Águas de Campo Grande (Leitura vespertina II)

19/03/2015 at 16:46 (*Liberdade e Diversidade)

18 de Março de 2015

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Eduardo Romero*

Entre dois córregos, o Prosa e o Segredo, nasceu nossa Campo Grande. A oferta de água e terra fértil surpreendeu o mineiro José Antônio Pereira e sua comitiva, que aqui se instalaram, construíram um arraial, que virou vila, cidade e se tornou nossa Capital.

Às margens desse encontro de águas, ergueram-se as primeiras “indústrias”, as pessoas foram se instalando e permitindo a vida acontecer. Casas, plantações, comércio e gente. Água não faltava, e esse era exatamente o motivo do crescimento. Foram se descobrindo os 33 córregos existentes no município.

Hoje, somos quase um milhão de habitantes, com mais de 450 mil veículos, diversos empreendimentos, e continuamos com os mesmos recursos hídricos. A cidade cresceu e, com esse crescimento, também os desafios, entre tantos, o de manter (e com qualidade) nossas nascentes e córregos.

Para matar nossa sede e atender a nossas necessidades, captamos atualmente águas superficiais e subterrâneas. As primeiras correspondem a 54% do que consumimos, explorando as bacias do Guariroba (38%) e a do Lageado (16%), e o restante vem dos 144 poços em funcionamento na Capital, que ofertam 46% para o nosso consumo.

Para garantir a conservação de nossos mananciais, foram criadas as Áreas de Preservação Ambiental (APAs). Hoje, são três: a do Guariroba, implantada em 1995 e com 36.194 ha; a do Lageado e a do Ceroula, ambas fixadas em 2001, sendo a primeira com 5.604 ha, e a segunda, com 67.000 ha. O objetivo dessas unidades de conservação é garantir a manutenção das características ambientais e preservar os mananciais. O fato de existirem e já estarem legalmente constituídas não garante, por si só, que seus objetivos sejam alcançados; é preciso avançar em ações concretas e que envolvam todos os setores.

Em 2010, iniciamos uma nova experiência, a de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), que num resumo prático podemos dizer que se trata de incentivo financeiro para aqueles que preservam e ajudam a “produzir” água. A iniciativa começou na região da APA Guariroba, onde tivemos inicialmente 5 produtores rurais beneficiados. Este mês, foram assinados mais 15 contratos. É preciso avaliar resultados e ampliar ações.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), menos da metade da população mundial tem acesso à água potável. E o uso/consumo da água no mundo está assim dividido: 73% para a irrigação; 21% para indústrias e 3% para consumo doméstico. Só para ilustrar, a produção de uma tonelada de grãos consome mil toneladas de água. A disparidade no consumo, somada à falta ou má gestão das águas no País, tem gerado a crise hídrica. Campo Grande ainda é uma cidade beneficiada por essa riqueza natural, no entanto, não garante tranquilidade; pelo contrário, exige-nos ações urgentes. Não basta ter APAs e PSA, é preciso priorizar e ter vontade política. Equacionar, envolver e resolver.

Recentemente, a prefeitura anunciou a intenção em criar uma taxa (mais uma) para subsidiar o PSA. Precisamos discutir com a sociedade e encontrar caminhos. A concessionária de água e esgoto tem um contrato por mais 20 anos e está migrando sua captação de água superficial para subterrânea, sem termos ao certo qualquer estudo pluviométrico desses reservatórios, ou seja, estamos usando água dos aquíferos, sem saber o quanto e até quando podemos usar. Essas ações precisam ser questionadas e revistas.

Defendemos a manutenção e recuperação dos mananciais. Queremos, como em nossa origem, ter orgulho de nossos recursos hídricos e usufruir de todos os benefícios destes. Não podemos esperar acontecer aqui o que hoje ocorre em São Paulo e em outras regiões do Brasil. Esperar faltar para tentar resolver não é a solução. Estamos no melhor momento para definição de políticas públicas sobre água na Capital.

Preservar e manter nascentes passa pela criação/manutenção das APAs, passa por ações de PSA, passa por instituição/funcionamento de um eficiente Plano de Drenagem, é preciso captar e reter as águas pluviais, ou seja, passa por um verdadeiro e honesto planejamento da cidade com relação aos recursos hídricos. E não há política pública que seja eficiente e eficaz se não for pensada e construída por toda a sociedade.

*Professor, vereador por Campo Grande e presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara

**Artigo publicado ontem (18) no jornal Correio do Estado.

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