A um passo do Fórum Mundial 2015, em Tunis

17/03/2015 at 19:29 (*Liberdade e Diversidade)

forum tunisiaCom intensa participação feminina, Tunísia derrotou ditadura de décadas em 2011 e abriu Primavera Árabe. Agora, receberá, pela segunda vez, Fórum Social Mundial

Norte da África volta a abrigar, a partir de 24/3, encontro global das alternativas ao capitalismo. A seguir, algumas das experiências que serão debatidas no encontro

12 de março de 2015

Outras Palavras / por Redação

Por Sergio Ferrari

Uma cidade onde todo trabalhador recebe pagamento igual, em torno de 1.200 euros [R$ 4 mil] por 35 horas mensais de trabalho, numa Espanha que continua atolada em sua forte crise estrutural e uma Andaluzia onde os níveis de desemprego superavam 30% da população economicamente ativa em 2014. Marinaleda, com apenas 25 quilômetros quadrados e menos de 3 mil habitantes, uma economia basicamente agrícola e há 35 anos com um governo de esquerda, conseguiu consolidar um modelo “micro-alternativo” de sociedade. Com quinze euros por mês [R$ 50], toda família pode ter uma habitação. O preço dos serviços é baixo: uma creche com alimentação não custa mais que doze euros [R$ 40] mensais por criança.

Um poder local que resulta de outra forma de fazer e entender a participação e a política. E no qual o partido no governo e o forte sindicato agrícola reforçam mutuamente suas sinergias, usando os instrumentos institucionais da prefeitura para implementar avanços substantivos, a partir de um conceito de democracia social efetiva.

A luta pela terra – com ocupações, greves, protestos de diversos tipos – foi a alavanca que impulsionou os avanços sociais, e o combate durou décadas e exigiu paciência e criatividade, numa região de grande concentração rural onde 2% dos proprietários possuem mais de 50% da terra. Mas a agricultura não era suficiente, e então o Grupo Cooperativo Humar implementou uma indústria local que permite desenvolver o setor secundário – uma fábrica de conservas, a melhor arma contra o desemprego, que em Marinaleda é inexistente.

A “utopia para a paz”, tal como expresso no escudo-símbolo de Marinaleda, foi se concretizando numa ampla construção participativa que hoje reconhece, sem a menor dúvida, que “o poder não é neutro”. Uma experiência praticada com rigor ético estrito, que se expressa, por exemplo, na decisão dos governantes da prefeitura de não receber salários ou bonificações especiais. E que hoje, em 2015, continua forjando um projeto alternativo com base na solidariedade humana.

Os “sem terra” pensam em toda a sociedade

A quase 10 mil quilômetros desse laboratório andaluz, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil, que realizou em fevereiro de 2014 seu 6º congresso, com a participação de milhares de delegados, exercita cotidianamente seu “direito coletivo a alternativas”.

Considerado um dos atores sociais mais importantes do continente latino-americano, integrante destacado da rede internacional Via Campesina, incorporou à luta pela terra e à reforma agrária toda uma nova concepção de poder.

Cada nova ocupação de extensões improdutivas é acompanhada, como primeiro ato simbólico, da construção de uma escola para os filhos dos ocupantes. Cada mobilização rural busca reforçar-se fazendo uma ampla aliança cidadã. Os cargos dirigentes são rotativos; há um vai e vem permanente da direção (coordenação) às bases e vice-versa; não existe nem presidente nem secretário geral e a condução é coletiva e descentralizada.

Nos últimos anos, as lutas comuns e consensuadas converteram-se numa quase obsessão política para o MST. Ampliou sua ação a outros atores do mundo rural, do mundo urbano, da academia, da sociedade civil em geral, para conseguir uma articulação mais integral de seus objetivos e combates.

Hoje, um de seus objetivos mais cruciais é a soberania alimentar. Isso implica confrontar o modelo de produção do agronegócio – com sua prioridade exportadora – e denunciar ativamente o uso abusivo de agrotóxicos, por exemplo. Cada brasileiro consome hoje, em seus alimentos, uns cinco litros de veneno por ano, e a confrontação desse esquema deve ser obra do conjunto da sociedade brasileira, e incluir também o debate sobre uma mudança de paradigma no campo.

O MST já conseguiu que mais de 400 mil famílias fossem assentadas. Centenas de cooperativas e associações garantem, nos assentamentos, a produção de alimentos. Que é complementada pelo desenvolvimento da agroindústria, assim como acontece na experiência andaluz de Marinaleda. Os “Sem Terra” contestam o modelo que considera a terra como simples mercadoria, que pratica a monocultura, que tem na exportação seu objetivo principal e despreza completamente a natureza, o meio, o solo e o próprio ser humano. Os Sem Terra fortalecem o paradigma da produção familiar agroecológica, apoiados na cooperação agrícola e na agroindústria como ingrediente necessário. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o MST já é um dos principais produtores de arroz orgânico certificado. Milhares de toneladas de seus produtos agrícolas enriquecem – com acordos oficiais – a dieta básica de estudantes em todo o Brasil.

Outro pensamento é possível

Nos últimos anos, especialmente a partir da explosão da participação indígena em novos processos políticos latino-americanos – na Bolívia, Equador etc. – foi se consolidando o conceito de “Bem Viver” como alternativa ao desenvolvimento convencional. É um conceito fortemente presente em grande parte dos povos indígenas do continente, mas que ganha visibilidade política nas novas constituições desses dois Estados andinos.

A nova relação com a “Mãe Terra”; a ruptura com a lógica antropocêntrica tão própria do capitalismo e do “socialismo real”; o questionamento de conceitos até agora invulneráveis, como o de desenvolvimento e crescimento; foram abrindo um marco que realimenta reflexões interessantes também no Norte. Por exemplo, teorias/conceitos como as do “decrescimento”, que ganharam espaço intelectual na França, Suíça e outros países europeus.

Isso, sem subestimar a revitalização da reflexão sobre o “ecossocialismo”, que, embora não seja nova, adquire certa atualidade no debate europeu, à luz, especialmente, da crise do pensamento social-democrata.

Incluindo o nascimento de novas “teorias”, como as de “bem comum” ou “bem público” enquanto projeto econômico, aberto a empresas — mas que busca implantar uma economia sustentável e alternativa à dirigida pelos mercados financeiros. Incorporando também as constantes reflexões sobre a comunicação alternativa como necessidade e condição ideológica para aproximar mundos, promover a conjunção de experiências, revitalizar o debate sobre conceitos e paradigmas.

Práticas locais, experiências globais, teorias reanimadas, novas formas de pensamento… Uma busca concreta, um zigzag propositivo, um exercício ativo do “cidadão global” para não negociar seu direito ao sonho. Vamos revitalizá-lo coletivamente entre 24 e 28 de março no próximo Fórum Social Mundial, na capital da Tunísia.

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