O trator e o laranjal

06/11/2009 at 09:15 (Hermano de Melo)

Hermano de Melo*

Fonte: Jornal Nacional, 05/10/2009 – G1.com.br

Na noite de segunda-feira (05/10/2009), o Jornal Nacional da TV Globo mostrou imagens captadas de um helicóptero no momento em que um trator conduzido por lideranças do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), derrubava uma fileira de pés de laranjas da fazenda Santo Henrique, da Cutrale, em Iaras, interior de São Paulo. Calcula-se que de 3 a 7 mil pés de laranjas foram destruídos de um milhão plantados. Na ocasião, a coordenadora do MST, Claudete Pereira de Souza, justificou assim a ação: “Não destruímos nada, retiramos os pés de laranja para garantir o plantio de feijão, porque ninguém vive só de laranja”. As imagens, porém, foram chocantes e serviram de munição para os que não querem ver a reforma agrária implantada no Brasil.

A reação foi imediata. No dia seguinte, a justiça de São Paulo determinou a reintegração de posse da fazenda invadida pelas 250 famílias de Sem-Terra desde o dia 28 de setembro. Tanto o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, quanto o presidente do INCRA, Rolf Hackbart, condenaram a ação do MST.“Uma imagem grotesca, injustificável sob qualquer ponto de vista”, disse Cassel. Hackbart acrescentou: “O movimento tem errado muito e espero que uma situação grotesca como essa o faça refletir sobre suas ações”. E o presidente Lula classificou o ato do MST como de “vandalismo” (JC Online, 07/10/2009).

Mas a reação maior se deu no Congresso Nacional. A bancada ruralista recolheu assinaturas em nova tentativa de abrir a CPI para investigar o repasse de dinheiro público ao MST. Senadores da oposição e governistas criticaram no plenário a ação do MST. A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidenta da CNA (Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária), afirmou: “Isso é mais uma ação do MST irracional e ilegal e com financiamento público que é o que mais traz indignação à população”. O presidente do STF, Gilmar Mendes, condenou a invasão da fazenda Santo Henrique e disse que “não pode haver nenhuma tolerância com quem desrespeita a lei e que o governo corte qualquer tipo de ajuda a entidades que cometem crimes”.

O MST, por outro lado, argumenta que as terras pertencem de fato à União, mas são usadas ilegalmente há dez anos pela Cutrale, uma das maiores produtoras de suco de laranja do Brasil. Em nota, o INCRA condenou a ação dos sem-terra, mas disse que reivindicou as terras em 2006 e que aguarda decisão da justiça federal. A multinacional Cutrale, por outro lado, apresentou documentos à Justiça de São Paulo em que afirma ser proprietária da área e argumenta que a terra é produtiva. Mas o MST rebateu: “A produtividade da área não pode esconder que a Cutrale grilou terras públicas”.

Coincidência ou não, em 13/10/09, a CNA apresentou resultados de uma pesquisa encomendada ao Ibope que revelou que 47,7% das propriedades de assentamentos rurais consolidados não produzem o suficiente nem para a família e que 75% dos assentados não têm Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). A presidenta da CNA, senadora Kátia Abreu (DEM/TO),voltou à carga: “Estamos criando verdadeiras favelas rurais, distantes de todas as políticas públicas, já que tudo no campo custa mais caro”. Mas tanto o INCRA quanto o MST afirmam que a amostragem foi mal feita e é insuficiente para tirar conclusões, porque as pessoas ouvidas representam apenas 0,1% das 920.861 famílias assentadas.

É evidente que a ação do MST foi infeliz e injustificável. Mas é preciso entender que o movimento dos trabalhadores sem-terra não se constitui num bloco monolítico e está sujeito a erros. É provável também que no interior do movimento existam “olheiros” sempre dispostos a colocar o MST em maus lençóis perante o governo federal e a opinião pública. Senão,como explicar a presença do helicóptero do serviço de inteligência da PM sobrevoando o local no momento exato em que o laranjal era destruído pelo trator? Sabe-se que o cinegrafista amador Flávio Jun Kitazume filmou as imagens uma semana antes de serem veiculadas no Jornal Nacional. Ele é oficial da PM em Bauru, SP, e foi afastado da cidade em 2007 porque integrava um grupo de policiais que cometiam sérios abusos contra os direitos humanos (site “Vi o mundo”, de Luiz Carlos Azenha, 08/10/09).

Outro ponto importante é saber se a área em questão é de fato da Cutrale e se é produtiva. Segundo texto recente do doutor em Geografia, Ariovaldo Umbelino de Oliveira (Brasil de Fato, 22-28 de outubro de 2009), a Cutrale possui 30 fazendas em São Paulo e Minas Gerais, totalizando 53.207 ha. Desses, seis delas de 8.011 hectares foram classificadas como improdutivas pelo INCRA, desde 2003, e das 30 fazendas relacionadas não consta a área de Iaras. Isto significa que a fazenda Santo Henrique não é de propriedade da Cutrale – é grilada!

Por fim, não se pode analisar o episódio de Iaras isolado de seu contexto. A cena do trator devastando o laranjal vai muito além de uma simples tentativa de “satanização” do MST no Brasil. Ela se encaixa em um conjunto de “sinais de fumaça” que indica uma forte guinada para a direita nos atuais cenários políticos interno, latino-americano e internacional, particularmente após o fim da crise financeira mundial. Nesse rol, se encaixam, dentre outros: o tratamento dado à questão indígena e agrária no Brasil e no MS, a direitização crescente do governo Lula-PMDB, a assunção de prefeitos e governadores ultraconservadores, o ressurgimento de figuras políticas do passado – leia-se Ronaldo Caiado e outros, o golpe de Estado em Honduras, o envio de tropas pelos EUA ao Afeganistão, a demonização dos governos de Chávez na Venezuela e de Ahmadinejad no Irã. Não é de admirar, portanto, que a Reforma Agrária no Brasil caminhe em passos tão lentos, em passos de tartaruga.

* Médico-Veterinário, escritor e acadêmico de jornalismo da UFMS.

Artigo publicado em 05 de novembro de 2009, no Correio do Estado.

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O lugar de cada coisa*

23/10/2009 at 00:32 (Flávio Marques)

Mais uma vez eu não consegui dormir! Isso não é novidade, mas os motivos, dessa vez, não foram as matérias que eu não faço, as transcrições de entrevista e nem o ensaio que, finalmente, acabou. Foi um único motivo e me fez querer – sei lá, acho que é muito mais que isso –, precisar escrever! É isso, eu preciso!  Eu tenho dessas coisas de ter a necessidade de fazer perguntas, de querer que as pessoas saibam, que as pessoas leiam, que elas escutem… E tal e etc. e coisa!

Pois é, a pergunta da vez é, ‘de onde vem?’.  Durante muito tempo eu estive as voltas com um clássico das perguntas,  ‘por quê?’. Teve também, o ‘quando?’, passando pelo ‘onde?’. Se eu fosse fazer uma lista de todas as perguntas que eu já fiz, esse seria o texto com o maior número de pontos de interrogação já escrito.

Agora, vocês é que devem estar se perguntando: “Esse sujeito pergunta tudo isso pra quem, afinal?”. Eu, maluco e estranho, pergunto a mim mesmo, para Deus e até para o Universo. Sim! Eu falo sozinho, mas já avisei que sou doido. Em algum lugar na TV tem alguém dizendo que “não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas”. Deixando de lado qualquer clichê ou frase de efeito, comigo deve mesmo ser assim.

Há tantas e muitas coisas que todo mundo deveria saber de onde vem, principalmente as ruins. Assim  poderíamos pegar, por exemplo, a violência, a descriminação, o preconceito, a corrupção, a falta de dinheiro, a dor de barriga e outro monte de porcarias e levar de volta para o lugar de onde saíram e, antes de irmos embora, trancar a porta e jogar a chave fora!

Eu não quero começar nenhuma grande reflexão sobre os males do mundo e nem quero que ninguém saia por ai filosofando sobre nada. A vontade de escrever surgiu pelas coisas simples e, de certo ou talvez, porque eu não tenho nada pra fazer, sei lá. Mas de onde vem a inspiração?

É, é isso mesmo! De onde vem a inspiração da bailarina que ouviu a música, criou a coreografia e foi fazer arte usando o corpo? E a curiosidade do poeta da lágrima solitária que quis saber o que perdemos enquanto os olhos piscam, de onde vem? E o desejo do moço e/ou velho que canta desafinado para saber de onde vem a calma de um alguém? E de onde vem o traço do cara que derreteu os relógios para quem sabe, assim, parar o tempo? E de onde vem? E de onde? Onde?

Será que tem alguém aí que também gostaria de descobrir e saber onde fica o tal lugar? O que vocês gostariam de saber de onde vem? Será que todos fazem perguntas? Será que todo mundo precisa de respostas? Eu acho mesmo que não. Acho que nem todo mundo é assim. Mas eu sou, eu preciso! Se alguém encontrar o mapa que indica o caminho, me avisa porque eu estou à caça das minhas respostas.

*Eu dedico esse texto à Thaysa. A moça que vê o sol beijando o mar, toda vez que ele vai repousar. Shimbalaiê! Porque eu vou estar na platéia, sempre, assistindo ela dançar…

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O aquário gigante

17/10/2009 at 21:28 (Hermano de Melo)

Hermano de Melo*

Aquário do Pantanal

Aquário do Pantanal (Fonte: Fórum SkyscraperCity)

Das 1.500 obras anunciadas recentemente (02/10/09) pelo governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), como parte do programa “MS Forte – Ações para o Desenvolvimento”, e com investimentos previstos da ordem de 3 bilhões de reais (espécie de PAC estadual), uma delas foi considerada “emblemática”. Trata-se da construção do “Aquário do Pantanal” no Parque das Nações Indígenas, em Campo Grande, que deverá ser concluído entre dezembro de 2010 e início de 2011. Dessa forma, a Cidade Morena vai entrar para um seleto rol de cidades do Brasil e do Mundo, inclusive Cuiabá-MT (em reparos), a possuir um aquário gigante aberto à visitação pública.

O projeto Campo-grandense, assinado pelo renomado arquiteto paulista Ruy Ohtake (Parque Ecológico do Tietê, Projeto de adequação do Morumbi para a Copa do Mundo de 2014, etc.), em formato de um cilindro disposto horizontalmente e extremidades ogivais, terá mais de 10 mil metros quadrados de área construída e custará cerca de 60 milhões de reais aos cofres públicos estaduais. O “Aquário do Pantanal” abrigará mais de 350 espécies de animais, entre répteis, peixes, crustáceos e moluscos, com toda a rica biodiversidade dos rios do Estado e grande variedade de animais e plantas típicas. Prevê ainda bares, cafés, lojas e restaurantes que vão compor os espaços de convivência e descanso, integrados às atrações do Aquário.

O Governo do Estado justifica a execução do projeto porque “se trata de um importante espaço público que vai incrementar o turismo, gerar emprego e renda e garantir mais qualidade de vida à população. Será mais uma opção de lazer e entretenimento e promoverá a educação ambiental e a conservação do patrimônio natural do Pantanal”. Ao visitar o Estado, em dezembro do ano passado, Ohtake afirmou: “O Aquário de Campo Grande não será apenas um local de visitação para conhecer a fauna aquática do Estado. Será possível ter contato com bichos do Pantanal, almoçar em um restaurante suspenso com vista para toda cidade, entre outras atrações. O Aquário atuará como um instrumento de educação ambiental aliada ao lazer”. (Midiamaxnews, 02/10/09).

Após o anúncio do pacotaço de obras, os políticos presentes apoiaram em uníssono a iniciativa governamental. A prefeita de Três Lagoas, Simone Tebet (PMDB) disse: “As obras irão beneficiar Mato Grosso do Sul pelos próximos 40 anos”. O presidente da Câmara dos Vereadores, Paulo Siufi, não deixou por menos: “A Capital ainda é a menina dos olhos do governador. Vai receber o ‘Aquário do Pantanal’ no Parque das Nações Indígenas!” E quando perguntado se não seria importante a construção da unidade da UEMS, ao invés do Aquário, foi taxativo: “Houve uma pesquisa com a população (sic) e optamos pelo Aquário”.Para o atual prefeito Nelsinho Trad (PMDB), o Aquário vai auxiliar nos projetos de educação ambiental: “Imagino a curiosidade que vai provocar. Um lugar com tantas espécies juntas. É muito bom”. (Campograndenews, 02/10/09).

Em princípio, não se pode condenar a atitude do governador ao lançar em noite festiva tantas importantes obras para Mato Grosso do Sul, inclusive o megaprojeto “Aquário do Pantanal”. Afinal, ele deve pensar, prefeitos e governadores (inclusive ele mesmo e o atual prefeito Nelsinho Trad) já fizeram isso no passado e se deram bem – foram reeleitos! (Obramania, Correio do Estado, 25/06/07). Ademais, quem pode ser contra a construção de um belíssimo “Aquário” de 60 milhões de reais, onde a criançada e o público em geral irão apreciar os peixes nativos do pantanal sul-mato-grossense e, ao mesmo tempo, saborear um ‘pintado no espeto’ no restaurante local?

Por outro lado,é preciso fazer algumas ressalvas. Em primeiro lugar, será que é legal e ético por parte de um governo qualquer (quer seja municipal, estadual ou federal), anunciar um extenso pacote de obras às vésperas de um ano eleitoral? Segundo, numa escala de 0 a 5, qual será o nível de prioridade de uma obra da magnitude do “Aquário do Pantanal” em Campo Grande, no lugar, por exemplo, de uma creche em Selvíria ou de uma escola em Anastácio, ou mesmo da revitalização do centro de Campo Grande? Finalmente, por que os governantes, em geral, ao invés de perseguirem metas sociais, insistem em medir o desenvolvimento local pelo número de avenidas duplicadas, viadutos construídos, ruas asfaltadas, obras faraônicas anunciadas?

Na praia de Iracema, Fortaleza,Ceará, onde se implanta projeto semelhante ao daqui e que custará aos cofres públicos de lá cerca de 250 milhões de reais, o Fórum de Defesa da Criança e do Adolescente e o Instituto de Desenvolvimento Social e Cidadania impetraram uma ação civil pública para barrar a construção do “Aquário do Ceará”. As entidades alegam que “o poder público, antes de iniciar obras gigantescas como essa deveria olhar mais para o sistema sócio-educativo”. Mas a julgar pela febre de “Superaquários” que deverá assolar as diversas cidades do País nos próximos anos, é provável que em breve “esta terra ainda vai se tornar um imenso Aquarial”.

Fotos disponíveis no Fórum SkyscraperCity, postadas em 3/10/2009.

Interior do Aquário Gigante (Fonte: Fórum SkyscraperCity)

* Escritor e acadêmico de jornalismo

Artigo publicado no jornal Correio do Estado no dia 19 de outubro de 2009.

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Perfil de um “modinha”

10/10/2009 at 22:52 (Autores Convidados)

Rafael Shiroma

Ando de bota, calça jeans socada no rêgo (de preferência apertando as bolas também), uso camiseta apertada para paga uma de “garoto malhado”, a camiseta de preferência tem que ser do curso de veterinária, ou qualquer coisa relacionada a boi, boné pra mim tem que ser da Nelore (pra mim isso é marca de boné, não é raça de boi).

Nas horas vagas gosto de sair com meus amigos na S-10 cabine dupla do meu pai tocando aquele sertanejo ou funk, nós vamos lá no Miça e depois agente fuma uns “arguile” até dar a hora do show do João Carrero e Capataz ou alguma violada que tiver por ai. Levo a minha canequinha personalizada para encher a cara de cerveja. Pra mim, o limite é o coma alcoólico (as mina se amarra num bêbado).

Time do coração: qualquer um que estiver ganhando, até porque é o que tem mais torcida, né!!

Pior compra que já fez: Dreamcast, ia ser a modinha do ano, pena que faliu…

Livro de cabeceira: A Modinha e o Lundu no Século XVIII

Programa favorito: Esquadrão da moda

Filme Inesquecível: Brüno

Filosofia de vida: “Na vida nada se cria, tudo se copia e por tempo limitado”

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O que você tem a dizer sobre o protesto do diploma? NADA?

01/10/2009 at 00:39 (Raphaela Potter)

Foi assim mesmo, de uma hora para outra que eu decidi: “tenho que tacar um sapato nele”! Depois do e-mail que recebemos avisando da vinda do Ministro Gilmar Mendes à Campo Grande, para discutir a questão agrária (?????) no I Encontro do Fórum Nacional para Monitoramento e Resolução dos Conflitos Fundiários Rurais e Urbanos, eu não tive dúvidas; tenho que acabar com o cara que disse para eu ser cozinheira!

As minhas – nossas – lendas do Jornalismo da UFMS me acompanharam. Afinal, Keyciane e Flávio não perderiam isso por nada! E disseram que iam me visitar na prisão caso minha mãe, que estava avisada, não pagasse minha fiança. Fomos ao Palácio (Im)Popular da Cultura ontem, para que eu pudesse realizar a minha façanha.

Mas, nos deparamos com o primeiro problema; quem irá nos levar da UFMS até lá? Apelei para a classe burguesa e pelo meu poder de veterana na Universidade: “Rafaaaael, leva a gente, por favor?”. E ele, super gente boa, nos levou. Valeu mesmo Rafa!

Enfim, chegamos com um nariz de palhaço, um Flávio pintado e uma Keyciane de faixa. Encontramos vários acadêmicos em frente ao local do evento e nos juntamos a eles. “Gilmar é marajá, não precisa estudar!”. Corremos atrás de um carro que “supostamente” trazia o Ministro, e paramos nos quatro ou cinco policiais que impediram a nossa passagem. Se o Gilmar entrou pelos fundos eu não posso afirmar com certeza, porque aprendi na faculdade (que ele diz não precisarmos), que é dever do Jornalista noticiar apenas aquilo que é verdadeiro, que foi apurado diversas vezes. Mas tomara que ele tenha entrado pelos fundos mesmo!

Voltamos, gritamos com a ajuda do saudoso Professor Mario Marcio Cabreira e do casal Evelin e Lyvio, que deram ideias de gritos mais originais (Gritos Censurados!). Quando tudo estava muito bem, obrigada, escutei uma voz que dizia “Vamos embora”. Olhei para Keyci com cara de “o quê?”, e a voz confirmou o que eu havia ouvido. Era o Presidente do Sindicato dos Jornalistas de MS, Cleiton Salles que falava: “vamos embora, já chamamos mais a atenção para a gente do que para o evento, está ótimo”. E os protestantes obedeceram menos eu, Keyci, Flávio e Rafa. Não iríamos embora de jeito nenhum, precisávamos arranjar uma maneira de sermos ouvidos, cara a cara. Não era hora, lugar nem momento de levantarmos uma bandeira branca.

Claro que concordo com o “panelaço”, mas é preciso ter mais coragem e ir além do “bater de panelas”. A Keyciane disse: “vamos entrar? O que estamos fazendo aqui fora?”. Obviamente estávamos com medo, os seguranças haviam nos visto no protesto e podiam impedir a nossa entrada. Flávio e Rafa ficaram lá fora enquanto Keyci e eu… Entramos! Mas faltava entrar no lugar onde estava o Ministro. Um segurança meio desconfiadinho ficou nos encarando, então, me separei da Keyci e ela tentou primeiro. Tentou e… Entrou! “Sim, sim, eu vou conseguir entrar também”, pensei. Dei uma volta e, adivinhem?! Entrei!

O evento estava no fim, ouvi a voz do Gilmar Mendes desejando uma boa noite a todos os presentes. Mas não encontrava a Keyciane. O pessoal bateu palmas (????) e foi se dirigindo a saída enquanto eu, perdida, não sabia se gritava “SAFADO! CACHORRO! DEVOLVA O MEU DIPLOMA!”, ou se procurava a Keyci. Fui indo mais perto, mais perto, mais perto e, quando me dei conta estava lá, no meio dos Jornalistas que buscavam desesperadamente uma palavra do Ministro. Eu só queria o meu diploma!

Sem Rafa, sem Flávio e sem Keyci eu peguei minha câmera, que não é lá um IPhone mas serviu. “Ministro, o que você achou do protesto do diploma?” (…). O nada se repetiu três vezes, até que ele me respondeu, ou não respondeu, pelo o que me pareceu. Queria perguntar mais, mas minha colega de profissão “voltou à questão agrária”. Eu não me importei. Não joguei um sapato nele, mas fiz algo que eu não imaginava que poderia fazer. Fiz por vocês que lêem agora este texto, que buscam uma razão para continuar neste curso. Por mais que pareça clichê de filme infantil, quando queremos algo, e fazemos de tudo para alcançar o que almejamos, conseguimos. Pode não ser na primeira, na segunda ou na terceira, como no meu caso, mas uma hora conseguimos. E ainda no clichê de filmes bonitos, com ou sem diploma eu acredito: podemos mudar o mundo com o Jornalismo.

Raphaela Potter

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O que você tem a dizer sobre o protesto do diploma? NADA?

30/09/2009 at 12:48 (Especiais)

Raphaela Potter, acadêmica do 2º ano de Jornalismo da UFMS, mostra porque, na classificação de JORGE (2008) :) , é o tipo de repórter “entrão”. E, de quebra, faz a provocação ao Gilmar Mendes que ninguém mais teve coragem de fazer! E mostrou para todo mundo por que um curso superior faz sim a diferença na formação do Jornalista.

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Dilma e o governador

24/09/2009 at 11:15 (Hermano de Melo)

Hermano de Melo*

governador

Fonte: Portal Agora/MS de 16/09/2009

Depois de esperar alguns dias (falaram até em chá-de-cadeira!), o governador do Estado, André Puccinelli (PMDB), foi finalmente recebido em audiência pela ministra-chefe da Casa Civil da presidência da República, Dilma Roussef (PT), no último dia 15 de setembro, em Brasília-DF. Conforme a imprensa local, no encontro, o governador apresentou à ministra o anteprojeto de Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) elaborado pelo governo estadual, que define as áreas de plantio da cana-de-açúcar e cria a Zona de Proteção da Planície Pantaneira (ZPPP). Segundo consta, outros temas foram discutidos, tais como, a recomposição das perdas com ICMS do gás boliviano, a construção de uma fábrica de fertilizantes no Mato Grosso do Sul, suspensão das portarias da FUNAI que determinam estudos antropológicos no MS, e a assinatura de convênios para Educação e Sanidade Animal e Vegetal. É provável até que o encontro tenha sido mais uma vã tentativa de recompor o utópico palanque único PT/ PMDB no MS.

O anteprojeto de ZEE que o governador expôs à ministra Dilma prevê uma área de dois milhões de hectares – parte dos territórios dos municípios de Rio Negro, Corguinho, Rochedo, Anastácio, Miranda e Aquidauana – onde será proibida a construção de novas usinas de álcool, mas permite o plantio da cana-de-açúcar em Pedro Gomes, parte do território de Coxim, Rio Verde de Mato Grosso, São Gabriel do Oeste, Alcinópolis, Rio Negro e Figueirão. Na ocasião, o governador André Puccinelli afirmou que “o Governo de Mato Grosso do Sul, fez o mapeamento das áreas desde 2007, com discussão com toda a sociedade (sic), participação da Embrapa, WWF e o Ministério do Meio Ambiente (sic). E para todos eles podemos plantar cana em parte da Bacia do Alto Paraguai”. E acrescentou: “O texto do ZEE se baseia em estudo científico e tecnológico e por isso deve ser respeitado pelo Governo federal”. E pergunta: “Cadê o pacto federativo? Se não for respeitado pelo Governo Federal está sendo implodido”, referindo-se à proibição da plantação da cana-de-açúcar na planície pantaneira, posição defendida pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc (ZaeCana).(Correio do Estado, 16/09/2009).

Ainda no encontro com a ministra Dilma, o governador Puccinelli enfatizou que “o nosso ZEE de nada valerá se for enviado ao Congresso o PL (Projeto de Lei) do ZaeCana (Zoneamento Agroecológico Nacional da Cana-de-açúcar) com a redação atual”. E destacou: “A opção mais correta é a da exigência de processos produtivos com certificação socioambiental para enfrentar barreiras não tarifárias e atender mercados internacionais mais exigentes”. E, mais recentemente, (Correio do Estado, 17/09), o governador declarou: “Vamos perder a soberania e sacrificar Mato Grosso do Sul. Não vou deixar entrar usina na bacia hidrográfica, mas a cana sim, por que ela recupera o solo, as voçorocas. De que valeu a participação dos técnicos que dizem que pode plantar cana? Aí por conta do selo verde exigido por organismos internacionais vamos perder a soberania”.

foto cana

É evidente que na sua visão desenvolvimentista e conservadora, o governador André Puccinelli acredita que plantar cana é menos prejudicial ao meio ambiente pantaneiro que construir usinas de açúcar e álcool no alto Paraguai. Será? Em primeiro lugar, é preciso entender que é justamente o plantio da cana que causa os maiores problemas ambientais e de saúde humana, especialmente durante a sua queima, transporte e processamento – é o que acontece nesta época do ano em extensas áreas do Estado de São Paulo e de Mato Grosso do Sul. E é claro também que o plantio de cana no alto Paraguai vai repercutir negativamente em toda planície pantaneira, tanto no que se refere à poluição do ar, das águas, quanto no seu impacto sobre as populações humanas e animais da região. Em segundo lugar, essa história de dizer que a cana-de-açúcar recupera o solo e as voçorocas, pode ser até que seja verdadeira, mas a pergunta é: a que preço? Por último,embora existam inúmeros argumentos contrários à plantação de cana no alto Paraguai, falar em soberania de Mato Grosso do Sul, quando se refere ao Pantanal é uma postura no mínimo equivocada, pois esse imenso santuário ecológico – considerado desde o ano 2000 como patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO, além de reserva da biosfera – apesar de inserido geograficamente no Estado do MS, pertence de fato a toda nação brasileira e, quiçá, ao mundo civilizado, tendo em vista o processo de globalização e a interdependência entre as nações.

Antes, porém, de tomar o chá de cadeira da ministra Dilma Roussef e levar essa proposta indecorosa de plantio da cana-de-açúcar no alto Paraguai, o governador deveria ter ido ao auditório da Câmara Municipal de Campo Grande, em 14/09 último, para assistir à palestra do jornalista Washington Novaes “A idade dos limites: por uma nova cultura na relação com a natureza”, do projeto ‘Diálogos Contemporâneos’. Lá ele saberia que o desenvolvimento econômico a qualquer preço não é sinônimo de bem-estar social. E que mais cedo ou mais tarde as futuras gerações cobrarão da geração atual – especialmente de seus governantes e políticos – não apenas as toneladas de açúcar e álcool produzidas em áreas que deveriam ser preservadas, mas sim o que não fizeram para preservar essa importante reserva ecológica chamada pantanal sul-mato-grossense. E dirão: “Vocês sabiam e nada fizeram”. (Jacques Chirac, ex-presidente da França,Johanesburgo, 2002).

* Professor, escritor e acadêmico de jornalismo

Artigo publicado em 23 de setembro no jornal Correio do Estado

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Tomates,touros e bebês

05/09/2009 at 10:37 (Hermano de Melo)

*Hermano de Melo

hermano

Três eventos tradicionais de cunho turístico-cultural-religioso veiculados recentemente pela mídia – dois deles na Espanha e um na Índia – causaram forte impacto no imaginário das pessoas que os assistiram, embora sejam exibidos anualmente. O primeiro deles aconteceu nas ruas da cidade de Buñol, Valencia, Espanha, onde cerca de 40 mil pessoas travaram verdadeira batalha campal com tomates durante três dias seguidos na chamada “Tomatina”. O segundo se deu nas ruas do centro histórico de Pamplona, país Basco, norte da Espanha, durante as festividades de São Firmino (San Fermin), quando pessoas comuns e corredores oficiais (“Os Divinos”) arriscam a vida correndo à frente de meia dúzia de chifrudos e enfurecidos touros. E o terceiro ocorreu no santuário hinduísta-muçulmano de Baba Umer Durga, oeste da Índia, no denominado “ritual de prosperidade para o início do outono”, em que centenas de bebês são jogados de uma altura de quinze metros do telhado de uma mesquita e aparados precariamente em lençóis.

Conforme o jornal El País, na “Tomatina” deste ano (26/08/09), foram consumidas cerca de 100 toneladas de tomates nos três dias de festa que custaram 90.000 euros ao governo local, dos quais 28 mil foram gastos só em tomate! Apesar disso, o evento é visto como uma importante atração turística pela prefeitura, “pois movimenta muito o comércio da cidade”. E as imagens não deixam mentir: milhares de pessoas se lambuzam e nadam em verdadeiros rios de suco de tomate pelas ruas de Buñol. Mas será que há alguma coisa errada em tão inofensiva prática popular que acontece desde 1945? As respostas variam, mas o que chama atenção é o enorme desperdício de tomate nos três dias de festa. Até mesmo em blogs espanhóis essa preocupação é visível: “Lástima de tomates. Nunca entendi esta festa. É um desperdício de alimentos num mundo necessitado de artigos de primeira necessidade”. E outro diz: “Será que não dá pra substituir o tomate por outro produto vermelho qualquer que não seja alimento?”

Em relação aos festejos de São Firmino, o problema é outro. Na festa de nove dias (6-14 de julho) que atrai milhões de turistas de todas as partes do mundo, a atração principal é o encierro (corrida de touros), cuja graça consiste em fugir à frente de meia dúzia de touros que pesam cerca de meia tonelada cada um e que são escolhidos de acordo com o tamanho dos chifres (quanto maior, melhor!).Conforme a agencia EFE, na São Firmino deste ano um jovem espanhol foi morto e quatro ficaram feridos – um escocês, um americano, um espanhol e um francês (o escocês de 50 anos sofreu traumatismo craniano). Calcula-se que, desde 1922, quando as festividades começaram, até os dias de hoje, 15 pessoas morreram por touros nas ruas estreitas de Pamplona. Esse número parece irrisório, mas é que as estatísticas publicadas não contabilizam as dezenas de feridos e incapacitados que resultam da corrida de São Firmino. Também não se diz que, ao final da corrida, a maioria dos touros é morta por toureiros profissionais numa arena onde ocorre uma tourada tradicional, para delírio dos turistas. É bom lembrar, no entanto, que as festividades de São Firmino ficaram famosas após a publicação do livro de Ernest Hemingway, “Fiesta” (“Quando o Sol se Levanta”, no Brasil). (Diretodaredação, 26/07/09)

Quanto ao hábito hinduista-muçulmano de jogar bebês “morro abaixo” num ritual que eles supõem essencial para a prosperidade de seus rebentos, trata-se de uma tradição de 700 anos que se repete anualmente na Índia e que vem recebendo fortes críticas de entidades que defendem os direitos humanos no mundo. Em imagens mostradas na TV e em vídeos na Internet, os bebês são ainda chacoalhados e choram muito antes de ser atirados, o que levou ativistas pró-direitos das crianças a protestarem contra tal prática e uma comissão do governo indiano prometeu investigar o caso. Será? Aliás, sobre esse tipo de bestialidade humana basta dizer que mesmo que os bebês se tornem no futuro adultos fisicamente sãos e prósperos, é quase certo que eles serão também fortes candidatos a ocuparem consultórios psiquiátricos durante grande parte de suas existências.

Em resumo: Das práticas citadas acima, exceto talvez a “Tomatina” poderia ser classificada apenas como uma festa inofensiva, atração turística e uma tolice popular. Entretanto, no caso do encierro (corrida de touros) que acontece durante a Festa de São Firmino, em Pamplona, e o costume de jogar bebês ladeira abaixo no oeste da Índia, são práticas condenáveis que atentam contra a vida e a dignidade humanas e deveriam ser proibidas, apesar do forte apelo turístico-cultural-religioso que as cercam. Além disso, vale salientar que a corrida de touros em Pamplona, Espanha, se constitui num claro exemplo de maus-tratos aos animais, o que reforça a tese de sua proibição naquele país. Mas o que dizer então do rodeio de touros que acontece todos os anos na Festa do Peão Boiadeiro em Barretos, Estado de São Paulo, hein?

* Escritor e acadêmico de jornalismo.

Artigo publicado no jornal Correio do Estado em 04 de setembro de 2009.

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Quer dançar sem migo?

03/09/2009 at 01:00 (Camila Emboava)

Era o final da mesa com vários coordenadores de cursos de comunicação de Campo Grande que aconteceu na Primeira Jornada Internacional sobre investigação e desenvolvimento da qualidade dos conteúdos audiovisuais televisivos e do Jornalismo Brasil-Espanha. Perguntas abertas ao público, os corações dos estudantes da platéia eram tambores nessa hora, nem se precisava fazer silêncio pra ouvir. Indignações guardadas desde a noite anterior, comentários sobre o encontro, questionamentos sobre o porquê de uma faculdade de jornalismo, pouco a pouco as inquietações da platéia iam subindo no palco, pra tirar os convidados pra dançar.

A maioria dos membros da mesa não se animou com o convite de dança. Talvez fossem tímidos. Talvez tivessem desaprendido a dançar no compasso dos questionamentos. Talvez não pudessem ouvir os tambores. Talvez preferissem não dançar com estranhos. Talvez achassem a dança inapropriada para a ocasião.

Eu mesma me arrisquei numa tentativa de improviso aquele dia. Perguntei por que cargas d’água, enquanto algumas faculdades pensam, experimentam e servem de referência para o mercado, a faculdade de jornalismo, pelo menos a minha, faz apenas o caminho inverso. Eu perguntei porque queria que fosse a resposta, pra quando alguém me desafiasse em dança de rua Mas faculdade de jornalismo pra que? Eu respondesse Pra experimentar, pra apontar caminhos. Assim como a Faculdade de Física experimenta e encontra o melhor jeito de transformar grafite em diamante, nós experimentamos, inovamos e apontamos o melhor caminho pra transformar pensamento, fato ou qualquercoisaqueseja em mensagem.

Apenas um membro da mesa fez comentários sobre a minha pergunta. Talvez não pudessem ouvir a música. Talvez fossem tímidos. Talvez o tic-tac dos relógios soasse mais forte que os tambores.

O mediador da mesa pediu que insistíssemos nas perguntas numa outra hora caso não tivessem sido respondidas, afinal éramos futuros repórteres, ou não? Eu tive que pensar, decidir se tinha sido respondida. É verdade que nenhum dos participantes se levantou pra dançar com a minha dúvida de foca engraçadinha. Foi quando eu descobri, por puro pressentimento e aí não pude deixar de sentir um certo abandono: o silêncio também é uma resposta.

(Mas se alguém se animar, dois pra lá dois pra cá, que responda. Ou quem quiser, que conte outra…)

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No breu

25/08/2009 at 08:00 (Samyra Yulle)

Cada um pode com a força que tem

Na leveza e nos desafios de ser jornalista

Eu, Flávio e o professor. Seria aquele o momento oportuno de uma acareação? Talvez não só o orkut tenha surtos, mas o sistema que nos afoga também. Poderia ser o Armagedon e sim, nossas questões teriam respostas ao alcance. As especulações a respeito da profissão e do que somos enquanto academia, ou melhor, o que podemos enquanto tal, chegam a ser angustiantes. Não, mais uma vez as perguntas pairaram, mas há algum tempo os pensamentos parecem alçar vôo diferente.

Sexta-feira, 21 de outubro de 2005. Nublado, o clima estava ameno e propício para práticas esportivas e em especial com “gostinho de quero mais”. Retornávamos de uma competição no Rio de Janeiro e como sempre contagiados pela vontade de mudar, de sermos melhores e mais fortes. Àquela altura, as maiores preocupações eram as provas no colégio e os treinos, que prometiam corrigir falhas persistentes, que atrapalhavam o desenvolvimento técnico dos atletas e melhorar o condicionamento físico. Naquele instante você é apenas mais um adolescente que não entende pinóias sobre futuro, carreira e dinheiro só preocupa quando faltam os trocados para o lanche ou pra suas manias esquisitas de aborrecente. Era o judô, o que durante seis anos foi meta. O que eu seria fora daquele universo. Pergunte a um ossotogari e a um joelho mal resolvido.

O professor parecia um pouco impaciente enquanto Flávio e eu nos perdíamos em dúvidas, em contestações. Normal para quem, como nós, nas palavras de meu amigo, “Não se vê fazendo outra coisa.” Como encarar os desafios de frente na corda bamba do bom senso, rezando para não pender para o mercado, rezando para não nos acomodar? Quais são as nossas garantias, ou melhor, que podemos garantir àqueles que sempre estão lá quando precisamos?

Fevereiro de 2006 e as aulas estavam a todo vapor. Tentei me concentrar nos livros, mas o remédio receitado para o pós-cirúrgico era de fato forte. Tudo era novidade naquele momento. Perdia o sono pensando em quando poderia voltar a lutar, em se conseguiria recuperar as matérias perdidas na escola. Sentia os músculos pesados e fazia esforço para me acomodar na cama. Ao lado, velhos e atuais amigos disputavam minha atenção: os livros e as muletas, algozes heroínas.

O celular toca e sei que ele estava a caminho. Amigo, confidente, motorista, pai pra toda obra. “Samyra, esqueceu os seus horários?”. Não, parece automático imaginar suas broncadeiras. Conseguir que ele confiasse no meu futuro no jornalismo não foi, ou melhor, não é tarefa fácil. Testes e mais testes, do gênero, suas teorias são pertinentes? Não sei pai, mas vou descobrir. As perguntas em um território de investigação, ainda incipiente, são tão importantes quanto as certezas identificadas. Como foi ressaltado recentemente para nós alunos, em jornada internacional sobre investigação e desenvolvimento da qualidade dos conteúdos audiovisuais e televisivos, “o jornalista precisa ser cético.”

A noite parecia uma eternidade. Às 3h da madrugada, era impossível conter toda aquela água naquele 1,56m: precisava ir ao banheiro. Depois de fazer do dia-a-dia da família exaustivo, com idas à fisioterapia , banhos e sessões curativos, é evidente que o orgulho falava mais alto – precisava literalmente andar com as próprias pernas. Primeira tentativa. Receio. No quarto escuro, apenas a tela do computador brilhava. Admitia que de fato, como disse um tio, ex-peladeiro de final de semana e atual fisioterapeuta, “uma cirurgia de LCA não é como um corte de cabelo”. Tentei, mas não conseguia equilibrar o corpo. Insistentemente, a água que precisava sair, tentava sair pelos olhos e as lágrimas, eu não pude conter.

O jornalismo não é apenas uma vocação, é uma sina, um dom. Você nasce com a palavra incontida na garganta que luta para sair. Você nasce com o grito aprisionado no peito, teimoso, persistente. Cresce com a idéia fixa de mudar o mundo, de querer fazer diferente e sempre intrigado com tudo e todos que o cercam. Somos apaixonados por vozes, por olhares. As singularidades não pedem, invadem nosso sossego, roubam nossos sonos e sonhos. Parecemos enfeitiçados por injeções de red bull, que nos fazem voar e até acreditar que de fato temos asas, somos anjos responsáveis pela intercessão junto à mídia dos que sofrem, mesmo sem saber, com os abusos dessa.

Ao ouvir soluços, o homem já estava em pé. Qual foi a última que o “carro velho do papai” aprontou? Os olhos doeram com aquela luz. Para o vulto apenas pedi ajuda, sentindo um peso no peito. “Pai, me ajuda a ir ao banheiro?”. Silêncio. Quando percebi, a princesa era conduzida no melhor estilo ao trono: carregada nos braços de um enviado celestial, explicação mais plausível para o sr. José Galvão.

Soa poético essa visão da profissão e de fato o pode ser. Mas só ela é capaz de sustentar o peso das carências profissionais que cercam o jornalista desde seu estágio idéia no candidato a uma vaga na universidade. Sinto os olhos marejados apenas em pensar que talvez não haja ninguém para me carregar futuramente. Que talvez, no futuro, eu olhe para trás e veja que, de fato, não fui a mulher maravilha ou algo parecido.

Mas o que mais me preocupa é o medo de errar, o orgulho de mancar, a incapacidade de abandonar pré-conceitos e de reconhecer de que preciso não ser jornalista, mas ser jornalismo. Nesse projeto confuso de vida, a única certeza que tenho é que ele precisa de nós.

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