“E todos os aviões caíram” (Crônica matutina)

12/03/2015 at 11:24 (*Liberdade e Diversidade)

André Luiz AlvesANDRÉ LUIZ ALVEZ*

12 de Março de 2015

O megaempresário vendia sonhos em forma de papéis que acabaram em nada, como devaneio de verão. O juiz que apreendeu seus bens não resistiu diante da riqueza fácil e, entre outras atitudes estranhas, foi fotografado dirigindo o porsche do empresário.

André - aviõesEssas notícias me trouxeram à memória uma música do Chico Buarque e me fizeram recordar dos tempos em que eu trabalhava numa autarquia do governo. Eu era bastante jovem, ganhava pouco e vivia sonhando que o destino promoveria alguma mudança na situação. Então aconteceu a revolução, quando alguém, com um estranho brilho no olhar, surgiu de repente na repartição, carregado duma empolgação de general defronte à tropa esquálida, desejosa de boas novas. Falou sobre a possibilidade de se ganhar dinheiro ao aderir a um sistema de rendas que chamou de avião.

Percebi que seria simples ficar rico, bastava investir um valor na base do papel que representava o tal avião e convidar amigos para embarcar na mesma viagem, e assim ir subindo de posição até voar feito um pássaro, carregando no bico o dinheiro ganho facilmente.

Em uma semana, ganhei bastante dinheiro, que usei pagando cerveja aos amigos e fiz com que muitos deles aderissem à ideia. A coisa se espalhou como se conduzida pelo som de uma banda de múltiplos instrumentos que a todos seduzia. Na repartição, ninguém mais cumpria suas obrigações, atentos a cada movimento dos papéis, ansiosos para que o dinheiro fácil lhe caísse nos bolsos.

As famílias se reuniam, amigos eram envolvidos em ternos abraços, até aquela senhora que nunca cumprimentou ninguém dava agora ares da graça, já com papel e caneta nas mãos. O vizinho, dono da mercearia, sujeito que vivia escondido atrás do bigode, agora se mostrava faceiro, convidando todos àquela viagem fantástica, o sorriso cada vez mais aberto e o mesmo brilho estranho do rosto do general.

No auge do negócio, pensei pedir demissão, empolgado ao constatar que receberia, com um único avião, o equivalente a cinco meses de salário. Por toda a cidade, era comum encontrar reuniões de grupos operando os primeiros aviões. “O dinheiro não traz felicidade”, afirma o dito popular.

Desconfio que não seja bem assim, nunca na vida visualizei tanta felicidade nos rostos das pessoas como naquele tempo.

Não tardou para faltar combustível, as pessoas não queriam retornar à base do avião, outros não quiseram aderir, os sonhadores começaram a perder tudo o que haviam ganho e o desencanto se formou.

A alegria acabou tão rápido quanto começou, assim que a banda passou. Logo, todos voltaram aos seus devidos lugares: o dono da mercearia perdeu o brilho no olhar, amizades foram desfeitas, parentes brigaram entre si, a senhora retornou à casmurrice, o ambiente no local de trabalho tornou-se irrespirável e o que restou foi a lição de vida: o que se ganha fácil, perde-se na mesma proporção, num castigo merecido, como o estrondo de aviões que se espatifam no chão.

*Escritor, publicitário e ator (acido13@gmail.com)

**Crônica publicada hoje (12) no jornal Correio do Estado.

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