vendido ao preço de R$ 39 a unidade.
Conforme os produtores, o galo gigante é uma variedade rústica resultante do cruzamento de raças combatentes (galos-de-briga) com galinhas domésticas. Para André Moreira, uma das razões para investir na nova raça é o menor tempo de abate dos animais: “Outros produtores têm que esperar seis meses para abater o frango normal. No caso do índio gigante, aos três meses o frango pesa até três quilos, e a galinha convencional chega, no máximo, a 800 gramas”. Outro criador, disse: “Claro que um bicho enorme desses tem que comer bem, né? Ele tem instinto agressivo, mas não tanto quanto o galo de briga, do qual se originou”.
Evidente que o galo gigante tem o seu lugar ao sol, quer como hobby ou animal exótico. No entanto, apesar do seu tamanho, rusticidade e tempo de abate, é muito provável que ele tenha ficado para trás ao longo do processo evolutivo da espécie, justamente por causa do seu enorme tamanho e instinto agressivo! Na realidade, o seu perfil de frango de corte ou de galinha poedeira não está de acordo com as exigências do mercado atual de aves. Dessa forma, ele constitui exemplo de que nem sempre “tamanho é documento”, discutido aqui tempos atrás em relação ao boi gigante Auroque, que cientistas italianos pretendiam ressuscitar.
Além disso, o supergalo exibido na Expogrande 2012 é emblemático porque traz à baila uma velha discussão sobre a mania de presidentes, governadores e prefeitos brasileiros e mandatários de outros países, junto com empresas nacionais e estrangeiras, em construir obras gigantescas a fim de marcar suas respectivas administrações. Não seria esse o caso da transposição do Rio São Francisco, da construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, e de “Três Gargantas” – a maior do planeta – na China, do superavião francês Airbus-A380, dos megaestádios de futebol para a Copa do Mundo de Futebol em 2014? É que além de, em muitos casos, elas não resolverem os problemas para os quais foram criadas, provocam sérios impactos ambientais e/ou mais aquecimento global.
De volta ao galo gigante, interessante foi a recomendação de um produtor para aqueles que pretendem ingressar nesse tipo de criação: “Devido o seu temperamento intolerável com outros concorrentes, esses galos não podem ser criados junto com outros machos da raça após os seis meses de vida. Senão o galinheiro vira o MMA!
* Jornalista e Médico Veterinário.
Artigo publicado no jornal Correio do Estado em 27 de abril de 2012.
Semana do Índio
Este ano, os indígenas de Mato Grosso resolveram comemorar de forma diferente a “Semana e o Dia do Índio” (16-19/04), no “Encontro dos Povos Indígenas do Mato Grosso”, em Cuiabá-MT. Ao invés de festa, eles promoveram uma “Semana de Luto”, por causa da aprovação pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados do Projeto de Emenda Constitucional (PEC) 215, que altera o processo de demarcação das terras indígenas no País. Assim, durante toda a semana, a ordem foi: “Semana de luto! Nenhuma festa, façam silêncio”.
Mas qual a razão do luto dos índios mato-grossenses devido à PEC 215? É que pelo texto aprovado na CCJ, a competência para demarcação das terras indígenas, extensivo a terras quilombolas e unidades de conservação ambiental – atualmente uma prerrogativa exclusiva da União – passaria a ser de agora em diante do Congresso Nacional. A proposta prevê ainda a revisão dos processos fundiários e estudos antropológicos encerrados e já publicados.
Após a aprovação da PEC 215, o deputado Moreira Mendes (PSD-RO), presidente da frente parlamentar agropecuária (FPA), afirmou: “Precisamos ouvir prefeitos, governadores e todos os envolvidos. Hoje a FUNAI decide tudo e o presidente da República assina o decreto, sem um debate democrático”. O deputado Alessandro Molon (PT-RJ), porém, rebateu: “O texto da PEC é anticonstitucional, pois viola cláusula pétrea da Constituição, que é a separação de Poderes, pois haverá usurpação de prerrogativa do Executivo pelo Legislativo, além de transgredir direitos e garantias fundamentais dos índios”. E o líder caiapó Apuiu Mama Kayapó, disparou: “Deputado fazendeiro não vai votar pelo índio. Isso não está direito. Vamos ter que trazer os guerreiros”.
Embora a Constituição Federal de 1988 preveja que, até 1992, o governo federal demarcasse todas as terras indígenas, que representam13% do território nacional, após 19 anos do prazo constitucional, o Instituto Socioambiental (ISA) estima que ainda faltem demarcar 197 (31,4%) das 627 terras indígenas existentes no País. Se a demora na demarcação já é gritante com o Executivo, o que acontecerá se a decisão final sobre a matéria for exclusiva do Congresso Nacional? O que será das terras dos Guarani-Kaiowá que faltam demarcar em Mato Grosso do Sul? E as dos índios Pataxó, no sul da Bahia, ora em conflito com fazendeiros locais?
Diz o cientista político Edélcio Vigna: “O Parlamento, que tem aprovado projetos contrários aos interesses nacionais (Lei de Biossegurança e Código Florestal), além de postergar a aprovação do Estatuto do Índio (de 1992), carece de legitimidade para apreciar de forma terminal projetos de demarcação de terras indígenas, quilombolas e áreas de preservação ambiental”. O fato é que, se porventura os irmãos Villas-Boas ressurgissem do túmulo e comparassem a situação atual das tribos indígenas brasileiras com aquela do filme “Xingu”, em exibição nos cinemas de Campo Grande, MS, eles, decerto, corariam de vergonha.
* Jornalista e Escritor
** Artigo publicado no jornal Correio do Estado, em 20/04/2012.
Trem do Pantanal
Diversas reportagens publicadas recentemente no Correio do Estado dão conta das dificuldades vividas hoje pelo Trem do Pantanal. Como resultado, o trem fará as quatro últimas viagens Campo Grande-Miranda, MS, sendo duas em abril e duas em maio/2012. No fim de maio, conforme a empresa que opera o trem, a Capital estará excluída do trajeto ferroviário e os passageiros terão que ir de ônibus até Aquidauana, e de lá seguir viagem de trem até Miranda. A empresa alega três motivos para isso: o alto custo de manutenção, a demora excessiva da viagem, e a possibilidade de atender ao maior número de turistas.
Após 18 anos parado, o Trem do Pantanal voltou a trafegar em maio de 2009, com muita festa e a presença do ex-presidente Lula, da mídia nacional e de celebridades globais. O trajeto, porém, era o mesmo do atual: O trem sai de Campo Grande (Indubrasil), vai à Aquidauana, e segue até Miranda, passando por cinco estações. A reinauguração foi um sucesso e havia grande procura por passagens por turistas estrangeiros que queriam conhecer o pantanal sul-mato-grossense. Aos poucos, porém, a demanda foi caindo e hoje quase não se vende mais passagens para o Trem do Pantanal.
Mas a “agonia” vivida atualmente pelo famoso trem não é realmente de hoje. Em 31/01/2010, manchete do Correio anunciava: “Oito meses depois, Trem do Pantanal continua vazio”. O texto dizia: “Com capacidade para quase 200 passageiros, na manhã de hoje, 25 embarcaram na Capital. O vagão camarote nem saiu, pois nenhuma passagem foi vendida. Este foi o 38º fim de semana de operação e tendência do trem é continuar em ritmo lento. A perspectiva para este ano é transportar 30 mil, mas a sobrevivência depende da expansão da viagem até Corumbá”.
É provável, porém, que as dificuldades do Trem do Pantanal venham de longe e se devam a pelo menos três fatores: 1. A retirada dos trilhos da Ferrovia Noroeste do Brasil (NOB) do centro de Campo Grande em junho/2004, feita pelo então prefeito André Puccinelli. A justificativa foi de que era preciso acabar com os acidentes envolvendo trens e carros nas passagens de nível no centro da Capital, mas houve protestos da população e entidades dos ferroviários. 2. A transferência da estação de embarque e desembarque para o Indubrasil e a retirada de Corumbá do trecho original; 3. A não modernização da frota e dos trilhos prometida pela América Latina Logística (ALL), quando da privatização da ferrovia em 2006.
Ora, como aceitar um trem que não chega à Corumbá, e que, portanto, não é de fato do Pantanal? Como suportar uma viagem modorrenta de 8 horas de duração a 30 km/h vendo paisagem monótona de Cerrado? O verdadeiro Trem do Pantanal é peça fundamental da história e cultura sul-mato-grossenses, conforme música de Geraldo Rocca e Paulo Simões. Ele representa também o nosso elo continental com países sul-americanos, pois é por meio dele que se pode chegar de forma segura e barata a La Paz (na Bolívia) e, de lá, a Cuzco e Macchu Pichu (no Peru). Daí porque ele precisa se manter vivo.
* Jornalista e Escritor.
Cidade do Ônibus
Quinta-feira passada (29/03/2012), o prefeito Nelsinho Trad lançou o projeto “Cidade do Ônibus”, que será construído no pólo empresarial sul próximo à saída para Três Barras, em Campo Grande, MS. O projeto vai ocupar área de 22 hectares, reunirá 20 empresas de transporte rodoviário intermunicipal, interestadual e internacional, terá investimentos de R$ 50 milhões e gerará 1500 empregos. Localizada nos fundos da região das Moreninhas, a área foi doada aos empresários pela Prefeitura de Campo Grande, com incentivos fiscais do Programa de Desenvolvimento Econômico e Social (Prodes). A previsão para funcionamento do empreendimento é de nove meses.
Na cerimônia de lançamento, o prefeito disse que o principal objetivo do projeto é que cerca de 600 ônibus deixem de realizar o trajeto diário de suas garagens, melhorando a mobilidade urbana e a qualidade do ar com redução do dióxido de carbono produzido pelos veículos. Afirmou ainda que a “Cidade do Ônibus” atende à demanda de moradores das “Moreninhas”, levando emprego e desenvolvimento para lá. O vice-prefeito, Edil Albuquerque, afirmou que “além dos benefícios para a mobilidade urbana, o complexo comercial irá contribuir para a contenção do custo das passagens, nos gastos diários dos empresários do setor, revertendo em benfeitorias para a população”.
O diretor-presidente da Agetran, Rudel Trindade, ressaltou: “Serão retirados aproximadamente 1.200 ônibus diariamente do centro de Campo Grande, o que será importante para a melhoria do trânsito, redução de acidentes e qualidade de vida da população”. O Presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do MS, Oswaldo Possari, por outro lado, declarou: “Teremos serviços como abastecimento, oficina mecânica, lava-jato, dormitório, creche, posto bancário e estacionamento para funcionários, além de uma unidade do Sest/Senat. Assim, contribuiremos para a cidade com proposta ambientalmente correta e retribuiremos os incentivos que a Prefeitura concedeu”.

Não há dúvida de que o projeto “Cidade do Ônibus” é importante para Campo Grande. Um ponto positivo é que as empresas de transporte coletivo estarão em garagem única – um “Garajão” – com facilidades de um estabelecimento desse tipo: racionalização de mão de obra, água, energia, etc. Bom para as empresas. Mas a impressão é que o projeto foi “inflado” na sua importância para a Capital, talvez por ser ano eleitoral.
Assim, não se pode afirmar que ele trará benefícios significativos para a qualidade do ar e mobilidade urbana da Cidade Morena. Primeiro, porque esses ônibus já circulam na periferia e não contribuem significativamente para emissão de CO2 no centro da cidade. Depois, porque mobilidade urbana vai além da construção de um “Garajão”: é pegar ônibus e chegar ao local no horário desejado; deixar o carro na garagem e ir ao trabalho a pé, de bicicleta ou no transporte coletivo; dispor de ciclovias e calçadas que garantam acessibilidade aos deficientes físicos e visuais; etc. Nisso, o projeto “Cidade do Ônibus” contribuirá pouco. Muito pouco.

Mobilidade urbana – o que é?
*Jornalista e Escritor.
**Artigo publicado no jornal Correio do Estado, em 05/04/2012.
Reforma agrária no Estado
Hermano Melo*
Duas reportagens publicadas recentemente na imprensa local colocam em xeque o processo de reforma agrária em Mato Grosso do Sul. A primeira, de Celso Bejarano (Correio do Estado, 23/03/2012), estampa a manchete: “Incra pode retomar 7,4 mil lotes irregulares em MS”. A segunda, de Patrícia Belarmino (O Estado, 24/03/2012), denuncia: “Assentamento perto da Capital vira reduto de ‘Chacrinhas’ de fim de semana”.
A primeira matéria cita cálculos do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) em que, dos 29.850 lotes distribuídos nos 178 assentamentos do Estado, 7,4 mil deles (25%) têm problemas. Ou seja: de cada 20 lotes de assentamentos rurais de MS, 5 estão irregulares e em mãos de pessoas que compraram, alugaram a terra, ou então cuidam deles para donos que moram na cidade.
Bejarano diz ainda que a maioria dos 246 lotes dos assentamentos Estrelas Jaraguari e Campo Grande, tem característica de favela, sem serviço de água, esgoto e energia. Os donos dos lotes legais tiram dinheiro do bolso para bancar pequenas lavouras e criar animais, e os assentados trocam lotes por carros velhos, casas, ou até R$ 100 mil. O Incra não assenta ninguém no Estado há 17 meses.
A segunda reportagem se refere ao assentamento Santa Mônica, a 60 km da capital, com mais de 700 lotes, que, conforme os próprios assentados, a maioria está nas mãos de terceiros. Uma das assentadas diz que o que mais chama atenção é o fluxo intenso de carros no assentamento nos fins de semana: “Daqui a pouco, enche de carro aqui. Todo mundo vindo para o assentamento. Quando chega ao fim da tarde de domingo, os carros começam a ir embora”.
O Superintendente do Incra no Estado, Celso Cestari, adverte: “Não estamos fazendo reforma agrária para o cara ir passar o fim de semana no lote. Estamos preparando outras fiscalizações”. E acrescenta: “Dos 14 mil lotes fiscalizados, o índice de regularidade chega a 80%. Nos locais em que for preciso, vamos entrar na Justiça para garantir a retomada dos lotes”.
É evidente que a reforma agrária enfrenta hoje sérias dificuldades, tanto no MS, quanto no Brasil como um todo (Caros Amigos, novembro/2011). As fiscalizações do Incra e punições aos que fazem mau uso da terra destinada à reforma agrária são, portanto, necessárias e importantes, especialmente no Brasil, onde a “Lei de Gérson” impera. Mas, reforma agrária se resume a comprar terras, dividi-las em lotes e assentar famílias ao “Deus dará”?
Como resistir, por exemplo, à aridez do assentamento “Santa Mônica”, onde faltam estradas, água, luz, esgoto, escola, vizinhos, praça, igreja e boteco? Como não sucumbir à tentação de, ao invés de agricultor, ser pedreiro, carpinteiro, eletricista, etc., em indústria ou comércio da Capital ou interior do Estado, em tempos do “Kapital” em alta? Estas são algumas questões que precisam ser debatidas em fóruns sobre Reforma Agrária e decerto será um dos temas a ser discutido no “Tribunal Popular da Terra em Mato Grosso do Sul”, promoção do DCE-UFMS, que ocorrerá nos dias 30, 31 de março e 1º de abril próximo no Campus da UFMS, em Campo Grande. Vamos nessa?
* Jornalista e Escritor.
** Artigo publicado no jornal Correio do Estado, em 28/03/2012.
A mansão de Gisele
Hermano Melo*
Como se sabe, em meados de janeiro deste ano ficou pronta a mansão onde Gisele Bündchen e o marido Tom Brady vão morar com o filho Benjamin, de dois anos de idade, na Califórnia, EUA. A construção, em estilo mediterrâneo, fica em terreno de 1,5 hectares, tem mais de dois mil metros quadrados de área construída, oito quartos, seis vagas na garagem, piscina em forma lago, spa, academia, adega, e foi avaliada em 20 milhões de dólares.
Embora grande para apenas três pessoas, a casa tem espaço especial para a família ficar em contato com a natureza: são 50 árvores frutíferas e um galinheiro, para dar aquele clima de fazenda. Gisele diz que isso é importante e levanta a bandeira da preservação ambiental. Mas é bom lembrar que, em 2002, ela atraiu a ira de ecologistas do mundo todo ao ser garota-propaganda da Blackglama, marca de casacos de pele, quando ganhou o nada glamoroso título de “Gisele, a escória da pele”. (Revista Forbes/2010).
Sobre a mansão de Gisele, as opiniões se dividem. Os amigos da top model dizem que por ser linda e sustentável, a mansão dela é a verdadeira casa dos sonhos – e Gisele a merece. Mas a designer Adriana Scartaris é enfática: “Se eu fosse criar uma casa para Gisele, faria algo mais leve, simples e elegante, sem necessidade de muitos artifícios ou detalhes”. Outros afiançam ainda que com os 36 milhões de reais (preço da mansão hoje), é possível comprar mais de 100 apartamentos de padrão médio, 31 casas de alto luxo, vários carros e até o terreno de 1,3 milhão de m2, de Naji Nahas, em Pinheirinho, São José dos Campos, SP, de onde foram despejadas recentemente 6 mil pessoas. (Revista Fórum, fev/2012).
Apesar de Gisele Bündchen ter o direito de construir e morar numa mansão em qualquer lugar do planeta Terra – e usufruir das benesses que o dinheiro, fruto de seu trabalho como modelo, lhe dá – sua atitude vai na contramão da história, tanto social quanto economicamente. Ela é socialmente injusta, porque constitui um acinte para milhões de pessoas ao redor do mundo, que não têm onde morar nem o que comer, inclusive nos EUA e no Brasil. Além disso, ela também é injusta do ponto de vista econômico, pois revela a enorme distância ainda existente entre ricos e pobres na sociedade capitalista de hoje.
Diante disso, o magnata americano Warren Buffet escreveu, em agosto do ano passado, artigo no “New York Times” intitulado “Parem de mimar os ricos”, onde diz: “Enquanto a maior parte dos americanos luta para fazer face às despesas, nós os mega-ricos continuamos a ter isenções fiscais extraordinárias”. Inspirado nele, o presidente Barack Obama enviou ao Congresso americano proposta que prevê o fim das deduções fiscais para os mais ricos a partir de janeiro de 2013. Resta saber se ele ganha as eleições e obtém maioria no Congresso,né?
Quanto à mansão de Gisele Bündchen, dizem que ela só perde para duas outras: a que pertencia ao ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, no Morumbi, em São Paulo, avaliada em 50 milhões de reais; e a do pastor da Igreja Universal, Edir Macedo, no Caribe, arrematada em leilão da Sotheby`s por 42,5 milhões de Euros. É mole?
*Jornalista e Escritor
Artigo publicado em 18 de março de 2011 no jornal Correio do Estado.
Minhoca no anzol
Hermano de Melo*
Repercutiu em todo Brasil a frase dita pelo senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) em entrevista concedida à Rádio Eldorado/ESPN, um dia antes de assumir o comando do Ministério da Pesca e Aqüicultura (MPA) no lugar de Luiz Sérgio de Oliveira (PT-RJ): “Vou lhes dizer, com humildade. Eu nem sei colocar uma minhoca no anzol”.
No dia seguinte (02/03/2012), no discurso de posse, Crivella voltou a brincar com a afirmativa do dia anterior: “Não quero que a presidente fique triste por ter um ministro que não sabe colocar minhoca no anzol. Isso a gente aprende rápido. Pensar nos outros que é um pouco mais difícil.” E Dilma respondeu ao neoministro: “A gente aprende a colocar linha no anzol, o que é difícil é aprender a governar, de fato, para todos os brasileiros e brasileiras”.
Mas qual o significado político da ascensão de um senador de um partido ultraconservador – o PRB – no ministério do governo Dilma, dito de esquerda? “A explicação pode estar na coluna de Giba Um, de 02/03/2011, sob o título, “Nada de novo”: “Marcelo Crivella, novo ministro da Pesca, é engenheiro civil, além de bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (e sobrinho de Edir Macedo). Até aí, nada de novo: seu antecessor, Luiz Sérgio, era metalúrgico e, antes deles, Ideli Salvatti era física. No governo Lula, José Fritsch era cientista político e Altemir Gregolin, veterinário. Quanto a Luiz Sérgio, um blog de humor na internet revela a verdadeira razão de seu afastamento. Garante que Dilma não agüentava mais a concorrência dos cabelos (e topete) dele”.
Descontada a maldade da frase acima, a explicação para a presença de Marcelo Crivella no governo Dilma é simples: Primeiro, era preciso homenagear o ex-Vice de Lula, José Alencar (PRB), e trazer alguém do partido dele para a base política do governo Dilma; depois, corrigir o excesso verbal do chefe da Casa Civil, Gilberto Carvalho, que, dias atrás, se referiu à batalha que o PT iria travar com a bancada evangélica no Congresso Nacional em torno de temas polêmicos, como o aborto e o kit anti-homofobia, este idéia do então Ministro da Educação, Fernando Haddad (PT-SP), candidato à Prefeitura de São Paulo.
Crivella jura que não houve nenhuma troca no convite que Dilma lhe fez: “A presidente não está fazendo investimento futuro, está pagando uma dívida conosco”. Para o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), também evangélico, porém, “Crivella representa o partido dele e achar que os evangélicos vão ficar satisfeitos só porque um deles comanda o inexpressivo Ministério da Pesca é de provocar riso”. Já o bispo Edir Macedo não entende tanta polêmica em torno da nomeação de seu sobrinho para o Ministério da Pesca, só porque não tem experiência no setor. Ele garante que “Crivella sempre foi um pescador de almas”. (Giba Um, 05/03/2012).
Enfim, a melhor explicação para a presença do senador Marcelo Crivella no MPA, talvez esteja no discurso emocionado que a Presidente Dilma fez na despedida do ex-ministro Luiz Sérgio, quando chorou. É como se perguntasse a si mesma: Não é política “a arte de engolir sapos”?
* Jornalista e Escritor.
Artigo publicado no jornal Correio do Estado, em 08/03/2011.
Privataria & Carnaval (Ventos privatistas)
Hermano de Melo*
Dias atrás, ao empossar a nova presidente da Petrobrás, Maria das Graças Foster, a presidenta Dilma Rousseff declarou: “A Petrobras é poderosa em escala mundial e estratégica dentro do Brasil. Felizmente, sobreviveu a todos os ventos privatistas e persistiu como empresa brasileira, sob controle do povo brasileiro, e hoje exerce papel fundamental em nosso modelo de desenvolvimento”.
Ao falar de “ventos privatistas”, a presidenta Dilma quis justificar a atitude de seu governo pelo recente leilão que transferiu três aeroportos federais brasileiros – Brasília, Guarulhos e Campinas, em São Paulo – à gestão privada. É muito provável que ela quis também dar uma cutucada na onda privatista que assolou o país no governo FHC (1995-2002), tema central do livro “A Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Jr. (Geração Editorial, 2011).
De um lado, os tucanos acreditam que houve privatização e foi bom que o PT tenha se rendido a tese. Para setores descontentes da esquerda, houve privatização e foi ruim que o PT a tenha praticado. Já o governo e os petistas rebatem que não houve privatização, pois os aeroportos serão administrados pelo Estado de novo quando a concessão ao setor privado terminar, daqui a 20-30 anos. (Carta Maior, 13/02/2012).
Para o governo Dilma, o motivo do leilão foi diferente das privatizações da era FHC – não se quis enxugar o Estado, mas apenas contornar a falta de recursos para investir e os entraves burocráticos próprios da gestão pública à realização dos investimentos, que a Copa do Mundo de 2014 impõe que sejam ágeis. Tudo indica, porém, que em ambos os casos houve realmente privatização. Alguém, por ventura, acredita que os aeroportos nacionais voltem a ser administrados pelo Estado após 20-30 anos nas mãos das transnacionais?
A diferença entre os dois processos, porém, parece residir no fato de que o leilão dos aeroportos no governo Dilma foi feito de forma transparente, a preços de mercado e, ao que parece, sem mutretas (embora politicamente questionável!). Nas privatizações promovidas pelo governo FHC, no entanto, há fortes indícios de que grande parte do patrimônio público – especialmente o setor de telecomunicações – foi vendida a preço de banana, utilizando moedas podres e com passagens suspeitas por paraísos fiscais. Daí o termo “privataria” – misto de “privatização” e “pirataria”, de autoria do jornalista Elio Gaspari. (“A Privataria Tucana” /Amaury Ribeiro Jr.).
Guardadas as devidas proporções em termos de época e localização geográfica, as privatizações que ocorreram no governo FHC ao final da década 90, seguem o mesmo modelo neoliberal preconizado pelo FMI de enxugamento da máquina do Estado, e que está sendo implantado hoje em alguns países europeus em crise, particularmente na Grécia. Dessa forma, é de se esperar que embora importantes e merecedoras de investigação por parte do Congresso Nacional, as denúncias contidas no livro “A Privataria Tucana” dificilmente serão apuradas em futuro próximo.
Prova disso é o que afirmou recentemente Cláudio Humberto em sua coluna de 19/02/2012: “O deputado Protógenes Queiroz (PCdoB) diz que pulará carnaval esse ano “no Bloco da Privataria Tucana”. Até agora, sua proposta de criar comissão para apurar as denúncias contra tucanos não saiu do papel”. E tudo indica que não sairá tão cedo!
*Jornalista e escritor.
Publicado no Correio do Estado em 28/02/2012, sob o título “Ventos privatistas”.




























