Caminhoneiros: Uma greve mal explicada (Leitura matinal)

27/02/2015 at 10:27 (*Liberdade e Diversidade)

greve_dos_caminhoneiros75224Greve dos caminhoneiros no Brasil.

hermano-de-melo-esta3Hermano Melo*

Em geral, antes de ser deflagrada, uma greve de qualquer que seja a categoria profissional envolvida e a motivação que a desencadeie, para ser considerada legal e justa, deve seguir algumas premissas básicas. Primeiro, deve resultar de assembleia geral da categoria envolvida na paralisação e anunciada com antecedência à sociedade de alguma forma afetada por ela, a fim de que as pessoas possam se preparar e se precaver de transtornos que irão advir após o seu desfecho.

Depois, ela deve apresentar uma pauta de reivindicações ao verdadeiro “patrão” ou interlocutor mais apropriado – quer este seja a União, Estado, Município, empresa envolvida, entidade patronal, etc. – contendo os itens que a categoria julga serem importantes para a melhoria de sua situação atual – quer se tratem de melhoria salarial, condições de trabalho e outras.

No caso da atual greve dos caminhoneiros que já dura cinco dias e afeta vários estados brasileiros, as premissas acima parece que em nenhum momento foram cumpridas. Da noite para o dia, eles estacionaram às margens das rodovias brasileiras e passaram a reivindicar melhorias que, em parte, deveriam ser dirigidas aos seus verdadeiros patrões – empresários do transporte de cargas – tais como, melhoria salarial, prêmios por dirigir de forma correta e cuidados com o caminhão – e outras que, aí sim, compete a diferentes esferas dos governos federal e estadual, como, por exemplo, o preço do óleo diesel.

O resultado dessa paralisação generalizada, mesmo que justa sob o ponto de vista dos trabalhadores, provocou uma série de transtornos para a população brasileira, tais como atraso na entrega de mercadorias essenciais – alimentos, medicamentos, combustíveis, dificuldade de acesso a certas regiões, e prejuízos a certos setores da economia brasileira. Houve até de certa forma o risco de desabastecimento em algumas cidades brasileiras, com riscos até à segurança nacional.

Assim, os grevistas apresentaram uma pauta de reivindicações que vai desde a redução do preço do óleo diesel, recentemente majorado pelo governo federal, passando pela redução do ICMS do combustível (tarefa que cabe aos Estados), melhorias salariais da categoria, preço do frete, e até a redução do preço cobrado pelos postos de pedágio nas rodovias federais.

O que parece correto seria que os caminhoneiros separassem o que seria reivindicações próprias deles – as que visam melhorar as condições de trabalho, salários, preço do frete e de dirigibilidade nas estradas, por exemplo – e deixar para os empresários do setor de transportes de cargas (que provavelmente estão se escondendo por trás dos caminhoneiros!) as negociações com o governo federal sobre o aumento de combustíveis e outras reivindicações que não parecem ser da alçada da categoria.

Da forma como está sendo conduzida a negociação dos caminhoneiros diretamente com o governo federal, além de omitir o papel importante das empresas de transporte de cargas do Brasil, pode dar a impressão de que a greve deles é, na verdade, um movimento político que visa em última instância desestabilizar o governo brasileiro.

Assim, não deixa de ter sentido a charge de Marcos Borges recentemente publicada na imprensa local mostrando a paralisação de caminhões em uma rodovia e às margens dela um tucano, ao que parece apreciando e aplaudindo a atitude dos caminhoneiros brasileiros. É preciso ter cuidado com isso.

*Jornalista e Escritor

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