Viajar é preciso** (Leitura vespertina)

28/04/2015 at 15:31 (*Liberdade e Diversidade)

MARIA ADELIAMaria Adélia Menegazzo*

Viver também é preciso. É nesta relação que penso as tantas viagens que já fiz, algumas por prazer, outras a trabalho. Nelas, já passei por situações inusitadas, trágicas até, como presenciar a morte de uma criança dentro de um ônibus, no caminho para Goiânia, quando ainda fazia mestrado e enfrentava 21 horas de viagem até lá.

Em outra ocasião, fiquei por mais de uma hora dentro de um avião no aeroporto de Veneza, em virtude de uma suspeita de bomba. Também já experimentei o surrealismo de estar em um barco à deriva no Mediterrâneo, numa viagem à Turquia.

viajar é preciso

Traficantes sendo retirados de dentro de ônibus, já nem me surpreende mais. Crianças enjoando e vomitando iogurte de morango é coisa normal. Muitas vezes, desci em Marília porque dormia e passava direto por Assis, SP, onde fazia doutorado. Cara de paisagem amanhecida e tocava pegar outro ônibus de volta para Assis.

Já deu pra perceber que as viagens de ônibus, por conta da profissão, são o meu terror? Como diz um escritor mineiro, “ônibus nunca é bem uma lembrança, mas uma pontada na memória”, e de tanto cutucar, acaba sendo engraçado.

Ultimamente, tenho feito viagens quinzenais para Três Lagoas, MS. São trezentos e vinte quilômetros em cinco horas de duração, no mínimo. Há quinze dias, saí de Campo Grande às seis da tarde e cheguei lá às três da manhã. Um caminhão carregado de toras de eucalipto tombou no meio da estrada. Como conciliar a falta de sono consequente com um dia inteiro de aulas num curso de doutorado?

É aí que entra a necessidade de viver. Ou seria de sobreviver? O que me consola é saber que há coisas piores, como o ônibus ser assaltado, sequestrado, abduzido ou incendiado. Estes, nos quais eu viajo, “grazie a Dio”, só quebram, têm mau cheiro de banheiro, de pés suados, de matula de frango com farofa e chipa azeda. Agora, têm também a luz irritante de computadores e celulares, pra não falar do assobio de Whatsapp e das ligações atendidas em público.

Fico sempre me perguntando se não daria para pedir que liguem mais tarde e, também, por que todo mundo acha que precisa falar alto quando está ao celular… Ah, ia me esquecendo do ar-condicionado: não há acordo entre a temperatura ambiente e a paciência do motorista para regular as variações durante a viagem. Começa a fazer muito frio, alguém bate à porta para pedir ao condutor que suba a temperatura e, claro, dá menos trabalho desligar o dito. É o que normalmente acontece. Dali a pouco, alguém vai reclamar que está muito calor. E, assim, la nave va! Haja saúde!

Claro que muito do que acontece faz parte da vida em sociedade, mas, às vezes, também falta de um pouco de competência.

Na última viagem, atrasamos meia hora na saída de Três Lagoas, porque os fiscais não conseguiam calcular o número de passageiros que embarcaram e aqueles que ali haviam descido. Subia um fiscal e contava os passageiros. Descia. Em seguida, subia o motorista, contava os mesmos passageiros e descia. Disponibilizei meu bilhete três vezes para ser conferido. Segundo as alunas que me acompanhavam, eu devia ter cara suspeita. E ainda perguntei: de quê? De não saber ler? Ou de já ter passado da idade? Só rindo. E foi o que fizemos. E é o que vamos continuar fazendo. Afinal, viver também é preciso!

*Professora da UFMS, membro da Academia Sul-Mato-grossense de Letras

**Crônica publicada hoje (28)no jornal Correio do Estado

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