Razões e contrarrazões para o impeachment da presidente Dilma (Leitura matutina)

06/03/2015 at 11:15 (*Liberdade e Diversidade)

dilma 4 - america latinaAmérica Latina – situação política e econômica difíceis

hermano-de-melo-esta3Hermano Melo*

6 de Março de 2015

Nos últimos dias, embora ainda que de forma incipiente, cresceram em todo Brasil as manifestações – inclusive, aqui em Campo Grande, MS – com ‘adesivagem’ de carros e pregação aberta do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

No exterior, também. Semana passada, um blog publicado no site do jornal britânico Financial Times listou 10 motivos por acreditar que Dilma poderia sofrer impeachment, entre eles as investigações de corrupção na Petrobras, a economia em baixa, a crise no abastecimento de água e energia e o menor apoio no Congresso.

Nesta semana, três brasilianistas – Peter Hakim, presidente do Inter-American Dialogue,Riordan Roett, diretor do programa de estudos da América Latina da Universidade John Hopkins, e Matthew Taylor, pesquisador do Brazil Institute – em entrevista à BBC Brasil, enumeraram cinco razões porque o impeachment de Dilma é improvável: 1. Até o momento, não há base para impeachment; 2. Não há evidências de envolvimento de Dilma no escândalo da Petrobras; 3. A oposição não tem interesse em um processo de impeachment; 4. Apoio no Congresso; 5. Dificuldades em toda a América Latina.

Segundo eles, apesar dos graves problemas enfrentados pelo governo Dilma, não está clara qual seria a base para um processo de impeachment contra a presidente. Peter Hakim diz que “embora haja tensão dentro do governo, entre PT e oposição, entre o congresso e a presidente, um fator importante é não haver evidências de envolvimento de Dilma no escândalo da Petrobras”. E Riordan Roett foi taxativo: “[No caso do Brasil] penso que é muito cedo para sequer pensar sobre a possibilidade de um processo sério de impeachment”.

Mas é evidente que os analistas são muito otimistas quando afirmam que “a oposição – leia-se, principalmente, PSDB – não teria condições nem interesse em levar adiante um processo de impeachment”. Eles esquecem, por exemplo, que o principal partido e parceiro atual do governo petista – o PMDB – é hoje um partido fisiológico por excelência e, portanto, pouco confiável em caso de necessidade de apoio do Congresso para evitar o impeachment.

Quanto à avaliação dos analistas de que, apesar de graves, os atuais problemas políticos e econômicos vividos pelo Brasil não são exclusividades dele, mas também de muitos países da América Latina, ela está correta. “Não é como se o Brasil estivesse sozinho”, diz Hakim. Assim, à exceção talvez da Bolívia de Evo Morales e do Uruguai, onde Tabaré Vásquez tomou posse e sucedeu a José Mujica, no México, na Venezuela, no Peru, no Chile e na Argentina, os presidentes também atravessam momento de fraca popularidade.

Na economia, os analistas também têm razão, mas aqui outros fatores são determinantes: aumentos de tarifas de energia e água, da alimentação, de combustíveis, etc. Mas, como dizem eles, “se no Brasil a inflação chega a 7,3% nos últimos 12 meses, na Argentina está em torno de 40% e na Venezuela perto de 70%. A confiança do investidor está em baixa em toda a América Latina”.

É preciso entender, por fim, que tanto a esquerda brasileira quanto aquelas que governam atualmente os demais países latino-americanos – e quiçá, no mundo –, atravessam grave crise política e econômica. E tudo indica que eles ainda não encontraram a fórmula para sair dela. Mas isso não significa que, diante do quadro difícil que o Brasil atravessa hoje, a melhor saída seja o impeachment de uma presidente eleita democraticamente.

*Jornalista e escritor

**Artigo publicado no jornal Correio do Estado de hoje (6).

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