A ILUSÃO DE “CIVILIZAR” O BRASIL COM IMIGRANTES EUROPEUS (Leitura do dia)

07/02/2015 at 16:34 (*Liberdade e Diversidade)

Monumento_ao_Imigrante2(CARAS E MODOS DOS MIGRANTES E IMIGRANTES)

carlos-frederico-correa-da-costaCarlos Frederico Corrêa da Costa*

A concentração de europeus pobres nas cidades, nivelados aos escravos de ganho (vendedores ou que os donos alugavam seus serviços) e do eito (trabalhavam na enxada, cortando e plantando cana, café…), exercendo atividades insalubres e em plena decadência social, surpreendeu aqueles que contavam utilizar a imigração branca para “civilizar” o país.

Nos campos, não era diferente, era pior. Os imigrantes europeus em geral eram ladeados por cativos, coabitavam com escravos nas senzalas e por vezes eram controlados por escravos-feitores.

Na cidade, e em particular nas fábricas de charuto, imigrantes menores são empregados ao lado de crianças escravas, e as condições de trabalho são duras.

A construção de estradas e de vias férreas, na segunda metade do século XIX, dá lugar a incidentes entre contramestres estrangeiros e brasileiros e imigrantes portugueses.

Notícias de conflitos com os trabalhadores aparecem de permeio às ameaças de levante de escravos. Em janeiro de 1863, numa correspondência de São Paulo, o Jornal do Commércio informa sobre uma tentativa de insurreição de escravos ramificada em Taubaté, Pindamonhangaba, Guaratinguetá e Lorena, e, logo em seguida, anuncia o prosseguimento de conflitos com imigrantes que trabalhavam na Estrada de Ferro Jundiaí: “Continuam os distúrbios nos trabalhos da linha férrea. No Barbado, próximo a Jundiaí, três trabalhadores portugueses foram mortos na luta”.

Era evidente a semelhança entre os anúncios sobre “escravos em fuga” e “colonos em fuga” publicados nos jornais. Às vezes, conflitos opunham os comerciantes portugueses a seus compatriotas. Um exemplo disso é que o substantivo galego tenha sido usado pejorativamente pelos próprios comerciantes lusitanos para designar os proletários (operários) portugueses entregues a tarefas que se assemelhavam à escravidão, desempenhadas em Lisboa pelos verdadeiros galegos, emigrados da Galícia.

Os incidentes não estavam restritos à imigração portuguesa no Rio e em São Paulo. Depois de uma série de tumultos que se estendiam desde 1872, explode em 1874, na colônia alemã de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul o levante dos “Mucker”, movimento messiânico liderado por um curandeiro teuto-brasileiro, João Jorge Maurer, e sua mulher, a profetiza Jacobina, ambos filhos de alemães da primeira leva de imigrantes estabelecidos na área.

Como observou a historiadora Maria Isaura Pereira de Queiroz, o levante místico, até então restrito às antigas áreas de colonização afro-luso-brasileira do Nordeste e, por isso mesmo, atribuído à “instabilidade psicológica” dos mestiços, irrompia no seio da comunidade imigrante, mas prestigiada pela administração imperial.

Todos esses incidentes com os imigrantes estrangeiros levam a classe dirigente brasileira a reelaborar sua própria visão da população brasileira: “… o brasileiro é calmo, sóbrio, inteligente, apto a tudo e desinteressado”, portanto, o trabalhador brasileiro era melhor para o Brasil do que o imigrante estrangeiro, mesmo assim, a imigração para o Brasil continuou até a década de 1960: portugueses, italianos, polacos, “turcos” japoneses…

Referência Bibliográfica

COSTA, Carlos Frederico Corrêa da (pela transcrição e adaptação) de: ALENCASTRO, Luiz Felipe de; RENAUX, Maria Luiza. Caras e modos dos migrantes e imigrantes In: NOVAIS, Fernando A. (org.), História da vida privada no Brasil 2. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p.310-312.

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*Carlos Frederico Corrêa da Costa é doutor em História Social pela USP-SP, historiador de empresas, famílias e biografias. E-mail: cfccosta@terra.com.br

 **Professor aposentado da Graduação, Pós-Graduação e Pesquisador do Departamento de História, campus de Aquidauana/UFMS.

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