Diário de uma desavisada** (Crônica da manhã)

05/04/2015 at 13:14 (*Liberdade e Diversidade)

Thereza  Hilcar

Theresa HilcarTheresa Hilcar*

4 de abril de 2015

Em meio a dezenas de escritores, encontro o amigo de longa data, autor do prefácio do meu livro de estreia: Ignácio de Loyola Brandão. Ao seu lado, um jovem português que ele apresenta como sendo o maior autor desde Saramago. O nome é Gonçalo Tavares. Não dou trela ao jovem escritor, do qual nunca ouvi falar, e até desconfio que meu amigo esteja sendo generoso com o gajo.

À noite, durante o jantar, e sentada à mesa com Ignácio, o rapaz, educadíssimo, pede licença para se juntar a nós. Ficamos os três a falar de livros, claro! Ainda sem saber ao certo de quem se tratava, tento ser gentil e falo do quanto gosto do seu país, de Fernando Pessoa, e de um livro que marcou profundamente: “O último trem para Lisboa”. Não leu ainda? Ah! Tem que ler, é muito bom, e o Valter Hugo Mae? Adoro o Mae. É de ler de joelhos. Ele sorri diante da minha ingenuidade – ou ignorância – e me pede para contar o enredo do “Ultimo Trem”. Diz que vai ler.

Loyola, sábio que é, me deixa cometer todas as imprudências sem dizer uma palavra. Antes de me deitar vou ao Google e descubro que o moço é mesmo escritor importante e premiadíssimo. Dizem que está à altura de Saramago. Quando encontro-o no dia seguinte, vou logo dizendo: Gonçalo, você é muito famoso, menino! Ele acha graça e resolve falar dos seus livros como “Viagem à Índia” e uma série intitulada “Bairros”.

Thereza Hilcar 2Diz que adora Clarice Lispector e pretende incluí-la nesta série. Durante quatro dias compartilhamos as refeições e até ficamos amigos. Quando compro um livro seu, fico constrangida de pedir autógrafo. Aliás, sempre fico sem jeito de pedir autógrafo para mim. Então digo que a dedicatória vai ficar para quando for a Lisboa. É um bom sítio para isto, me responde com o belo sotaque! Em meio ao evento de livros, o anúncio da morte de García Márquez me dá um susto.

A notícia chega durante uma palestra. O palestrante lamenta, eu dou um longo suspiro. Mas minha vontade é gritar. Mais que uma morte, a notícia é o fim de qualquer chance de rever meu escritor predileto. Aquele que encontrei certa vez, desavisada, num pub em Nova Iorque, e não lhe notei a presença. Nem atendi ao pedido de sua acompanhante que insistia em iniciar uma conversa. Estava ocupada demais assistindo Wood Allen e seu clarinete. Meus dois ídolos numa noite? Ah! Nem em sonhos. Nunca me perdoei por esta falha. Contei o caso para Ignácio de Loyola que foi logo pedindo: posso roubar esta história para uma crônica?

Em seguida me chamou a atenção: benfeito pra você. Nunca se deve deixar de conversar com alguém. Mas estava escuro, Ignácio, eu não podia imaginar que era ele, choraminguei. Desculpas. Apenas desculpas. Fique mais atenta da próxima vez! Mas com Gabo não haverá próxima vez. Dele haverá apenas a história. Que será contada e recontada por mim e agora por Ignácio de Loyola. Que eu espero, sinceramente, não seja muito duro comigo. Embora eu mereça.

*Jornalista e Escritora – Membro da Academia Sul-Mato-grossense-de Letras (ASL)

**Publicada no Suplemento Cultural do jornal Correio do Estado de 4/3/2015.

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