As marcas dos povos que se juntam a nós (Leitura da noite)

07/05/2015 at 20:00 (*Liberdade e Diversidade)

São Paulo 24/01/2015 III Feira da Alasita, Atividade da Comunidade Boliviana de São Paulo. Foto Paulo Pinto/Fotos Publicas

São Paulo 24/01/2015 III Feira da Alasita, Atividade da Comunidade Boliviana de São Paulo. Foto Paulo Pinto/Fotos Publicas   

Festa Alasitas, um dos eventos que marcam presença de 300 mil bolivianos em São Paulo

Num momento em que Brasil recebe nova imigração, agora não europeia, coletivo de produtores culturais constrói em difunde, em SP, registros sobre sua cultura e expressões artísticas

Publicado em 7 de maio de 2015 por Redação

Por Migramundo

Festas de comunidades migrantes como a Alasitas (boliviana) e a Yunza (peruana) pouco a pouco ganham espaço no cenário cultural de São Paulo. Mas ainda é grande a resistência de parte da sociedade diante de outras manifestações culturais de migrantes. Romper essa barreira e chamar o migrante para ajudar nessa contribuição é um dos principais objetivos do projeto Visto Permanente, que iniciou suas atividades em janeiro e foi lançado oficialmente no último dia 28 de março.

Trabalhando especialmente com a linguagem audiovisual, o Visto Permanente pretende ser um espaço vivo, participativo e em construção que represente as comunidades migrantes de São Paulo por meio da arte. Dessa forma, a ideia é montar um acervo virtual no qual a cidade possa encontrar o imigrante que nela vive e este possa reivindicar seu espaço. Por exemplo, qualquer pessoa pode enviar registros para compor esse acervo participativo, bastando cumprir determinados requisitos definidos pelo projeto. Essa reivindicação já fica explícita no nome Visto Permanente, que remete tanto à necessidade de dar visibilidade aos migrantes e suas contribuições culturais como de convidá-los e encorajá-los a virem fazer parte da cidade.

A equipe do Visto Permanente é composta por quatro amigos, sendo três imigrantes – o português Miguel Dores, a luso-brasileira Cristina de Branco e a colombiana Daniela Solano – e o brasileiro Arthuro Alves. Todos eles ou já trabalharam no passado com migrantes ou mesmo convivem diariamente com a questão.

O projeto começa com apoio do programa Redes e Ruas, um edital das Secretarias de Cultura, Serviços e de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo, mas já busca novas formas de financiamento para manter a atuação. Na entrevista abaixo, a equipe do Visto Permanente explica de onde surgiu a ideia para a iniciativa, quais os frutos já colhidos nas poucas semanas de trabalho e os planos para os próximos meses.

Quais os objetivos da Visto Permanente?

É um projeto que pretende criar um acervo virtual participativo de registros audiovisuais de expressões artístico-populares das novas culturas imigrantes de São Paulo e difundi-lo através das redes e de instalações de vídeo em Praças do Programa WiFi Livre SP do centro da cidade. Ou seja, a articulação de um processo de representação do imigrante com as redes e com as ruas. Visando repensar novas pertenças e patrimônios urbanos, o projeto tem como objetivo criar uma rede de partilhas que se manifeste tanto através de plataformas virtuais como no espaço público. Através desse acervo vivo procuraremos trabalhar a participação cidadã das culturas transnacionais na cidade, bem como defender o direito à imagem e memória coletiva das comunidades imigrantes.

Como surgiu a ideia para a Visto Permanente? É um projeto temporário ou permanente?

Quando começamos a trabalhar com produção cultural juntos, chegamos à ideia de fazer algo que fosse orgânico em relação à maioria do grupo: a vida de imigrante aqui. Como imigrantes, sentíamos um afastamento geral da sociedade paulistana em relação às comunidades que deixamos para trás ao vir para cá, por mais que o seu discurso fundacional se paute pela mestiçagem. Sentimos que rola certo desinteresse paulistano por aquilo que não é brasileiro ou montado nos cavalos do Ocidente. Isso não se reflete numa xenofobia específica em relação às comunidades imigrantes, mas encontramos no dia a dia fronteiras nacionais muito claras que tendem a referenciar-nos como externos, como “gringos” (expressão que todos os imigrantes ouvem frequentemente, sejam bolivianos, congoleses ou coreanos), e sentimos também que esse desinteresse geral se manifesta em São Paulo numa crescente violência de parte da sociedade paulistana com algumas comunidades, pois um desinteresse é uma desumanização em potência. E isto acontece ao mesmo tempo em que algumas comunidades imigrantes mais antigas estão totalmente no seio da identidade local de São Paulo, como a síria e libanesa, a italiana ou a japonesa. É como se a feijoada brasileira já estivesse servida, recheada de interculturalidade, e não houvesse mais espaço para mais pimentas.

Então começamos a montar um projeto que permitisse a São Paulo, a cidade para onde migramos, conhecer a força interna das novas comunidades imigrantes, as suas resistências e a sua vividez. Como estamos ligados nelas tínhamos e temos plena consciência de que elas existem com força e variedade na cidade, embora invisíveis, começamos a desenhar um acervo que é ao mesmo tempo político e patrimonial, que atribui visibilidade ao imigrante (enquanto pessoa e produtor de cultura) e que procura assumir ao mesmo tempo uma postura de direito à cidade e à cidadania.

A ideia de fazer tudo isto através de um acervo audiovisual de expressões artísticas, por ora, partiu de algumas referências de videastes que admiramos como Vincent Moon, Tiago Pereira, Amplificado.tv ou mesmo os trabalhos etnográficos mais antigos como o de Alan Lomax. A intenção é que seja um projeto permanente, mas começamos o projeto faz três meses e a primeira fase dele terminará em agosto, que é o período de apoio do edital Redes e Ruas da Prefeitura de São Paulo. Estamos chutando a bola para frente e vamos continuar após esta fase, mas claro que isso implicará novas configurações.

migrantes 3Como se deu o envolvimento dos membros da equipe com a temática cultural migratória?

Bom, de forma natural. O nosso grupo é composto por uma colombiana, uma luso-brasileira que viveu metade da sua vida em Lisboa, um brasileiro e um português. Somos maioritariamente imigrantes e por isso nos enfrentamos diariamente com essa condição. Mas também por outras razões. Alguns de nós já trabalharam com imigração noutras cidades em que viveram e nosso envolvimento também se deu através da militância que desenvolvemos no Cineclube Latino-americano Juan Carlos Arch e na participação em atividades gerais do Memorial da América Latina.

De onde veio a ideia do nome Visto Permanente?

Surgiu um pouco da necessidade de pôr um nome no projeto que todas as comunidades imigrantes pudessem identificar. Então, como elas são tão variadas e dispersas, chegamos à conclusão de que o único lugar comum de todas elas é a Polícia Federal e a burocracia que têm que enfrentar. Um pouco triste isso, não é? Por isso surgiu a ideia de “Visto Permanente” como um convite a estar realmente cá (e estar cá para nós significa ser um agente político, cultural, social total aqui, poder construir a cidade em que se vive e não ser apenas aculturado por ela).

Ao mesmo tempo o nome tenta zoar um pouco com as fronteiras criadas pela construção do Estado-Nação e da burocracia a que o imigrante é submetido. Por outro lado, a palavra “visto” nos permite trazer o imaginário da visão, que no fundo é o que estamos procurando através do audiovisual, contribuindo para atribuir uma visibilidade maior para o imigrante, e a palavra “permanente” nos permite ousar dizer que o que é feito aqui se torna daqui, permanece na história e na identidade da cidade.

No último dia 28 de março aconteceu a festa de lançamento do Visto Permanente. Que balanço vocês fazem do evento?

Foi um evento muito interessante. A princípio pensamos só num ato de abertura, com a passagem dos vídeos já editados pela equipe, pois não somos uma equipe de produção de espetáculos. Mais tarde começamos a ponderar um pequeno espetáculo e então começamos a chamar grupos que já tínhamos filmado e que eram mais próximos. Eles aceitaram a proposta e então tivemos um show completamente insólito, um junção de um músico português, um duo argentino, um grupo folclórico paraguaio, um grupo de percussão senegalês e a exposição de couros de um pirogravador uruguaio, todos eles residentes em São Paulo. A casa (o ECLA – Espaço Cultural Latino-americano) esteve totalmente cheia e acabou por ser uma integração fantástica, recheada de momentos diferentes, e realmente divertida. Ficamos muito contentes de começar desse jeito a nossa atividade.

Recentemente outras festividades ligadas às comunidades migrantes que vivem em São Paulo têm ganhado espaço e apoio do poder público, como a Alasitas (Bolívia) e Yunza (Peru). Esse tipo de evento seria contemplado de alguma forma pelo Visto Permanente?

Estivemos em ambos, mas como público. Temos intenção de filmar festividades e rituais trazidos por imigrantes para São Paulo, mas os grandes eventos são difíceis de contemplar porque tomam proporções de espetáculo massivo, e a nossa lógica de filmagem tenta fugir, quando possível, da dinâmica espetacular. Pretendemos apresentar nos nossos vídeos as pessoas enquanto produtores de cultura e os produtores de cultura enquanto pessoas, e pensamos que os grandes eventos não só têm uma cobertura midiática maior que nos torna um pouco desnecessários nesse trabalho de documentação, como tornam meio impossível fazer registros pessoais. Embora, por exemplo, já filmamos ou temos agendadas filmagens com grupos que participaram em eventos como o Yunza e o Dia da Independência da Bolívia. Preferimos, quando possível, trabalhar nos bastidores desses eventos. Talvez seja essa a nossa contribuição: contatamos os seus agentes culturais para mapear e filmar os grupos e indivíduos que participam.

Quais as maiores dificuldades que a equipe vem encontrando atualmente para tocar o projeto? E quais são os desafios já identificados pelo time?

Já encontramos algumas dificuldades nesse tempo curtinho que temos de projeto, mas nada que a persistência e a militância não resolva. O mais difícil acho que é o mapeamento de produtores culturais imigrantes (que têm meios de comunicação e locais de encontro por vezes difíceis de rastrear). Não existe nenhum “catálogo das artes imigrantes” e por vezes não existe sequer intenção ou prática de divulgação de uma dada expressão artística. Então para encontrarmos imigrantes que produzem arte na cidade temos que fazer aquele trabalho de boca a boca, de ir à Kantuta ou no Bom Retiro fazer perguntas, de procurar anúncios de eventos em grupos fechados de Facebook, de encontrar multiplicadores do nosso trabalho em cada comunidade, de perguntar aos amigos dos amigos… É um trabalho de formiguinha, justamente porque tentamos trabalhar com as comunidades culturalmente mais invisíveis na cidade. Com aquelas que estão só agora criando uma história em São Paulo. E aliás, aproveito a entrevista para pedir a todos os leitores que caso conheçam grupos e indivíduos imigrantes que produzam a sua arte na cidade e queiram ser filmados por nós, teremos todo o gosto em ser contatados.

Depois do lançamento, que outras atividades estão previstas para as próximas semanas ou meses?

Filmar, editar, publicar e divulgar o máximo de registros possíveis. Por enquanto queremos que o acervo cresça. É um acervo vivo, e por isso em permanente construção. É também um acervo participativo, assim quem quiser mandar registros editados pode enviar para nós que nós fazemos uma avaliação básica do material e publicamos. A partir de Maio, iniciaremos a segunda fase do projeto. Iremos estar em algumas praças WIFI do centro de São Paulo a projetar o acervo durante 4 meses. Será uma fase de divulgação mais intensa do projeto, em que poderemos articular as redes e as ruas para divulgar o mosaico de representações artísticas do imigrante que queremos construir com o Visto Permanente.

Na opinião da equipe, qual o grande legado que a iniciativa deixa para São Paulo e para a sociedade paulistana?

Bom, não estamos inventando a pólvora. Queremos contribuir para a valorização e conhecimento do imigrante em São Paulo. Não pensamos que as diferenças de origem devam construir desigualdades políticas. Queremos o voto e poder dos trabalhadores emigrados. Não queremos mais bolivianos mortos por irregularidades impostas, não queremos mais angolanos agredidos por uma polícia xenófoba (em comentário a dois casos recentes), não queremos mais “trabalho análogo à escravatura” e não somos burros nem vagabundos. Achamos que vivemos num momento particular da história em que a tensão entre Estado-nação e Aldeia Global coloca obstáculos a/entre todos os trabalhadores do mundo. Vivemos um mundo em que a nossa comida é árabe, a nossa roupa é chinesa e os nossos eletrodomésticos são norte-americanos, mas só o nosso vizinho é que é estrangeiro. Uma das respostas que encontramos contra essa visão do mundo está sendo este acervo audiovisual, este trabalho de visibilidade e de tentativa de construção de uma globalidade mais popular e menos ocidentalista. Se isso é um legado ou não só o tempo e o empenho dirão… mais tarde.

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