Vento de outono (Crônica da manhã)

26/03/2015 at 12:15 (*Liberdade e Diversidade)

André Luiz AlvesAndré Luiz Alves*

26 de março de 2015

Lá fora, ameaça cair outro temporal, desses que duram poucos minutos, mas encharcam as ruas da cidade. Ouço os trovões e me aquieto, já dá para ouvir as primeiras gotas socando o telhado. Não gosto de chuva. “São as águas de março fechando o verão”, penso, sentindo alívio.

outono-andré

Não gosto do verão, muito calor e chuva; gosto menos ainda do inverno, que o frio me inquieta e corta meus lábios, que prosseguem feridos quando chega a primavera, e, por isso, nem percebo o perfume, nem as cores das flores da estação. Não gosto de não gostar, mas sentimento é coisa que não consigo esconder e acabo me transformando num rabugento.

Então, vou contar que gosto do outono do mesmo tanto que gosto de escrever, como se uma coisa fosse ligada à outra. O ato de escrever requer isolamento, sentir dor, saudades e uma boa dose de tristeza, tudo que combina com o outono, que vigora no silêncio, apenas cortado pelas rajadas do vento. Ah, o vento, esse velho e bom companheiro. Mas não é só o vento que me une ao outono.

Talvez seja culpa de uma jaqueta jeans que comprei quando completei 20  anos e adorava usar; quente para o verão e fina para o inverno, que ofuscava as cores da primavera, mas combinava perfeitamente com o frescor de outono. Ou talvez seja porque as folhas secas das árvores da rua caem mostrando algo incognoscível, que me remete ao fim, ao mesmo tempo em que me traz a certeza de que tudo se renova e uma vontade de voar junto do vento de outono me invade, sentimento que recuso, com medo de não conseguir encontrar terra firme ao voltar.

E quando foi que me declarei ao outono?  A pergunta partiu de uma querida professora, dona Zilda, no colégio Oswaldo Cruz, nos anos 80: “Qual estação do ano você mais gosta? Escrevam!”, ordenou nas palavras que escapavam de seus lábios repletos de batom, armada pelos olhos grandes que enfeitavam seu rosto rosado, enquanto ajeitava a peruca ruiva presa na cabeça por um lenço de cetim, que combinava com o longo vestido. Como é bom recordar de pessoas tão marcantes!

Ainda hoje, posso perceber a imagem da inesquecível mestra caminhando pela sala, recolhendo as primeiras folhas, balançando a cabeça negativamente diante das respostas óbvias: a maioria respondeu primavera – por causa das flores, disseram – enquanto eu, um tanto acanhado, tentava rabiscar minha resposta, a letra tosca que revelava minha predileção, fui o único que respondeu outono.

A mestra quis saber o motivo da minha escolha, e respondi colocando culpa no vento de outono, esse mesmo vento que há pouco percorreu cada centímetro da minha sala, trazendo o cheiro de antes, me estremunhando de volta à realidade; tanto tempo se passou e tudo ainda parece tão real, como se o vento desmentisse o poeta: outono não é o fim, é o recomeço.

As águas da chuva desabam e o vento insiste em tocar meu ombro. Metade de mim quer voar junto dele. A outra metade, embora relutante, também.

*Escritor, publicitário e ator – (acido13@gmail.com)

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