Desassossego** (Leitura de fim de noite)

21/04/2015 at 22:07 (*Liberdade e Diversidade)

tereza-hilcar-estaTheresa Hilcar*

21/04/2015

Acordou mais cedo que de costume. Abriu os olhos e, sob a janela, viu o azul estonteante no céu que quase feriu suas retinas. Achou aquilo triste, muito triste. E surtou. Começou a pensar na inutilidade do seu dia, nas coisas comezinhas e insignificantes que tinha pela frente, nas tarefas sem propósito que precisava cumprir e sentiu uma dor forte no peito.

tereza hilcar

Achou a vida sem graça demais para tanto alarde. Lembrou-se logo das redes sociais com suas mensagens de enlevo (sic!) que começam a pipocar logo cedo. Corações que acendem músicas de gosto duvidoso, frases mal feitas, textos sem nexo, imagens chocantes, clichês a perder de vista.

Sentiu tanta saudade das coisas analógicas que deu até vontade de chorar. Mas até chorar andava difícil ultimamente. “Ao respirar mais fundo, percebeu que a dor continuava lá”. À medida que respirava, ela ia se espalhando pelo corpo, pela cama, pelo quarto inteiro. Tinha que se conformar: ela não iria embora tão facilmente. Acredita que são efeitos colaterais de uma suposta sanidade.

Parafraseando Nelson Rodrigues: é isto ou a danação total. Vontade, vontade mesmo, era de ficar no escuro o dia todo com a cara enfiada no travesseiro. Mas dizem que dá rugas. E já chega as que possui. Ontem mesmo viu o quanto se ressente desta presença indelével, marcante, dolorosa. Quando o flash veio na sua direção, ela até tentou escapar, mas não conseguiu. Tudo por uma boa causa. Mas quer saber, estava cansada de boas e más intenções.

Queria viver num mundo onde pudesse apenas existir. Sem delongas nem meias palavras. Apenas com a presença e a luz natural. E de preferência no silêncio das palavras.

Ao respirar mais fundo, percebeu que a dor continuava lá. À medida que respirava, ela ia se espalhando pelo corpo, pela cama, pelo quarto inteiro. Tinha que se conformar: ela não iria embora tão facilmente. E pensar que ainda ontem se imaginou livre.

Quase comemorou a ausência de desejos obscuros, da culpa, do medo. No entanto, nunca duvidou que ela pudesse se esgueirar por alguma fresta. Uma pequena e quase invisível fresta. Que podia estar na pressa, na vontade de dar certo, no esforço de fazer tudo certo, de falar a coisa certa. Vai ver seu erro estava justamente ali.

Naquela pulsão de pequenos e indesejáveis compromissos com a certeza. Como se errar fosse um pecado mortal. Tentou mexer um pouco os quadris, mas o incômodo das costas era doloroso ao extremo. Em seguida, vieram as câimbras. Odiou a velhice que fica rondando seu corpo todos os dias.

Sentiu-se um automóvel com faróis na traseira. Sem nenhuma utilidade. Mas não raro acaba se esquecendo do que é útil. Às vezes esquece até o prato no sofá, o relógio na pia, a bolsa no armário, o nome do filho, do filme. E nesta hora se lembra que tem um drama pela metade no computador. Levanta-se de mau jeito e põe a culpa no gato que não sai do seu pé. Pensou em voz alta: me desculpem os crédulos, mas a vida é besta demais. E foi coar o café.

*Jornalista e Escritora – Membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras

**Crônica publicada hoje (21) no jornal Correio do Estado.

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