Escolha entre ser brasileiro ou ser português após a independência (Leitura vespertina)

05/02/2015 at 16:19 (*Liberdade e Diversidade)

portugal ou brasil

Carlos Frederico correa da costaCarlos Frederico Corrêa da Costa*

O Sete de Setembro de 1822 cria uma situação extravagante no Brasil. Em 1808 a Corte vem de Portugal; em 1821 a Corte volta. Como cada um escolheu sua pátria, entre um príncipe regente, proclamado Imperador de um novo país (outubro de 1822), e seu pai, soberano da Metrópole?

No fundo, a escolha foi essencialmente pautada pelos interesses particulares, pelo modo de inserção da vida privada na nova vida pública brasileira inaugurada pelo Império.

Alvo da desconfiança das novas autoridades luso-brasileiras, parte dos oficiais e das tropas lusitanas não teve dúvida e embarcou para a Europa logo após a Independência, mas muitos funcionários régios ficaram. Nas classes dominantes do país houve, entretanto, dois comportamentos bem distintos e bem fundamentados quanto à opção a tomar depois de 1822.

Todos os proprietários, todos os fazendeiros e senhores de engenho, estivessem eles na América portuguesa havia muitas gerações ou alguns anos somente, tinham de brasilianizar-se. Detentores da ordem privada escravista, exercendo o domínio direto sobre os escravos e homens livres que viviam em suas terras, eles precisavam assumir plenamente os direitos políticos outorgados pelo Império, a fim de garantir sua própria inserção nas novas instituições nacionais.

Todos os que tinham comércio, negócio de importação e distribuição de importados, tomaram uma atitude oposta. Depositários de bens móveis e exercendo o comércio por consignação, ou seja, ganhando uma comissão sobre mercadorias alheias que lhes eram confiadas para serem vendidas no Brasil, eles continuavam submetidos às casas comerciais do Porto e de Lisboa. Não convinha, nem aos seus patrões metropolitanos, nem a eles próprios, optar pela nacionalidade brasileira.

No meio tempo, os comerciantes portugueses, donos da maior rede de distribuição de secos e molhados do Império, donos também de um número de armazéns que excedia àquele possuído por brasileiros, tornam-se alvos da hostilidade nacionalista urbana. Nessa campanha valia tudo. Em alguns momentos a lusofobia atingiu as raias do delírio psicanalítico, o português aparecendo como o grande estuprador da ex-colônia, que ameaçava até a virilidade dos brasileiros.

Uma carta publicada em 1848 no jornal nacionalista pernambucano A Voz do Brasil, nas raias da torpeza, investe contra certo “Sr. Cutrim” um comerciante português estabelecido em Maceió: “Esse burro deflorou uma nossa patrícia, e gravidou-a, ao mesmo tempo em que gravidou a mãe da mesma rapariga. Horror! Infâmia! Senhor [leitor], cá, vosmecê, tenha olho vivo com esse patriarca da prostituição. Olhe que vosmecê é brasileiro, e o bicho é bom de broxa”.

Na mesma época, na Bahia, o jornal semanal O Povo, todo impresso em papel verde-amarelo, publicava um artigo intitulado “Paralelo entre africanos e portugueses” que dizia o seguinte: “O africano, bem que de mal grado, lavra os nossos campos, o português destrói a indústria, aniquila o comércio; o africano que para cá veio é muitas vezes filho de famílias de mais ou menos representação porque ainda reina entre eles o bárbaro costume de serem escravos os prisioneiros de guerra; o português que para aqui vem é réu de polícia, ladrão de estrada, chefe de quadrilhas, passador de papel falso, galegos que correspondem ao que chamamos negro cangueiro”. Esse tipo de lusofobia caracterizava a oposição aos comerciantes portugueses.

* Doutor em História Social pela USP-SP, historiador de empresas, famílias e biografias.

**Professor aposentado da Graduação, Pós-Graduação e Pesquisador do Departamento de História, campus de Aquidauana/UFMS.

E-mail: cfccosta@terra.com.br

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