Tolerância Zero (Leitura matinal)

27/01/2015 at 10:05 (*Liberdade e Diversidade)

Hilcar

tereza-hilcar-esta1Theresa Hilcar*

27 de Janeiro de 2015

Parece que virou moda. Por onde passo vejo a mesma placa, nas óticas do centro da cidade. Estão fixadas nos vidros onde ficam expostos os produtos: óculos, claro! Algumas se diferenciam das outras por um detalhe ou outro. Mas todas elas me irritam sobremaneira. A obviedade é uma coisa que me chateia profundamente. E a tal placa, ou cartaz, fica ali me desafiando todos os dias, mexendo com a minha mais profunda intolerância. Que a bem da verdade está se tornando cada vez maior, não obstante meus esforços e práticas de meditação. Minha única esperança é pensar que antes da cura às vezes o doente piora. Era o que dizia a avó, no século passado.

Pois a minha paciência está sempre por um fio. Tal como certo personagem de TV – o Saraiva – cujo bordão era: “tolerância zero”, também não suporto perguntas idiotas. E para meu desespero as pessoas estão fazendo cada vez mais perguntas e afirmações óbvias. Deve ser falta de assunto. Com certeza é falta de assunto. No caso das placas a questão pode ser mais complicada. Na minha opinião de leiga – é claro –, tem a ver com esgotamento do marketing. Ou falta total dele. Vou dizer o que está escrito, antes que o leitor atire o jornal ou desista da crônica.  “Aviamos exames de vista”, é esta frase, às vezes com a variação “receitas”, em vez de exames. Ora, se o estabelecimento é uma ótica onde se vende óculos, é óbvio que por lá irão aviar as receitas que os médicos oftalmologistas fazem para seus pacientes. Não fosse isto, o mais certo seria colocar uma placa dizendo: só vendemos óculos de sol.

Interessante notar que, embora, tenhamos sido colonizados pelos portugueses, não herdamos a lógica linear da língua mãe. Certa vez estava por lá, numa estação de trem, e meu companheiro abordou uma senhora para pedir informação. Começou a frase dizendo: “Eu sou brasileiro…”. No que ela, mais rápida que um gatilho, disse: “Pois sim, estou a ver que o senhor é brasileiro”. E temos também o famoso caso do turista que perguntou se podia entrar naquela rua para ir ao aeroporto, e o gajo responde: “poder o senhor pode, mas não garanto que vá chegar ao aeroporto”. Adoro!

O Facebook, o lugar onde a lógica passa longe – além de outras coisas. Todos os dias alguém posta algo sobre si mesmo: uma conquista, viagem, festa, qualquer coisa no gênero. Em seguida centenas de pessoas curtem com um “Você merece!”. Ai que chega a me dar arrepios! Pior que isto são as famigeradas “merecidas férias”. Se o sujeito tira férias não é apenas porque ele merece, mas porque está previsto em lei. Todo cidadão tem direito ao gozo de alguns dias de descanso. Ou existem férias imerecidas? Quero ver alguém escrever que o amigo não merece algo ou alguma coisa.

Na televisão os apresentadores, com a dura missão de competir com a internet, são campeões de palavras óbvias e chavões. “Vamos aguardar para ver o que acontece”, é uma delas. Ou então a clássica pergunta ao sujeito que escapou de uma tragédia: “Como o senhor está se sentindo?”. Torço para que, um dia, alguém responda: “Estou ótimo! Vou até sair para a balada daqui a pouco”. Na minha juventude tive um amigo que adorava contestar o óbvio. Quando estávamos sentados à mesa, em algum barzinho, e alguém chegava perguntando se havia alguém sentado na cadeira – vazia, é claro! – ele dizia: “Tem sim, cuidado pra não sentar em cima dele”. Poderia ficar aqui digitando histórias o dia todo. Mas minha paciência está por um fio. Há pouco alguém me perguntou: “Se você não dirige mais automóvel, como faz para se locomover?”. Deu vontade de responder: “Voando, Pedro Bó! Tenho um skate voador”.

*Jornalista, Escritora e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras

**Crônica publicada hoje (27) no jornal Correio do Estado.

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