Um voo pelos céus da poesia com Manoel de Barros** (Crônica da manhã)

05/05/2015 at 10:40 (*Liberdade e Diversidade)

maria-da-gloria-sa-rosa-esta1Maria da Glória Sá Rosa*

05/5/2015

Ao contemplar na TV a figura do poeta Manoel de Barros, lembrei-me de um encontro que tivemos há 23 anos, numa viagem pelos céus desse Brasil cada vez mais carente de artistas do sonho e da arte de sobreviver à perda das ilusões.

Numa manhã de domingo de 1988, preparava-me para regressar a Campo Grande, MS, quando avistei de longe o poeta retirando a mala na entrada do Galeão.

manoel e eu

Aos 74 anos, cabelos prateados, mais longos, soltos ao vento, terninho cinza quadriculado, o poeta respirava o prazer das alegrias com a família, livros, música, filmes, como alguém que não perdeu o olhar curioso de eterna criança.

Registro aqui algumas de suas observações. “Não gosto dos que tentam explicar demais minha poesia. O trabalho com a palavra constitui o universo de minhas invenções. Desprezo os apressados, ansiosos de publicar com a sofreguidão de um desempenho a ser mostrado. Concordo com os que afirmam que retirei minha poesia das Um voo pelos céus da poesia com Manoel de Barros alturas para impregná-la das coisas do chão, do caramujo, do lixo do entulho.”

manoel 2“Alegra-me o interesse dos estudantes pelo que publico, principalmente nas universidades. Há pouco tempo, uma professora comentou que minha poesia causava nela o choque de um fenemê freando.”

A conversa girou depois em torno dos filmes a que assistira nos dois meses que ficara no Rio de Janeiro. Viu todo um ciclo de Truffaut e outro de Fassbinder, diretores que admira.

Confessou-me ter chorado assistindo ao filme “Au Revoir les Enfants”, de Louis Malle, pelas lembranças que lhe vieram dos tempos de internato. Gostou das peças “Quatro Beckett”, dirigida por Gerald Thomas, e de ”Noel”, por Domingos de Oliveira.

Concorda comigo que não se deve transpor a linguagem do cinema ou da pintura para análises poéticas, acrescentando: “Cada arte deve ser vista através do signo com que foi construída”.

“Ser poeta é uma maldição que precisa ser cumprida a cada renovar-se do minuto. Por isso, sou admirador de Augusto dos Anjos, cuja poesia quebrou todos os tabus semânticos e linguísticos.”

Essa conversa foi entremeada de risos e muitas doses de humor. Cada palavra vinha impregnada da ironia sutil que nos atinge como a doçura agridoce do morango e ficou ressoando nas cordas da memória, depois de atravessar as paredes do tempo. O poeta, excelente “causeur”, extraiu de cada pequeno acontecimento o encantamento a quem teve, como eu, a dádiva de partilhar de suas preferências intelectuais e artísticas. Como esquecer momentos assim?

*Escritora e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras

**Crônica publicada hoje (5) no jornal Correio do Estado. A charge é do Éder.

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