ENCILHAMENTO E “HOMENS NOVOS” NO INÍCIO DA REPÚBLICA (Leitura de fim de noite)

16/05/2015 at 23:09 (*Liberdade e Diversidade)

encilhamento(O PRELÚDIO REPUBLICANO, ASTÚCIAS DA ORDEM E ILUSÕES DO PROGRESSO)

carlos fredericoCarlos Frederico Corrêa da Costa*

16/05/2015

Um conluio envolvendo militares radicais, cafeicultores paulistas e políticos republicanos culminou na proclamação da República, e as primeiras medidas adotadas pelos republicanos foram uma completa abertura da economia aos capitais estrangeiros, sobretudo ingleses e americanos, a permissão para os bancos privados emitirem moedas, uma nova lei liberal das sociedades anônimas e a criação de um moderno mercado de ações, centrado na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.

A ideia das novas elites era promover uma industrialização imediata e a modernização do país “a todo custo”. Os resultados foram dois, um fluxo inédito de penetração de capitais ingleses e americanos no país e a mais escandalosa fraude especulativa de todos os tempos no mercado de ações, chamada singelamente de “o encilhamento”, numa referência ao ponto de partida do qual os cavalos disparam no turfe. Era a entrada triunfal do Brasil na modernidade.

O efeito direto dessa falcatrua desenfreada foi arruinar os capitalistas proeminentes da praça, os quais constituíram a elite econômica da era monárquica, propiciando a ascensão de uma nova camada de arrivistas (pessoas ambiciosas e que querem ter bom êxito a todo custo), enriquecidos no jogo especulativo e nas negociatas dos primeiros anos do novo regime.

Paradoxalmente essa classe de argentários de moralidade dúbia se transformaria, junto aos cafeicultores do Sudeste, nas principais bases sociais e econômicas de sustentação da elite científica e tecnocrática inspirada no racionalismo positivista (O positivismo defende a ideia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro). Esse processo de mudança social alcançou amplas dimensões, na medida em que o advento do novo regime e a instauração da nova ordem econômica desencadearam igualmente movimentos especulativos em torno das taxas cambiais, do mercado imobiliário e de aluguéis, dos fornecimentos de gêneros alimentícios de primeira necessidade da ampla gama de importações, além das generalizadas deposições e ainda mais volumosas reposições nos quadros de funcionários e empregados públicos de toda ordem, por meio das “degolas”, “derrubadas”, “exílios”, “despejos” e sua contrapartida.

Euclides da Cunha, um republicanos histórico precocemente decepcionado, chamou estas ações de “sintomas mórbidos de uma política agitada, expressa no triunfo das mediocridades e na preferência dos atributos inferiores, já de exagerado mando, já de subserviência revoltante […] é uma seleção natural invertida: a sobrevivência dos menos aptos, a evolução retrógada dos aleijões, a extinção em toda linha das belas qualidades de caráter, transmudadas numa incompatibilidade à vida, e a vitória estrepitosa dos fracos sobre os fortes incompreendidos… Imaginai o darwinismo pelo avesso aplicado à história…”.

A ascensão desses “homens novos”, como eram chamados os grupos arrivistas, coincidiu ademais com a Abolição (1888) e desmobilização de enormes contingentes de ex–escravos no Sudeste, em paralelo com a vultosa imigração estrangeira, alterando os quadros hierárquicos e de valores da sociedade, na medida mesma em que se consolidavam as práticas do trabalho assalariado e da constituição de um mercado interno mais dinâmico.

Esse conjunto de transformações gerou um amplo processo de desestabilização da sociedade e cultura tradicionais, cujo sintoma mais nítido e mais excruciante, pelos custos implicados no desejo das novas elites de promover a modernização “a qualquer custo”, foi o episódio da Revolta de Canudos, assunto que abordarei no próximo artigo.

Referência Bibliográfica

COSTA, Carlos Frederico Corrêa da (pela transcrição e adaptação) de: SEVCENKO, Nicolau. Introdução. O prelúdio republicano…  In: NOVAIS, Fernando A. (org.), História da vida privada no Brasil 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 14-16.

*Carlos Frederico Corrêa da Costa é doutor em História Social pela USP-SP, historiador de empresas, famílias e biografias.    Professor  aposentado da Graduação, Pós-Graduação e Pesquisador do Departamento de História, campus de Aquidauana/UFMS.

*E-mail: cfccosta@terra.com.br

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