A importância da bíblia nas colônias alemãs (Leitura do almoço)

27/03/2015 at 12:32 (*Liberdade e Diversidade)

 

biblias nas colonias alemãsBíblia alemã

carlos fredericoCarlos Frederico Corrêa da Costa*

Entre os documentos das famílias teuto-brasileiras (brasileiros de origem alemã) encontraram-se velhas Bíblias nas quais se anotavam as datas dos eventos mais importantes – casamentos, batismo, óbitos – dos seus membros. Os livros de canto distribuídos à comunidade, que eram levados aos encontros dominicais, também registravam em suas páginas a memória familiar.

O principal livro de leitura da escola era a Bíblia, tanto em versão portuguesa quanto em versão alemã, ambas publicadas em Nova York. Em São Pedro de Alcântara, no Rio Grande do Sul, o pastor Voges também se preocupou com a distribuição de Bíblias à população católica luso-brasileira: “Sobretudo peço remeter-me duzentos Novos Testamentos em língua portuguesa […]. Entre os sacerdotes do Brasil raras vezes pode ser encontrado um Novo Testamento e muito menos uma Bíblia inteira”.

Todas essas práticas religiosas nas colônias alemãs levaram o protestantismo a ser fator de preservação da cultura germânica no exterior. Isso ocorreu primeiramente de forma espontânea e depois deliberada, quando o protestantismo se transformou na religião oficial do Império Alemão.

Desde então, pastores comissionados pelas autoridades eclesiásticas alemãs passaram a ser enviados ao exterior, o que retardou a formação de um clero protestante brasileiro ou teuto-brasileiro.

Dessa maneira, a língua e os costumes que os protestantes trouxeram consigo contribuíram para que eles fossem vistos como corpo estranho pela gente do lugar, tornando mais vigorosos seus laços culturais na privacidade.

As igrejas católicas das colônias alemãs objetivaram servir o meio cultural brasileiro, embora os padres viessem da Alemanha, o ensino em suas escolas e a catequese em suas igrejas fossem ministrados na língua alemã, e embora os sermões fossem pronunciados em alemão e os cânticos entoados nessa língua.

As posições divergentes tomadas pelas duas religiões aumentaram a desconfiança mútua entre os fiéis, a qual já existia desde a predominância protestante na Alemanha.

No Brasil, onde os católicos eram maioria, os protestantes é que assumiram atitude defensiva para com seus ideais de fé, apesar de o Império Brasileiro ter reconhecido oficialmente o protestantismo em 1870.

Entre os motivos de atrito pesava o despeito dos protestantes contra o número elevado de feriados católicos no Império, por exemplo, o costume de não trabalhar na primeira sexta-feira do mês, observado pelos católicos, que atrapalhava a continuidade do trabalho agrícola.

Na prática da vida religiosa, os protestantes também seguiam a norma segundo a qual “só tem religião quem a pratica”, assim, as mulheres e os homens – ao contrário do que acontecia entre os católicos – participavam ativamente dos cultos religiosos e do cotidiano eclesiástico.

A religião, a leitura da Bíblia sob qualquer pretexto pelos luteranos alemãs, não só reforçou os laços de religiosidade como também a manutenção da cultura trazida da Alemanha, pois as pequenas propriedades dos colonos alemãs representavam um universo em que se procurava repetir, copiar os usos e costumes da pátria distante, chegando mesmo a dá a impressão de que os líderes daquelas colônias tinham receio de abrasileirar-se, perdendo os vínculos que os unia a Alemanha, contudo, a língua pátria, o alemão e seus dialetos construíram uma redoma em torno daquelas colônias, e até a época atual existem colônias onde os alemães mais idosos não sabem falar português, contribuindo para manter os costumes dos séculos XVIII e XIX.

Referências Bibliográficas

COSTA, Carlos Frederico Corrêa da (pela transcrição e adaptação) de: ALENCASTRO, Luiz Felipe de; RENAUX, Maria Luiza. Caras e modos dos migrantes e imigrantes In: NOVAIS, Fernando A. (org.), História da vida privada no Brasil 2. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p.328-330.

*Carlos Frederico Corrêa da Costa é doutor em História Social pela USP-SP, historiador de empresas, famílias e biografias. Professor aposentado da Graduação, Pós-Graduação e Pesquisador do Departamento de História, campus de Aquidauana/UFMS.

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