O galo cantador da Dona Socorrinho (Leitura de início de noite)

12/05/2015 at 19:46 (*Liberdade e Diversidade)

galo da socorrinho

Flaviano Eduardo*

12/05/2015

Entre outras e outras é o seguinte. O pé de manga da minha vizinha, dona Socorrinho, está carregadinho de flores. De longe a gente já nota os tons amarelados a enfeitar sua frondosa copa. Sabe aquele cheiro de flor de mangueira que rescende de manhã cedinho e nos remete ao saudosismo dos tempos dos velhos quintais? A bem dizer, entre tantas outras esquisitices, visões e cheiros precoces a compor o quadro da surpreendente natureza dos dias de hoje; é só prestar atenção, resistir às zonzeiras do massacrante cotidiano nosso de cada dia e reparar nessas aquarelas esquecidas. Porque cá no que me resta de neurônios ainda não oxidados, as mangueiras botavam pra carregar quando passava o inverno- de agosto em diante. Agora é assim, até as arapuás (**) se surpreendem pelo néctar fora de época.

Por falar em dona Socorrinho, que já passou dos oitenta-, e mudando de assunto, deixando as maluquices da natureza pra lá-, outro dia, já faz tempo, precisei fazer-lhe queixa do galo que ela criava, que nas primeiras matinas, todos os dias, soltava seus cacarejos amiúdes, descontrolados e às alturas, saudando o acordar do dia, numa estridência que ganhava o mundo ainda silencioso e despertava, com impertinência, minha filha Tássia. Ela então passava a ser ouvinte forçada e, com pouco, adquiriu uma síndrome do canto do galo- insônia nos primeiros acordes do indesejado arauto do alvorecer.

Pra falar a verdade eu era fã daquela anunciação do novo dia a rebentar, sentia o reviver de um bucolismo bem distante que mexia com o saudosismo que tenho comigo, coisas que guardo das minhas origens lá de Sapé, na Paraíba. Mas minha filha entrava dia, saía dia, vinha com a ladainha de sempre: que já nos primeiros ensaios do galo despertava atônita e perdia o sono, o sono gostoso da madrugada. Passou a detestar o galo de dona Socorrinho. De tão lamuriosa, deu-me coragem pra falar com a simpática vizinha sobre o seu suplício.

Era de lascar, fazer queixas à minha vizinha do seu galo cantador! Seria demais, cá pensava, de ser portador dos caprichos de uma filha que abominava algo que nesses tempos de hoje, de gente empoleirada nos adensamentos prediais, soa como inusitado: o canto de um galo de manhãzinha. Pense num drama de consciência reclamar do galo a dona Socorrinho. Senti-me até ridículo, ia perder a consideração da boa vizinha. Mas fui.

Ao toque da campainha, uma cabecinha bem branquinha numa cara naturalmente simpática saudou-me com um atencioso bom-dia. Era sempre assim dona Socorrinho. Fiz mil e um rodeios pra chegar ao tema do galo e do por que ele incomodava tanto minha filha. Tome conversa fiada. Com pouco a cara alegre ganhava o semblante de estupefação, era como se estivesse a ouvir algo inacreditável. Findou entristecida e, com voz embargada, proferiu a sentença do galo: ia dar um jeito no trovador matinal. Na despedida do nosso pacto ela externou algo bem típico das pessoas de antigamente, era como se quisesse proferir um veredicto: Flaviano, sua filha Tássia sofre dos nervos?

O galo nunca mais cantou. 

P.S. (**) Aquelas simpáticas abelhinhas escuras que não ferroam

*Engenheiro eletrônico e contista nas horas vagas

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