A cópia, a arte e a influência** (Crônica da manhã)

19/05/2015 at 12:21 (*Liberdade e Diversidade)

maria adéliaMaria Adélia Menegazzo*

Nas minhas aulas de poéticas contemporâneas costumo propor a leitura de ensaios, justamente por serem textos sem pretensão doutrinária e que provocam discussões abertas sobre um determinado assunto. O objeto de reflexão vem de todas as artes. A última discussão girou em torno do “êxtase da influência”, de Jonathan Lethem, com inusitadas observações sobre conceitos de plágio, cópia, citação, apropriação e outros.

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Ter pensamento próprio é diferente de ser original, porque, afinal, o que significa originalidade? Onde está a originalidade dos versos de Manoel de Barros: “Quando eu nasci, meu pai sabia que eu era torto”, se colocados ao lado de Drummond: “Quando eu nasci, um anjo torto, desses que vivem nas sombras, veio e disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida!”? Sem contar Adélia Prado, Chico Buarque, Torquato Neto e tantos outros que usaram a mesma expressão inicial e a imagem do anjo torto, esbelto, safado, chato etc. Paródia? Raduan Nassar, em “Lavoura Arcaica”, faz questão de apresentar no final suas fontes bíblicas e literárias. Yann Martel, o autor de “As Aventuras de Pi”, relatou que teve a “inspiração” de escrever seu romance após ler uma resenha do livro de Moacyr Scliar, “Max e os Felinos”. Martel divulgou sua fonte e utilizou apenas a ideia. Influência?

maria adelia

Em 2005, os artistas britânicos Jake e Dinos Chapman compraram uma tiragem completa de 80 gravuras da série “Desastres da Guerra”, de Goya, artista do romantismo espanhol, e sobre elas pintaram, com aquarela, cabeças de macaco, palhaço ou cachorro, destruindo o caráter trágico das gravuras originais, transformando-as em uma nova história. Eles são os proprietários daquela tiragem, portanto, são proprietários da obra?

Lethem afirma (mas é apenas um ensaio, não nos esqueçamos!) que se deve admitir com toda a humildade que a invenção não consiste em criar a partir do nada, mas a partir do caos. Daí, pergunto: o que poderia conter sua ideia de caos? Transformar uma crônica de guerra numa história em quadrinhos dessacralizando a tradição? Talvez seja esta a melhor resposta do nosso tempo, mas em quase nada difere do gesto de Marcel Duchamp, quando desenha bigodes e barba na Mona Lisa de Leonardo Da Vinci.

Digo “quase” porque Duchamp interveio em uma reprodução, um tipo de cartão postal sem valor.

Já os irmãos Chapman intervieram em gravuras autorizadas e que custaram 40 mil euros à época. Deu pra entender? O mercado, sempre ele, acaba assumindo o papel de juiz e determinando a autoria. Copyright? O que dizer de Dizzy Gillespie saindo em defesa de um músico acusado de plagiar Charlie Parker: “Não se pode roubar um dom.”. Bird entregava sua música ao mundo, e, se você pode ouvi-la, pode ficar com ela para você”. Copyleft? Assim, todas as ideias são de segunda mão, pois o mundo da arte e da cultura é um vasto bem comum. Tão comum que todo o ensaio de Lethem foi construído com base em citações que ele faz questão de apresentar no final do texto. A teoria na prática: um ensaio.

*Professora da UFMS,escritora,membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL).

**Crônica publicada hoje (19/05) no jornal Correio do Estado. A ilustração á do Éder.

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