Loucura, fermento da arte (Leitura de almoço)

14/04/2015 at 13:17 (*Liberdade e Diversidade)

birdman

maria da gloria

 

 

 

 

Maria da Glória Sá Rosa*

“A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade”

Pablo Picasso

Abro o jornal e meu coração quase rebenta de pura alegria. Reunidos em fantástico show, Geraldo Espíndola e Marcelo Loureiro eternizam sexta-feira, no Teatro Aracy Balabanian, em dueto de vozes e violões, o frágil e transitório momento em que a beleza ficará para sempre, nas mentes e nos corações dos ouvintes, a embalar sonhos e confiança no futuro. Dois guerreiros para os quais a música é signo de talento e coragem, vontade de transformar o mundo na magia de notas, as quais falam da vida de uma região, que os inspira a cada momento.

Nada os detêm em seu destino de trabalhadores da verdadeira arte, aquela que eleva, inspira e justifica a presença “Pensei no filme ao falar sobre Geraldo, que sobreviveu à pobreza, à morte de familiares, à desatenção das autoridades para o papel de sua obra ao Estado de MS” Maria da Glória Sá Rosa na vida. Desde muito criança, enfrentam combates de todo tipo, fazem das dificuldades motivo de novas conquistas. “Nunca me irei aposentar”, afirmou-me Geraldo, com um brilho de certeza renovada no olhar.

E, com essas palavras de lutador inveterado, ele se metamorfoseou diante de mim no homem pássaro (Birdman), do filme do mesmo nome, vencedor no Oscar de 2015, personagem para o qual não existem obstáculos na profissão de ator. Além do desejo de ser amado e admirado, o que o faz enfrentar toda sorte de problemas, tanto de ordem familiar como da parte da crítica do New York Times, dos companheiros de cena, é a voz do pássaro, que interpretou e que o censura por ter abandonado uma carreira de sucesso.

A mensagem do filme transmite-nos na própria pele as terríveis lutas com a família, o publico, os empresários, que o levam a duvidar do próprio talento e a tentar destruir-se. O voo, na minha opinião, é a metáfora do que alcançou como ator e do respeito que conquistou junto ao público.

Esse belo filme, dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu, é o espelho das lutas da carreira de um artista, com seus altos e baixos, que nos fascina pelo brilho das lantejoulas que carrega, fazendo-nos crer que foi fácil alcançar o sucesso, a admiração do público. Fernando Pessoa já dizia: “Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?”. O verso pode estender-se com todas as conotações aos artistas. A loucura faz parte intrínseca de sua estrutura interior.

Pensei no filme ao falar sobre Geraldo, que sobreviveu à pobreza, à morte de familiares, à desatenção das autoridades para o papel de sua obra ao Estado de MS. Acredito que o mesmo pode aplicar-se a Marcelo Loureiro, para quem o violão é instrumento de luta e realização pessoal, eletrizando a plateia com os movimentos, os volteios, que faz com o violão, enquanto as mãos deslizam nas cordas. Geraldo Espíndola e Marcelo Loureiro não desejam apenas se sentir amados e respeitados. Querem continuar sendo ouvidos, recriando sons e fantasias, num mundo esvaziado de beleza, luz, compreensão. Que bom que existem estes loucos no palco de nossa existência para ensinar-nos a sentir que vale a pena estar vivo. E poder ouvi-los, fruir dos sons mágicos de seus violões.

*Escritora e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras

**Crônica publicada hoje (14) no jornal Correio do Estado

*****

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: