Mário Benedetti: Cumplicidades de uma ‘existência amorosa’

23/05/2015 at 15:55 (*Liberdade e Diversidade)

mario benedettiO mundo é um beco onde a cumplicidade é capaz de salvar um relacionamento

ZanattaJacir Alfonso Zanatta**

23/05/2015

Crítica Literária – Jornal O Estado MS

Mário Benedetti precisou morrer para que eu tomasse coragem e comprasse um dos seus livros. Sua morte, ocorrida no dia 17 de maio de 2009, aos 88 anos, fecha um ciclo na literatura latino-americana. Não que a qualidade tenha se perdido, mas a época áurea dos grandes escritores está se findando. Alguns ainda resistem bravamente, mas a cada vez que a mídia anuncia a morte de um escritor que hoje está acima dos 75 anos, penso que a geração formada antes da influência da televisão está indo embora e que novos tempos estão surgindo. Não é possível afirmar ainda se são melhores ou piores.

Uma semana antes da morte de Benedetti, estive numa da poucas livrarias existente em Campo Grande com a finalidade de encontrar novos autores e obras ainda pouco conhecidas pelos leitores e que pudessem ser utilizadas neste espaço de resenhas. Os livros “Primavera num espelho” e “Quem de nós”, do escritor uruguaio Mário Benedetti me chamou a atenção e coloquei as obras junto com as demais que estava selecionando. Fui escolhendo outros livros de escritores conhecidos e na hora de decidir quais levaria para casa, acabei optando por “Maíra” de Darcy Ribeiro e “Eu hei de amar uma pedra” do escritor português Antonio Lobo Antunes.

Uma semana depois, o anúncio da morte de Mário Benedetti, me fez voltar na livraria. Comprei o livro “Primavera num Espelho” e acabei sendo presenteado por minha esposa com o livro “Quem de Nós”. Uma obra que coloca o amor como tema central. Intrigante escrito em três partes que buscam expor o ponto de vista de cada um dos envolvidos na trama amorosa criada por Benedetti. Lançado na década de 1950, o opúsculo com 83 páginas retrata o triângulo amoroso entre Miguel, Alicia e Lucas.

Na primeira parte, Miguel busca justificar os motivos que o levaram a se separar de Alicia. Neste primeiro capítulo o leitor é testemunha da vida conjugal de Alicia e Miguel, e assiste a separação dos dois sem poder fazer nada. Já na segunda parte da obra, Alicia explica as razões de sua partida. Conforme ela vai relatando os acontecimentos a partir de sua ótica, o leitor vai sentindo raiva da forma como Miguel, levado por uma grande insegurança empurrou o amor de sua vida para os braços de seu amigo Lucas. Autor vai adiante na explanação sobre a questão das relações

Um romance intrigante que expõe os dramas afetivos contemporâneos sem, no entanto, se ater em apenas descrever a história sob três pontos de vista diferente. O autor consegue ir além. Ele expõe a alma dos personagens, apresenta suas fraquezas sem prejudicar a trama. A primeira parte pode ser comparada a um diário em que Miguel questiona seu comportamento e a mediocridade de sua existência. Em seu texto, Miguel analisa a esposa, o amigo Lucas, os dois filhos e no final comenta sobre sua amante. De forma sutil, Benedetti (2007, p.26) mostra que “a inveja é o único vício que se alimenta de virtudes, que vive graças a elas”. Uma frase avassaladora e que leva o leitor a refletir sobre as próprias limitações e sobre os vícios que possui.

Arrisco dizer que o livro é uma longa sessão de psicoterapia fora do setting terapêutico. Uma história construída para que o leitor perceba as próprias limitações e os erros que comete em sua relação amorosa. O autor mostra Miguel como um personagem frio e mesquinho. Isso fica claro quando Benedetti (2007, p.30) usa o personagem Miguel para desabafar: “nunca consegui me apegar em definitivo a ninguém em particular; nunca precisei, não sei se feliz ou infelizmente, do retorno afetivo dos outros”.

Um livro capaz de mostrar que o mundo é um beco sem saída e que a única felicidade possível é aquela que nunca poderá se completar, mas também alerta para o fato que a cumplicidade é a única forma capaz de salvar um relacionamento. Benedetti consegue deixar claro que todos erramos, mas o grande erro dos relacionamentos, o mais irremediável, é nunca falar sobre eles. Mas este também é um livro onde o amor pode sobreviver subentendido, onde não é necessário gastar palavras para explicar o que se sente.

Em seu relato, Alicia mostra que é um absurdo que sejamos os mesmos e ainda assim tenhamos perdido a coragem e a capacidade de sentir. Isso mostra que não somos os mesmos, mas apenas cópias. Apenas cópias veladas. A terceira parte da obra é surpreendente. Benedetti tira o chão do leitor. Deixa-o perdido, confuso. O personagem Lucas, é um jornalista e sua versão dos fatos é contada em forma de conto. Ele transforma o drama que vive em texto literário. Os personagens (Miguel, Alicia e ele próprio) assumem nomes fictícios e as notas de rodapé servem para Lucas explicar como elaborou o conto e quais os nomes reais dos personagens criados por ele.

O livro de Mário Benedetti conta duas histórias dentro da mesma história. Uma sacada genial. Uma obra que pode ser lida de forma diferente dependendo do gosto do leitor. É possível começar por Alicia, ir para Lucas e depois retornar a Miguel. São posições diferentes que se complementam e contribuem para dar vida aos personagens e para fazer com que o leitor se envolva e queira saber como tudo foi sendo construído. O que fascina é o fato de que na última parte, os personagens reais dialogam com os fictícios e mostram que cada um possui uma visão diferente sobre a trajetória dos acontecimentos.

*Autor – Mário Benedetti, nasceu em 1920, na cidade de Paso de los Toros, no Uruguai. Ativista de esquerda a vida toda, foi perseguido e exilado pela ditadura que tomou conta do Uruguai em 1973, fazendo com que deixasse sua terra natal para viajar o mundo. Morou na Argentina, Peru, Cuba e Espanha, voltando ao Uruguai após o fim da repressão. Faleceu em Montevidéu no dia 17 de maio de 2009. BENEDETTI, Mario. Quem de nós: uma história de amor. Rio de Janeiro: Record, 2007.

**Jacir Zanatta – É professor da UCDB – Crítico Literário – Escreve no jornal “O Estado MS” aos sábados.

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