Exigências de ex-escravos após a libertação (Leitura da noite)

23/04/2015 at 22:12 (*Liberdade e Diversidade) ()

Abolicao-da-Escravidao(LAÇOS DE FAMÍLIA E DIREITOS NO FINAL ESCRAVIDÃO)

imagesCarlos Frederico Corrêa da Costa*

E-mail cfccosta@terra.com.br

 

 

Na Fazenda da Conceição, em Cantagalo, Rio de Janeiro, o coronel Augusto de Sousa Araújo libertou seus escravos dias antes do Treze de Maio. Nas festas que então se realizaram houve até mesmo coroação do antigo senhor pelos libertos e enterro da palmatória e do vergalho (pênis de boi ou cavalo, depois de cortado e seco, transformado em açoite).

No dia seguinte, entretanto, os libertos comunicaram a seu senhor que impunham como condição para permanecer na fazenda que se expulsasse dali o administrador.  Pouco disposto a concordar com a condição imposta, o coronel viu em poucos dias sua fazenda abandonada pelos ex-cativos.

Decidir ficar, obviamente, não significava concordar em manter as mesmas condições de trabalho do regime anterior. Enterrar a palmatória e o vergalho podia fazer pouco sentido para os libertos, se o homem que as usava continuasse a dar as ordens.

Casos como este, em que os antigos escravos tentavam negociar as condições para sua permanência na fazenda, não parecem ter sido incomuns. Reuni referências e alguns casos, nos quais grupos de libertos recorreram aos párocos locais e mesmo a agentes policiais para apresentar suas condições de permanência aos antigos senhores.

Negociar coletivamente com libertos parece, no entanto, ter sido uma situação para a qual os ex-senhores se mostravam despreparados.

Um fazendeiro de Cantagalo relata que oferecera seus ex-escravos 10$000 (dez mil réis) por dia para os homens, 8$000 (oito mil réis) para as mulheres, dois dias por semana para trabalharem suas roças, duas roupas grossas para o trabalho, médico, botica e alimentação, eles, entretanto, teriam recusado a proposta, pedindo cada um sua própria lavoura de café.

Sem alternativas, os fazendeiros lhes teriam dado terra em parceria e uma caderneta com um regulamento impresso para as suas contas. Os libertos, contudo, teriam procurado conselheiros alfabetizados e esclarecidos sobre os termos do regulamento, o teriam também recusado.

Em agosto de 1888, os e –cativos dessa e fazendeiro continuavam ainda nas terras dele, sem que tivessem chegado a um acordo sobre as novas condições de trabalho a ser adotadas.

Sem leis sobre as novas condições de trabalho, os ex-senhores e mesmo antigos abolicionistas sentiam-se “à mercê dos libertos”, que transformavam as fazendas em congadas permanentes.

Uma poesia satírica publicada no jornal O Monitor Campista, ainda em 1888, dá bem a medida da situação:

Fui ver pretos na cidade

Que quisessem se alugar.

Falei com esta humildade:

– Negros, querem trabalhar?

Olharam-me de soslaio, 

E um deles, feio, cambaio,      

Respondeu-me arfando o  peito:

– Negro, não há mais, não! 

Nós tudo hoje é cidadão

O branco que se vá pro eito […]                     

Referência Bibliográfica

COSTA, Carlos Frederico Corrêa da (pela transcrição e adaptação) de: CASTRO, Hebe M. Mattos de. Laços de família e direitos no final da escravidão In: NOVAIS, Fernando A. (org.), História da vida privada no Brasil 2. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p.369-372.

*Carlos Frederico Corrêa da Costa é doutor em História Social pela USP-SP, historiador de empresas, famílias e biografias. *Professor aposentado da Graduação, Pós-Graduação e Pesquisador do Departamento de História, campus de Aquidauana/UFMS.

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