O terremoto político que sacudiu a Espanha (Leitura de fim de noite)

27/05/2015 at 23:37 (*Liberdade e Diversidade) ()

espanhaAtivistas em favor da chapa “Barcelona em Comum”, de Ada Colau, alegram-se ao conhecer, na noite de domingo, os primeiros resultados das eleições

Movimentos anticapitalistas vencem em Barcelona e podem governar também Madri. Direita sofre pior retrocesso desde 1995. Irrupção do Podemos obriga esquerda tradicional a repensar seu papel

25 DE MAIO DE 2015

Na Esquerda.net / Outras Mídias

O panorama político territorial espanhol conhecido até os dias de hoje ficou tremendamente abalado depois dos resultados eleitorais deste domingo. O veredito saído das urnas, com uma participação eleitoral ligeiramente inferior às de 2011, ofereceu resultados totalmente imprevisíveis há um ano, nas vésperas das eleições para o Parlamento Europeu.

A espetacular virada eleitoral em cidades como Madrid e Barcelona, que poderão vir a ser governados por movimentos políticos catalogados de anti-sistêmicos, são uma fiel imagem da Espanha que amanheceu esta segunda-feira, após o terremoto político de domingo. As listas Agora Madrid e Barcelona em Comum, ambas com protagonistas do Podemos e movimentos sociais alternativos, foram a tradução eleitoral do movimento dos indignados do 15-M, nascido na praça madrilenha Puerta del Sol, na primavera de 2011.

Mas um dos fatos mais destacados desta enorme mudança eleitoral é a perda de poder do Partido Popular (PP), o partido tradicional de direita. O choque foi tão evidente que na sede nacional do PP, na madrilenha rua de Gênova, não foi instalado o tradicional balcão tão amado pelos dirigentes do partido nas noites eleitorais triunfantes. Esta não foi, para nada, uma noite triunfante para os conservadores espanhóis de Mariano Rajoy.

O azul – a cor de sempre do PP – ficou diluído nas câmaras e comunidades autônomas em todo o território do Estado espanhol ficou diluído, muito diluído. Quase 2,5 milhões de votos a menos do que há quatro anos.

O bipartidismo resiste — porém, mais debilitado do que nunca. Nas urnas municipais, o PP e o PSOE (ex-socialista) mal superaram os 50% dos votos, algo inaudito em eleições anteriores. E enquanto o PP perde poder, o PSOE recupera governos, mas com necessidade de apoio de terceiros e sempre com a obrigação de atingir pactos tripartites e sempre complexos; em alguns casos como parceiro minoritário.

Dúvidas existissem, estas eleições confirmam a irrupção do Podemos e das suas listas municipais em coligação com movimentos sociais por toda a Espanha. O sucesso foi de tal calibre que esta formação política, que renunciou ao uso do nome do partido em candidaturas autárquicas por temer intrusos fora do seu controlo, pode vir a ficar com as presidências das câmaras de Madrid e Barcelona, respetivamente Manuela Carmena e Ada Colau. O mesmo pode vir a suceder-se em Saragoça e Cádis, entre outras cidades.

Outra conjunto político, o Compromís, até este momento com um peso minoritário inclusive no seu território, a Comunidade de Valência, pode vir colocar o seu cabeça de lista, Joan Ribó, no cadeirão que ocupou durante 25 anos a conservadora Rita Barberá. Para além disso, estas candidaturas progressistas podem vir a dar maioria aos socialistas em cidades como Sevilha e Córdoba ou feudos tradicionais do PP como Alicante ou Valhadolid, entre outros. Porém, o PSOE não foi a segunda força política em cidades como Madrid, Barcelona, Valência e Saragoça, um dado a reter sobre o futuro dos social-democratas espanhóis.

O outro fenómeno eleitoral desta jornada são os Ciudadanos, um partido que até ao momento não tinha saído do seu reduto, a Catalunha, onde está presente há duas legislaturas como pequeno partido. Desta vez, recebeu mais de um milhão de votos com apenas 1000 candidaturas – em Espanha existem 8122 câmaras municipais – e passou de emergente a consolidada força no panorama político espanhol. E, não menos importante, em várias sítios converteram-se numa peça chave para aguentar um PP debilitado no poder.

A noite eleitoral traz consigo outras consequências. A primeira delas é a implosão da UpyD, que desaparece de todas as instituições, tanto câmaras como comunidades autónomas onde tinha representação. Passou, em pouco mais de quatro anos, de emergente a politicamente irrelevante. Outra consequência, dolorosa à esquerda, são os frágeis resultados da Esquerda Unida, que fica muito marginalizada onde conseguiu eleger representantes, essencialmente em algumas autarquias de média dimensão.

Se a revolução no terreno municipal foi grande, nas comunidades autónomas foi descomunal. O PP perdeu todas as maiorias absolutas nas 10 comunidades que governava, na sua maioria desde 1995. Isso se traduzirá, salvo surpresas de última hora, à perda de pelo menos 8 governos autonómicos.

Se a perda do poder municipal afeta as estruturas de base do PP, com repercussões incontornáveis na sua estrutura orgânica, a saída dos governos autonómicos afeta o músculo político dos conservadores e a sua capacidade em controlar orçamentos públicos de grande dimensão. Por exemplo, a Comunidade Valenciana, dispõe de um orçamento de quase 16 mil milhões de euros só para este ano.

O desafio, a partir de agora, é a formação de governos progressistas com a participação de várias formações políticas, duas, três e inclusive quatro. Uma dinâmica que, salvo excepções, não tem grande tradição em Espanha.

As câmaras têm data fixa para tomar posse: 13 de junho. As comunidades autónomas, regidas por práticas parlamentares mais complexas, têm prazos mais relaxados. Mas em meados de julho, no máximo, será plasmada nos diários oficiais a nova realidade política territorial espanhola. Uma situação que não tem precedentes. E no horizonte não muito longínquo as eleições gerais. Um palco apaixonante.

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