UMA HISTÓRIA DE CONFIANÇA DO SENHOR NO ESCRAVO (Leitura de fim de noite)

17/04/2015 at 21:56 (*Liberdade e Diversidade)

escravidão(LAÇOS DE FAMÍLIA E DIREITOS NO FINAL DA ESCRAVIDÃO)

 correaCarlos Frederico Corrêa da Costa*

17/04/2015

No final da escravidão era comum a rebelião de escravos, a exigência de um “bom cativeiro” e muitos senhores de escravos premidos pela falta de mão-de-obra escrava, elegiam alguns deles, principalmente os nascidos sobre seus domínios, como pessoas de sua confiança,

Nos processos-crimes analisados, bem como nas ações de liberdade, encontram-se inúmeros grupos familiares a meio caminho entre a escravidão e a liberdade, e bem administrada do ponto de vista senhorial, essa situação podia engendrar “cativos de confiança” e “dependentes leais”.

Filhos, irmãos e netos no cativeiro prendiam os dependentes forros a seus ex-senhores muito mais que possíveis sentimentos de gratidão e lealdade, porém, a partir de meados do século XIX, mesmo a relação dos senhores com as “crias da casa” tornava-se perigosa.

Um exemplo é o caso de Pedrinho, filho de Pedro e Marcelina, que era casado, carapina (carpinteiro), arreador e de serviço de roça, nascido e criado na Fazenda Sertãozinho, na freguesia mineira de Lambari.

Cativo de confiança dispunha de uma liberdade de movimentação extremamente ampliada pelo ofício de arreador e pela constante condução de tropas e correspondência entre a fazenda e a casa da família senhorial, na cidade de Campanha-MG.

Habitava com sua mulher Custódia numa casa em separado, onde, além de roça própria, possuía um cavalo. Era irmão de Manuel, forro, que vivia no bairro rural de Várzea Grande, não muito longe das terras do Sertãozinho, com casa, roça e a família.

fim da escravidãoPedrinho era amásio de Candinha, moça livre, de dezesseis anos, afilhada de Bernardo, homem livre e amásio de uma afilhada livre do mesmo Pedrinho. Três de seus irmãos eram ainda cativos como ele: Marciana, escrava da matriarca da família: Manuel, como o próprio Pedrinho cativo de Francisco Gomes; e José ex-escravo do mesmo senhor, que fora vendido por este, segundo as palavras de Pedrinho, “a quem não queria servir”, e que por isso andava fugido.

O fazendeiro Francisco Gomes sentia-se senhor da situação, por isso considerara como roubo a venda que Pedrinho fizera de um cavalo sem a sua autorização, que, de fato, sempre havia estado sob o usufruto do escravo e de sua esposa.

Francisco Gomes repreendera Pedrinho duramente pela venda e anunciara que ira buscar o cavalo na casa de Manuel, irmão do acusado e caso o cavalo não fosse devolvido, entregaria o caso à polícia.

O fazendeiro desaparece e todos da fazenda, familiares, amigos e cativos empenham-se em procurá-lo até que seu cavalo aparece na casa de Custódia e Pedrinho, e todos concluem que Francisco Gomes fora assassinado e Pedrinho era o principal suspeito. Pedrinho defende-se, sugerindo que seu irmão José, que já fugira por se negar aceitar a sua venda, fora o provável assassino.

Pedrinho era “cria da casa”, “gente da família”, jamais faria uma coisa dessas, entretanto, nas últimas décadas da escravidão houve uma perda da legitimidade do cativeiro e os senhores de escravos viviam sob o temor de um atentado ou um levante.

As evidências indicam que Pedrinho fora mesmo o autor do assassinato do seu senhor: Candinha, sua amásia, mencionou que a sua camisa tinha manchas de sangue; Marciana enquanto lavava a camisa ensanguentada do seu irmão Pedrinho, tinha por testemunha sua senhora, a mãe da vítima, e esta identificando como sangue o líquido vermelho que saía da camisa, chorou convulsivamente, enquanto afirmava: “Foi Pedrinho quem matou o meu filho”.

Referência Bibliográfica

COSTA, Carlos Frederico Corrêa da (pela transcrição e adaptação) de: CASTRO, Hebe M. Mattos de. Laços de família e direitos no final da escravidão In: NOVAIS, Fernando A. (org.), História da vida privada no Brasil 2. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 364-367.

*Carlos Frederico Corrêa da Costa é doutor em História Social pela USP-SP, historiador de empresas, famílias e biografias.

** Professor aposentado da Graduação, Pós-Graduação e Pesquisador do Departamento de História, campus de Aquidauana/UFMS. E-mail: cfccosta@terra.com.br

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