O profissional e o amador** (Crônica do dia)

20/04/2015 at 16:13 (*Liberdade e Diversidade)

horto 1maria adéliaMaria Adélia Menegazzo*

18/04/2015

Quando o Marco – Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul estava para ser inaugurado, fiz parte de uma comissão para avaliar as condições do edifício. Achávamos, à época, que seria importante para as futuras exposições que as salas não tivessem qualquer tipo de interferência visual, como rodapés, interruptores de luz nas paredes e desenhos no chão, trabalhados com cerâmica sobre o piso de cimento queimado.

Naquela ocasião, tivemos reunião com o arquiteto, autor do projeto, Emmanuel de Oliveira, que nos mostrou a inviabilidade de modificação do projeto, uma vez que estava registrado com aquelas marcas. Quando o Marco passou a receber exposições, o artista plástico Humberto Espíndola, então diretor artístico do museu, e sua equipe, muitas vezes, tiveram que alterar as expografias para não “mexer” com o projeto original.

Por sorte, o Marco foi concebido dentro da tradição modernista do “cubo branco”, o que tem permitido toda sorte de mostras. O branco das paredes do Museu é parte de sua identidade e não pode ser alterado. A única exceção é a sala preta, com teto rebaixado, que tem se mostrado bastante efetiva quando o objeto da exposição exige uma iluminação mais direta. Respeitou-se, assim, o projeto original e sua autoria. A atual diretoria mantém o Marco como deve ser.

Recentemente, o Horto Florestal de Campo Grande passou por um surto de “higienização”, que por pouco não pôs por terra o projeto do arquiteto Elvio Garabini. Os tijolinhos à vista são a marca do projeto, concebido há vinte anos e entregue à população como “Parque Florestal Antônio de Albuquerque”, e agora foram pintados de branco porque pessoas que não sabem distinguir a coisa pública da coisa própria resolveram que os tijolinhos estavam sujos demais.

Não se dignaram a perguntar para profissionais o que poderia ser feito. Campo Grande merece mais cuidado profissional e menos amadorismo com o espaço público.

Temos aqui uma agência do Iphan, um Conselho Municipal de Cultura e um Conselho Estadual de Cultura, para ficarmos nos mais destacados órgãos ligados ao patrimônio histórico. No entanto, não são consultados e, às vezes, não são ouvidos; mas existem, e suas decisões têm que ser respeitadas, assim como a autoria dos projetos dos espaços públicos voltados para a cultura e o lazer.

Penso que já passou da hora de não termos que conviver com atitudes individualistas, como a colocação de monstruosas estátuas pelas praças da cidade, que aparecem do nada, sem nenhuma outra explicação senão o “gosto” da pessoa que dirige uma instituição e que acha que pode compartilhá-lo com a população, sem se preocupar em saber que tipo de contribuição, efetivamente, aquele objeto pode dar à cidade e a seus cidadãos.

Uma atenção maior ao significado de “arte pública” seria mais do que bem-vinda.

*Professora da UFMS – Escritora – Membro da Academia Sul-Mato-grossense de Letras.

**Crônica publicada no jornal Correio do Estado de 18/04/2015.

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