“O novo no ovo” (Crônica da manhã)

20/01/2015 at 09:45 (*Liberdade e Diversidade)

ovo

maria-adelia-menegazzo-esta1Maria Adélia Menegazzo*

20 de Janeiro de 2015

Amanheci 2015 ouvindo os sinos da igreja matriz da cidade onde nasci. Imediatamente pensei o poema de Fernando Pessoa, “O sino da minha aldeia”: “Cada tua badalada toca na minha alma./A cada pancada tua,/Vibrante no céu aberto,/Sinto mais longe o passado,/Sinto a saudade mais perto”. Claro que a renovação dos afetos se dá a partir daí. Lindas tardes de verão conversando na varanda. Boas risadas com as histórias de colégio, gargalhadas diante do nosso vocabulário tão aldeão: lá não se cai em precipício, mas em pirambeira, as janelas vivem escancaradas e as datas são vazias. Mas os afetos, esses são os mais sinceros e iguais aos do mundo todo.

E assim, começo o ano pensando no que será de nós a partir d’agora, o que nos espera entre o dado e o previsto?

Comecei a elaborar uma lista do que vem aparecendo como novidade e ficou assim: um novo estatuto climático pede novas posturas de nossa parte; um novo antibiótico deverá fazer a diferença nos próximos anos; um novo ministro da Fazenda poderá salvar a lavoura; (por falar nela, temos novos ministros que parecem não combinar: Agricultura, Meio Ambiente e Desenvolvimento Agrário); um novo tipo de humor deve entrar em cena depois do ocorrido na França; acho que seria um ato de caridade encontrar um novo nome para os lava-jatos e muita calma nessa hora!… Seria muito fácil continuar, mas provavelmente eu apenas iria repetir o que muitos cronistas já fizeram. Resolvi, então, dialogar comigo mesma, diante de outra lista, que fiz no ano passado, e ver em que medida ela foi superada.

Infelizmente os rapazes da cidade continuam a entupir suas camionetes de caixas de som com suas músicas estúpidas – alguém já sugeriu que a lei do silêncio inclua essas pérolas. Os caminhões das distribuidoras de bebidas, que antes ocupavam metade de uma das faixas das ruas, agora resolveram ser politicamente corretos e usam mais meio metro, devidamente delimitado por cones de sinalização. Isso quando não param na contramão. Em tempo, sempre fora do horário permitido por lei. É a institucionalização da contravenção. As pessoas continuam a viajar sem se preocupar com o alarme disparando no ouvido dos vizinhos durante todo o final de semana. Infelizmente o pastor da igreja perto da minha casa continua a fazer seus discursos a partir das sete horas da manhã de domingo, com os alto-falantes em toda potência. As pessoas continuam a usar seus smartphones estejam onde e com quem estiverem, enquanto isso, para muitas outras o “s” do plural continua desaparecido, sem contar as preposições inadequadas. Dos meus alunos que tomavam tereré já não posso dizer nada, pois que me aposentei dos cursos de graduação. Muitos colegas continuam achando que a imprensa tem o poder de inventar tudo o que publica. Quanto aos jogos de cena de tribunas e tribunais, passada a ressaca das eleições, eles continuam a grassar neste país que um dia, quem sabe, será sério. Alguma novidade?

*Professora-Doutora da UFMS, Titular da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

**Crônica publicada hoje no jornal Correio do Estado.

***Charge do Éder

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