O regionalismo de José Lins do Rego (Leitura da tarde)

28/03/2015 at 17:55 (*Liberdade e Diversidade)

frases-josé-lins-do-rego

hermano-de-melo-esta3Hermano Melo*

É relativamente fácil falar sobre a obra de José Lins do Rego, mesmo para quem não seja experto no assunto ou tenha sido contemporâneo dele. Enquanto ele nasceu no início do século passado – em junho de 1901, mais precisamente – só vim ao mundo em março de 1948.

Não que a minha obra como escritor sequer se aproxime da dele, que possui pelo menos 13 livros publicados, sendo 10 deles romances conhecidos de grande parte da população brasileira, além de artigos, texto avulsos, crônicas, etc. E até mesmo uma obra considerada obra-prima – “Fogo Morto”.

engenho corredor,PB

Engenho Corredor – PB

Não que tenhamos sido criados como ele em algum engenho de cana-de-açúcar do Nordeste brasileiro e, dessa forma, conheçamos as alegrias e agruras de viver ali e conhecer personagens magníficos que só ele seria capaz de criar, como o Carlinhos, de Menino de Engenho ou o Vitorino Papa Rabo de Fogo Morto.

Mas é que além de jornalista como ele, fomos pelo menos seu vizinho de nascimento! Enquanto ele nasceu no engenho Corredor, em Pilar, no interior da Paraíba, fizemos o mesmo na cidade vizinha de Sapé, também no Estado do mesmo nome. E mais: assim como ele, durante grande parte de nossa meninice, fomos hóspedes de férias no sítio de nosso avô e pudemos então entender e praticar grande parte da linguagem utilizada por José Lins em seus livros.

Jose-Lins-Fotomontagem-Folha-Online

Dessa forma, personagens criadas por ele e  quase todo linguajar utilizado  em suas obras – especialmente aquelas do chamado ciclo da cana-de-açúcar, em que se incluem Menino de Engenho (1932), Doidinho (1933), Banguê (1934), Usina (1936) e Fogo Morto (1943) – todas carregadas de intenso regionalismo e estilo coloquial de evidente oralidade são ainda hoje muito familiares aos meus ouvidos.

Fica evidente, por exemplo, que Carlinhos – o menino de engenho de José Lins do Rego – representa na verdade todos os meninos que foram criados nos engenhos de cana do Nordeste brasileiro àquela época ou em sítios imensos existentes ali sob a tutela dos avós paternos ou maternos.

Lembro-me perfeitamente das feiras de sábado em Sapé, Paraíba, quando se formavam filas imensas de crianças acompanhadas dos pais que iam à Casa Grande de meu avô paterno para receber doses homeopáticas “milagrosas” para curar inúmeras doenças que elas apresentavam. Era um momento ímpar acompanhar aquela verdadeira cerimônia de cura, embora se saiba hoje das limitações do tratamento homeopático.

Mas os romances de José Lins do Rego são também o retrato vivo da solidão e da pobreza em viviam aquelas comunidade brasileiras do Nordeste brasileiro, quando sob comando de alguns coronéis donos de engenhos de cana. Assim, a figura do coronel Lula de Holanda e o tilintar de seu cabriolé ao passar em frente à casa do selador José Amaro, representa muito bem o abismo existente entre as classes dominante e dominada àquela época.

O mesmo pode ser dito dos casos de aparente loucura das personagens de José Lins, dos surtos de bexiga à época, dos casos de asma, da cegueira de Torquato, dos casos de demências em vários de seus personagens, são decerto fruto principalmente da extrema pobreza em que viviam muitas daquelas comunidades brasileiras nos confins do Nordeste.

menino de engenhoPor outro lado, deve-se registrar o lado alegre das personagens de Menino de Engenho e Fogo Morto, no que se refere, por exemplo, a abundância de frutos tropicais que eram pegos pela molecada nos próprios pés de manga, pitomba, cajá, etc., após as chuvas, assim como também dos banhos de açude, mesmo correndo o risco de contrair doenças como a esquistossomose. Deve-se lembrar ainda das cenas de sexo da criançada em vários de seus livros, descritas de forma inocente e ao mesmo tempo jocosa.

Como disse o escritor e crítico literário Fábio Lucas no prefácio de seu livro de memórias “Meus Verdes Anos” (1956): “O ciclo de romances nordestinos de José Lins do rego, traz como principal aspecto, a proximidade da palavra escrita à expressão oral. Menino de Engenho foi um lançamento afortunado, que sequer a revolução literária paulista conseguiu conter”.

Em um de seus escritos, “Homens, seres e coisas” (1952), José Lins registra a resposta que deu ao lhe perguntarem: “Um escritor pode criar personagens que não sejam tiradas de si mesmo?”. E ele respondeu: “Isso é o mesmo que perguntar a uma mãe: Poderá a senhora parir o seu filho sem que este filho venha de suas entranhas?”.

Isto significa, portanto, que as personagens dos livros de José Lins do Rego – quaisquer que sejam elas – representam na sua essência facetas de sua própria personalidade e colocadas sob algum tipo de disfarce, quer ele as tenha vivido na realidade ou não. Uma pena que ele se foi tão cedo, morreu com apenas 57 anos de idade, em 12 de setembro de 1957.

*Ex-professor, escritor, jornalista e membro da Academia de Letras de Mato Grosso do Sul.

**Palestra proferida em 26 de março de 2015 durante o Chá Acadêmico na Associação Campo-grandense de Professores (ACP) em Campo Grande, MS.

***Para complementar o texto acima, foi feita uma apresentação de slides sobre a vida e obra de José Lins do Rego.

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2 Comentários

  1. Flaviano Melo said,

    Valeu meu irmão, excelente este seu artigo sobre o nosso conterrâneo Zé Lins do Rego. Não conto das vezes que li os mesmos livros desse autor, especialmente Fogo Morto e Menino de Engenho. Personagens, locais, palavreados. É incrível como me transporto a cada releitura. Revivo-os incansavelmente, são lembranças que teimam em recrudescer aos adeuses implacáveis do tempo.

    Seu irmão, Flaviano

    • Jornalismo 2011 UFMS said,

      Valeu,Fravo, meu irmão.Há quanto tempo não via e ouvia suas sábias palavras. Grande abraço a todos os meus outros 12 irmãos,ok? Abração, Hermano. Se você puder achar por aí leia “Meus verdes anos” – Memórias (1956), na qual Zé Lins conta sua verdadeira história de menino de engenho. Um primor!

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