Sartre: Dinâmicas da corrupção** (Leitura de fim de noite)

25/04/2015 at 22:40 (*Liberdade e Diversidade) ()

Sartre

zanattaJacir Alfonso Zanatta*

Racismo, desigualdade social, corrupção e poder fazem parte da trama montada por Jean-Paul Sartre no livro “A Prostituta Respeitosa”. Uma peça de teatro estreada em Paris no dia 8 de novembro de 1946 e no Brasil em 5 de dezembro de 1948. Este pequeno livro com 83 páginas mostra a face polêmica e carismática de um dos maiores intelectuais do século 20. Existencialista e ateu, Sartre se envolvia com as questões política de seu tempo, mostrando que é possível ser intelectual sem perder o engajamento social.

Um livro atual que revela todas as artimanhas utilizadas pelos donos do poder para corromper e para fazer com que as pessoas menos instruídas não percebam que estão sendo enganadas. Um opúsculo que mostra que em tempos de calamidades, a humanidade encontra um sombrio consolo no desespero, na náusea e na negação de toda esperança. Uma obra que escancara todos os mecanismos de defesa criados pela elite para manter a população sobre seu domínio.

Por perceber todas estas manipulações, Sartre acabou por se dedicar ao estudo do indivíduo como um ser inserido na sociedade e imerso na práxis, onde sua liberdade é marcada pela necessidade que se desenvolve historicamente. É importante ressaltar que o problema da liberdade é a questão fundamental de toda obra de Sartre e serve como pano de fundo na peça de teatro “A Prostituta Respeitosa”.

Uma questão relevante neste opúsculo é a questão moral que perpassa as relações entre os personagens.

Para Sartre, a moral é uma totalidade concreta que realiza a síntese do bem e do mal. Por isso, o homem é liberdade na concepção existencialista. Um livro e um autor que defendem a liberdade contra a opressão, a injustiça e as manipulações. Entender a liberdade é reinventar-se constantemente e não seguir sempre os mesmos caminhos. Em seu livro “O Existencialismo é um Humanismo”, Sartre defende que “o homem não é senão o seu projeto, só existe na medida em que se realiza, não é, portanto, nada mais do que o conjunto dos atos, nada mais do que a sua vida”.

Mas é possível dizer que o eixo-base de reflexão levantado por Sartre neste opúsculo são as relações de poder, concebido aqui como uma forma repressiva. O livro mostra que se os mecanismos da dominação fossem exercidos unicamente em sua forma violenta, pela opressão sobre os cidadãos, os movimentos de libertação alcançariam êxito muito mais facilmente. A dificuldade maior é que o poder moderno desenvolve mecanismos de dominação muito sutis por meio da mídia.

Mas é importante ressaltar que os mecanismos de manipulação das elites sobre os mais pobres exposto neste livro não colocam o poder como um objeto que se possa alcançar. Aqui, o poder está em toda parte, não porque englobe tudo e, sim, porque provém de todos os lugares. Assim, percebe-se que o poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas, os indivíduos não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer esse poder e de sofrer sua ação, nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão.

Críticas à estrutura de sociedade opressora são mote da obra

Sartre-livroNeste livro, Sartre mostra que as críticas à racionalidade moderna e às estruturas da sociedade burguesa continuam mais atuais do que nunca. Ele faz questão de lembrar que o homem é também produto da história, criado no processo da vida social.

Assim, percebe-se que a capacidade de interação, de socialização e a maneira como os sujeitos vão agir durante suas vidas, estão diretamente ligados ao fato de os mesmos serem capazes de julgar e responder por suas ações no mundo da vida. Com isso, observa-se que o homem moderno se surpreende com o fato de seus valores não darem nenhuma finalidade ou sentido à sua vida.

Jean-Paul Sartre nasceu em Paris em 1905 e veio a falecer nessa mesma cidade, em 1980. Com dez anos já tinha certeza de que queria escrever, redigindo suas primeiras linhas. Em “A Prostituta Respeitosa”, ele conseguiu fazer uma profunda análise dos absurdos que configuram os sistemas sociais em que vivemos.

Sem dúvida nenhuma, este opúsculo consegue trazer à tona o drama fundamental do século 19: a alienação progressiva da condição humana na sociedade capitalista, que por meio da mídia, condiciona comportamentos e deforma sentimentalismo.

SARTRE, J.P. A prostituta respeitosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.

*Filósofo e Professor da UCDB – Campo Grande,MS.

**Crônica publicada hoje (25) no jornal “O Estado MS”.

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2 Comentários

  1. Baruch Amanuensis said,

    Republicou isso em coração filosofante.

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