Manifestantes sem causa ou com muitas causas** (Leitura da manhã)

20/04/2015 at 11:10 (*Liberdade e Diversidade)

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Landes PereiraLandes Pereira*

20/04/2015

As manifestações populares do dia 12, apesar do descontentamento da população e da ampla divulgação pela mídia (principalmente na Rede Globo) e pelas redes sociais, não conseguiu igualar às de 15 de março. Não foi um fracasso, mas não conseguiu levar as massas para as ruas como o sonhado. O movimento sofreu um esvaziamento. Ao que parece, a falta de liderança e a ausência de uma “causa” bem definida, que empolgasse e motivasse, deixou o povo no conforto dos lares.

Em Mato Grosso do Sul, como no resto do país, o que se viu foi uma enorme diversificação de protestos e de reivindicações, sem uma unanimidade de objetivo. Os mesmos grupos da manifestação anterior, com reduzido número de participantes, e sem o entusiasmo anteriormente demonstrado, levaram muitas causas. Alguns tópicos podem ser ressaltados para efeito de comentário.

Em Campo Grande, a passeata (e carreata) iniciou com o locutor do “carro-chefe” rezando um Pai Nosso e pedindo uma salva de palmas para Jesus, em seguida puxou o hino nacional. Na frente, um grupo (pequeno) de motociclistas exibindo possantes máquinas, que eram aceleradas estrondosamente – não estava preocupado com o preço da gasolina. Alguns caminhões seguiam o cortejo com cartazes pedindo a redução do preço do diesel e a homologação da nova tabela do preço dos fretes, nada preocupados com o custo das mercadorias para o consumidor final.

Um enorme caminhão de som comandava o “Fora Dilma, Fora PT, Fora Lula, Fora MST”. Era o mesmo grupo que fez a campanha do PSDB em 2014 e que, de vez em quando, gritava: “foi aqui que tudo começou”. Eram os mais entusiasmados na avenida. Outro carro de som bradava contra a reforma política proposta pelos parlamentares, conclamando os católicos a não assinarem as listas de adesão que circulam nas paróquias da Capital.

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Entranhados entre as pessoas que caminhavam, pequenos grupos ou manifestantes individuais protestavam. Chamou a atenção um grupo vestindo camisetas amarelas, com a propaganda de uma ótica em verde, e outro fazendo propaganda de um curso de línguas. Cartazes pedindo a intervenção militar, mais verbas para o Hospital do Trauma, para a Santa Casa e para o SUS, mais verba para o Fies e para as universidades, o fim do nepotismo na TCE e na Assembleia Legislativa, autonomia para o Banco Central e para a Polícia Federal, veto para a lei de terceirização, melhores salários para os professores, mais creches, reforma tributária e outras coisas mais.

Os maçons paramentados, em reduzidíssimo número –considerando o evento anterior–, traziam cartazes contra a corrupção. Pareciam deslocados, perdidos em meio do burburinho, constrangidos. Faixas de “Tradição, Família, Propriedade” e brados contra a reforma agrária também estavam presentes. Não houve protesto contra o aumento da inflação, contra o arrocho salarial, contra o aumento do desemprego, dos impostos e da energia elétrica, contra a concentração da renda.

O interessante é que os parlamentares (senadores, deputados federais, deputados estaduais e vereadores), incluindo Eduardo Cunha e Renan Calheiros, foram poupados de qualquer crítica. Prefeitos, governadores e o Judiciário não foram lembrados. Dos partidos políticos, só o PT foi massacrado, em clara demonstração de que o povo está satisfeito com o sistema político-partidário.

E agora, o que virá? Luiz Fernando Viana comenta: “Se a crise se instalar com a força que se espera e os mais pobres saírem às ruas, é possível que a turma deste domingo corra para seus apartamentos. E chame a polícia”.

*Economista com mestrado e doutorado. É professor de Economia Política.

**Artigo publicado hoje (20) no jornal “O Estado MS”.

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