Hora de encarar a crise da democracia (Leitura noturna)

27/10/2014 at 21:23 (*Liberdade e Diversidade)

Democracia

No dia das eleições, vale a pena examinar o que teóricos anticapitalistas — de Trotsky a Zizek escreveram sobre limites da representação política e caminhos para superá-la

Publicado em 26 de outubro de 2014 por Redação

Por Pedro Veríssimo Fernandes

Hoje, o inimigo não se chama Império nem Capital.
Chama-se Democracia 

Alain Badiou

De dois em dois anos vamos às urnas eleger nossos representantes, aqueles que falarão por nós nos congressos, câmaras e senado. A conquista desse direito custou um preço muito caro àqueles que não aceitavam não participar da vida pública. Desde as lutas pelo sufrágio universal, à resistência as ditaduras latinas, até as recentes primaveras que tomaram o Oriente Médio.

A democracia, de nascimento longínquo e tão falada, ainda demora a chegar a todos os cantos, e quando chega, cedo ou tarde depara-se com a parceria inseparável da representação. Talvez devêssemos, então, reformular a frase que abre esse texto e dizer que o verdadeiro inimigo, além de não se chamar império e capital, tampouco se chama democracia, mas o modo que se opera, hoje, a representação.

É importante ressaltar aqui que a concepção de uma democracia representativa foi um “mal necessário” já que as cidades cresciam no território e população, ficando impossível pensar nas praças públicas gregas onde cada um dizia por si. Por isso o que se coloca em questão aqui não é a representação em si, mas o simulacro dela que vivemos hoje, pois como ressaltou Lênin, a ideia aqui não é “anular as instituições representativas e a elegibilidade, mas sim transformar esses moinhos de palavras que são as assembleias representativas em assembleias capazes de ‘trabalhar’ verdadeiramente” (O Estado e a revolução, p.57).

A ilusão democrática

Há um discurso totalizante que prega uma democracia representativa pura, como se estivéssemos sendo representados perfeitamente pelos políticos que elegemos. Tal totalidade é impossível primeiro pela lógica da construção mútua entre representante e representado, pois, sendo o eleito fruto de uma gama de eleitores, é impossível que se atenda a tarefa representativa de forma igual a todos, já que os votos, nem sempre, vem pelas mesmas razões. Além de que, a bandeira que deu o tom da sua campanha e consequentemente lhe trouxe votos, não será a única decisão que ele terá que tomar. O dia a dia político lhe imporá atitudes que fogem dos programas apresentados e, portanto, da gama de representatividade que lhe deu os votos. Depois, outro ponto crítico que subverte a representação, é a escolha para cargos do legislativo que, diferente dos majoritários (presidente, governador, prefeito), é proporcional. Ou seja, permite que candidatos com poucos votos sejam eleitos e alguns com mais, não. Isso porque um candidato com muitos votos pode superar de longe o quociente eleitoral do estado e assim, conseguir mais cadeiras para seu partido. Sobre isso, saiu uma matéria interessante na Carta Capital.

E por fim, talvez o principal entrave que não permite uma representatividade de fato é o financiamento privado das campanhas. Basta ver as quantias exorbitantes que cada candidato irá gastar no processo eleitoral e o valor que cada um receberá de salário caso seja eleito. A conta não bate.

Está dado, para quem quiser averiguar, que as maiores empresas doadoras dividem as “contribuições” a todos os candidatos que têm chances de ganhar. Isso evidencia duas obviedades, mas que vale, para essa análise sobre democracia representativa, reforçar: Não há qualquer vínculo ideológico ou projeto político que relacione as empresas aos candidatos e, por isso, é claro que se trata de um investimento.  Temos, então, um deslocamento de representatividade, pois, se o candidato tem uma relação de ‘construção’ mútua com os eleitores como ele manterá essa representatividade se o peso econômico, crucial para a manutenção no poder ou chegada a ele, passa por fora da relação candidato/eleitor?

Essas questões aqui colocadas são aparentemente superadas pelo fetichismo da “livre escolha” que ganhou quase que um caráter sagrado. Se sentir livre para escolher é um dos sintomas mais evidentes da doença democrática que não leva em conta que a escolha é dentre possíveis, as opções são dadas. Ou seja, somos livres para escolher entre essas opções, e não mudá-las.

A fantasia democrática

Mesmo assim, o discurso democrático prega uma democracia quase que direta, onde estaríamos sendo representados como um todo, quando, na verdade, a história é bem diferente. Zizek coloca a questão de maneira clara: “É a ‘ilusão democrática’, a aceitação dos mecanismos democráticos como o maior arcabouço de qualquer mudança que impede a mudança radical das relações capitalistas.” (O ano em que sonhamos perigosamente, p.92). É o querer mudar o jogo, com o tabuleiro e as regras do inimigo. Por isso não é mais possível falarmos em radicalização da democracia dentro dos limites “legais”.

A fantasia aqui é essa alegria criada pela falsa ideia totalizante do discurso democrático, que cria um vínculo representante/representado sem qualquer ruído ou interferência. E esses furos que se evidenciam na lógica representativa é tamponado com nosso ato máximo de participação política: o voto. Esse processo se assemelha a lógica de atuação de um rei numa democracia constitucional:

“Nesse sentido, na democracia, cada cidadão comum é de fato um rei – mas um rei numa democracia constitucional, um monarca que decide apenas formalmente, cuja função é apenas assinar as medidas propostas pelo governo executivo. É por isso que o problema dos rituais democráticos é semelhante aos grandes problemas da monarquia constitucional: como proteger a dignidade do rei? Como manter a aparência de que o rei toma as decisões, quando todos sabem que isso não é verdade? Trotsky estava certo então em sua crítica básica à democracia parlamentar: não é que ela dê poder demais às massas não instruídas, mas que, paradoxalmente, apassive as massas, deixando a iniciativa para o aparelho do poder estatal (ao contrário dos “sovietes”, em que as classes trabalhadoras se mobilizam e exercem o poder diretamente). (Primeiro como tragédia, depois como farsa. p.115)

Assim como a mídia vende receitas mágicas de felicidades medicando seus leitores com indicações de produtos, a democracia, tal qual vivemos hoje, vende o voto para nossa falta de participação política. O problema é que caímos no que Oscar Wilde diz sobre os remédios: eles “não curam a doença, apenas prolongam. Na verdade, os remédios fazem parte da doença.”

O voto é o mecanismo para deixar a fantasia completa, por inteira. É uma espécie de cortina que esconde o sintoma e, como bem escreveu Wilde, prolonga a doença. Por isso é certo compararmos o ritual democrático que se repete de dois em dois anos ao “café descafeinado” de que fala Zizek, que parece café, tem gosto e cheiro de café, mas não é café.

Algo de novo se aproxima

Recentemente se abriram importantes processos de questionamento que se espalharam pelo mundo como um pavio que ia clareando problemas comuns em diversas áreas. Os protestos de Seattle, o Occupy Wall Street, os Indignados espanhóis e as Primaveras, até chegar às Jornadas de Junho no Brasil, abriram questionamentos que apontam para o novo. Não dão a resposta ou propõe soluções, tampouco era esse o intuito, mas criam as perguntas e desprezam o velho.

Talvez, então, devêssemos dar um passo atrás em relação à afirmação marxista de que, diferente dos filósofos que se preocupavam em entender o mundo, deveríamos mudá-lo, e perceber que talvez seja a hora de pensá-lo novamente.

Referências:

BADIOU, Alain. A hipótese comunista. Boitempo, São Paulo, 2012

ZIZEK, Slavoj. O ano em que sonhamos perigosamente. Boitempo, São Paulo, 2012

______. Primeiro como tragédia, depois como farsa. Boitempo. São Paulo, 2011.

______. Bem-vindo ao deserto do real!. Boitempo, São Paulo, 2003

______ (org.). Um mapa da ideologia. Contraponto, Rio de Janeiro, 2010

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Grupo Acaba se apresenta hoje no Glauce Rocha em Campo Grande,MS

27/10/2014 at 16:17 (*Liberdade e Diversidade)

Grupo AcabaCANTANDO A DOR DE UM PANTANAL

Um dos principais representantes dos movimentos musicais do Mato Grosso do Sul, o Grupo Acaba, se apresenta hoje às 20 horas no Teatro Glauce Rocha, por meio do Projeto “Shows de Segunda, Sons de Primeira”. O show é iniciativa da  UFMS e inaugura o Projeto. Ver matéria completa de Raquel de Souza no jornal “O Estado MS” de hoje (27). 

http://www.oestadoms.com.br

Serviço: O show desta noite tem entrada franca. O teatro fica dentro do campus da UFMS. Mais informações: 67-3345-7232.

Comentário do blog: Imperdível!!!

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Obama felicita Dilma Rousseff por sua reeleição

27/10/2014 at 15:35 (*Liberdade e Diversidade)

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Presidente dos EUA, Barack Obama, na Casa Branca, em Washington, em 19 de outubro (Foto: Mike Theiler / Reuters)

27 de outubro de 2014

Terra

O presidente americano demonstrou interesse em estreitar as relações dos Estados Unidos com o Brasil

O presidente Barack Obama parabenizou nesta segunda-feira Dilma Rousseff por sua reeleição e pediu que sejam reforçados os vínculos com o Brasil, “um importante aliado dos Estados Unidos”.

Obama vai telefonar para Dilma nos próximos dias para parabenizá-la pessoalmente, indicou a Casa Branca.

O presidente americano também deseja conversar com sua colega brasileira sobre a possibilidade de “reforçar a colaboração para a segurança mundial e o respeito aos direitos humanos, assim como aprofundar a cooperação bilateral em setores como educação, energia e comércio.

“O Brasil é um parceiro importante para os Estados Unidos e estamos comprometidos a continuar trabalhando com a presidenta Dilma Rousseff para estreitar nossas relações bilaterais”, acrescenta o comunicado.

Dilma venceu eleições acirradas ao obter votos suficientes da classe média no sudeste, e que permitiu consolidar a quarta vitória consecutiva do Partido dos Trabalhadores frente a seu rival, Aécio Neves.

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Charge do Duke: Dilma reeleita

27/10/2014 at 15:04 (*Liberdade e Diversidade)

imageCharge do Duke no jornal O Tempo de BH-MG de hoje (27/10). Supimpa!

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Cenário eleitoral: “NE não tem ‘culpa'”, diz especialista

27/10/2014 at 14:28 (*Liberdade e Diversidade)

mapa-thomas-contifacebookO Terra conversou com o historiador econômico Thomas Conti que criou um mapa que revela a mistura do eleitorado brasileiro – contrariando “piadas” de mau gosto sobre o NE

27 de outubro de 2014

Ana Lis Soares / Terra

O historiador econômico Thomas Conti se cansou das mensagens de ódio e xenofobia lançadas nas redes sociais neste domingo e segunda-feira, depois de encerrado o 2º turno das Eleições que sagraram Dilma Rousseff (PT) presidente. Diversos internautas compartilharam mapas do Brasil divididos entre o vermelho e o azul, representando, respectivamente, PT e PSDB. Para provar que não é bem assim, Conti decidiu levantar os números e pintar – literalmente – o mapa do Brasil e das eleições conforme a realidade. Os resultados? Estamos “juntos e misturados” e não há vermelho e azul e, sim, um roxo ‘esparramado’ por todo o território.

O Terra conversou pelo Facebook com Thomas que disse estar satisfeito com a repercussão do seu estudo. O mapa foi compartilhado por mais de 16 mil pessoas no Facebook, além de ter sido retuitado por quase 2 mil no Twitter. O sucesso do mapa foi tão grande que até derrubou o blog do historiador econômico da Unicamp. Segundo ele, os números demonstram que pessoas estão dispostas a lutar contra a xenofobia e a segregação entre as regiões brasileiras. “Isso não é pouca coisa, o discurso está na sociedade brasileira há muito tempo”.

Apesar de ter recebido milhares de mensagens de ódio e preconceito, por eleitores enfurecidos, ele destaca a importância da divulgação de dados e informações corretas – para ir contra os “memes” e compartilhamentos sem estudos. “É muito triste ver como tanta gente não perde a oportunidade de disseminar discursos de ódio. Embora alguns talvez não tenham salvação, pensei que muita gente poderia estar com conclusões erradas por desinformação. Tentei ajudar na campanha contra esse ódio aos nordestinos, que não tem sentido nenhum”, disse.

“A História Econômica depende de dados e documentos para fazer uma interpretação que se aproxime da realidade, e percebi como os gráficos que estavam sendo repassados escondiam a diversidade dos números”, explica.

Para montar o mapa, Thomas usou seus conhecimentos em História Econômica (ele está terminando o Mestrado pela Unicamp e pretende cursar Doutorado) e os números dos votos válidos por estado. Depois disso, fez uma tabela no Excel e conseguiu montar pela “Formatação Condicional” os números em escala de cor – sendo o vermelho básico representado a candidata do PT e o azul básico o candidato do PSDB. A cor roxa demonstra a mistura de votos nos estados e, como percebemos, é predominante.

Com o mapa, o historiador econômico diz que gostaria de tirar o “ranço” e instigar o interesse pela política por todos – não só às vésperas das eleições, mas pelos próximos quatro anos. “Quis estimular as pessoas a desconfiarem de análises maniqueístas, bipolares – a sociedade não é assim há muito tempo. E, mais importante, quis lembrar que a eleição e o voto são uma parte muito pequena do que significa a democracia. Nossa democracia já foi interrompida por golpes militares duas vezes, temos só 26 anos de tradição democrática. Manter-se engajado e atento na política do País, buscando informações, é um elemento central para o exercício da cidadania e para a construção dessa democracia do século XXI. E discursos de ódio não terão espaço nessa construção: quanto antes conseguirmos superá-los, melhor”, defende.

Minas Gerais, a história e a vitória de Dilma

Para Thomas, ao contrário do cenário nordestino mostrado na internet, o estado de Minas Gerais tem importante participação na vitória da petista. “Na verdade, se o Aécio tivesse se garantido em Minas Gerais, seu próprio Estado, a mesma margem que conseguiu em Estados como o Acre e Santa Catarina, teria saído eleito das urnas. Mas não foi o caso e o nordeste não tem culpa de seus estrategistas de campanha terem dado MG como vitória certa”, afirma.

Como diz o próprio candidato mineiro, Aécio Neves, não há como apagar a história. E quando olhamos para ela, enxergamos a importância de Minas Gerais nas decisões eleitorais. O historiador econômico lembra que o estado sempre foi central na política – há muitos anos. “Quem não se lembra da “política do café com leite”, São Paulo e Minas se revezando no poder durante a Primeira República?”, relembra.

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Famosos comemoram vitória de Dilma: “coxinha despenca”

festa-dilma-vc-reporter-erivaldo-silvaErivaldo Silva, de Brasília (DF), exaltou o Nordeste e vibrou com a reeleição. Você também comemorou a vitória de Dilma Rousseff? Então, mande a sua foto para o canal vc repórter pelo WhatsApp (+55 11 97493.4521), ou pelo nosso site: vcreporter.terra.com.br

Foto: Erivaldo Silva / vc repórter

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Eleição no Uruguai vai para o 2º turno; 3º colocado apoia oposição

27/10/2014 at 13:45 (*Liberdade e Diversidade)

uruguaiLuiz Lacalle e Pou (esquerda) e Tabaré Vázquez. (Foto: Miguel Rojo e Pablo Bielli / AFP Photo)

Pedro Bordaberry declarou apoio a Luis Lacalle Pou, de centro-direita.
Pesquisas de boca de urna mostraram Tabaré Vázquez com até 46%.

27/10/2014

G1 / Reuters

O terceiro colocado na eleição presidencial do Uruguai, Pedro Bordaberry, declarou nesta segunda-feira (27) apoio ao candidato de centro-direita Luis Lacalle Pou no segundo turno da disputa pela Presidência contra o candidato de esquerda Tabaré Vázquez.

Segundo um boletim divulgado às 7h50 pela Corte Eleitoral, que realiza uma apuração manual dos votos, Vázquez, candidato pela coalizão de esquerda Frente Ampla, permanece à frente com 45,5% dos votos, contra 31,7% de Lacalle Pou, do Partido Nacional.

O candidato do Partido Colorado (centro-direita), Pedro Bordaberry, aparece com 13,4% dos votos, enquanto o líder do Partido Independente (centro-esquerda), Pablo Mieres, tem 2,8%.

Se estima que os resultados completos da apuração primária só sejam conhecidos ao meio-dia desta segunda-feira (27).

O plebiscito para introduzir uma reforma constitucional que pretendia reduzir de 18 para 16 anos a idade penal recebeu o apoio de 47,1% dos eleitores, mas precisava do 50% dos votos mais um para ser aprovada.

Mais de 2,6 milhões de uruguaios estavam registrados para votar no domingo na eleição presidencial. O país também definiu os 30 senadores e 99 deputados que integram o Parlamento.

A disputa

De saída do cargo, o presidente José Mujica, um ex-guerrilheiro de 79 anos, tenta devolver o poder ao seu antecessor Tabaré Vázquez. Mujica e Vázquez, de 74 anos, entregaram uma década de forte crescimento econômico, com Mujica legalizando o aborto, o casamento homossexual e a produção, distribuição e venda de maconha.

Há seis meses, a coalizão de esquerda Frente Ampla parecia ser favorita com certa folga para assegurar um terceiro mandato de cinco anos na presidência, com suas políticas econômicas pró-mercado e medidas de bem-estar social. Mas depois de uma vitória inesperada nas primárias do Partido Nacional, Luis Lacalle Pou, de 41 anos, passou a subir constantemente nas pesquisas, aproveitando o descontentamento de muitos uruguaios com o alcance das reformas liberais.

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O resultado das urnas (Leitura de almoço)

27/10/2014 at 11:48 (*Liberdade e Diversidade, Hermano de Melo)

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Hermano Melo*

Hermano de Melo 2

É provável que quando este artigo for publicado na mídia local, os resultados do segundo turno das eleições brasileiras, tanto para a escolha do governo do MS entre Delcídio do Amaral (PT) e Reinaldo Azambuja (PSDB), quanto entre os candidatos presidenciáveis Dilma (PT) e Aécio (PSDB), sejam do conhecimento de todos.

Mas isso não invalida a intenção de se fazer uma previsão sobre o que está por acontecer em 26 de outubro. O que parece estar em discussão nessas eleições cujo segundo turno se avizinha, vai muito além do que os tucanos chamam de “mudança”. Não há a priori nenhuma garantia de que uma vez alcançado o objetivo em disputa – o poder em nível estadual e federal – esses pássaros bicudos efetuem o que eles chamam de “mudança”. Eles deverão isto sim, continuar aplicando tanto em nível federal – caso Aécio Neves seja eleito – quanto local, se Reinaldo Azambuja for o vitorioso, o mesmo modelo neoliberal atualmente ensaiado em São Paulo por Geraldo Alckmin (PSDB).

Isso é ainda mais visível quando se observa o tipo de coligação que poderá levar ao governo do Estado – caso ele seja eleito – o deputado federal, pecuarista e homem do agronegócio Reinaldo Azambuja (PMDB). Por outro lado, nessa altura do campeonato – apesar da última pesquisa de intenções de votos revelar empate técnico entre os dois candidatos ao governo do Estado (51% x 49% a favor de Reinaldo Azambuja) – não há quaisquer garantias de que Delcídio do Amaral (PT) seja eleito, mesmo contando com a ajuda de Lula na quarta-feira (22) aqui em Campo Grande, MS. Se Delcídio ganhar, será uma grata surpresa para os petistas.

No que diz respeito ao embate nacional entre Dilma e Aécio, as últimas pesquisas de intenção de votos revelam que há empate técnico entre os dois candidatos, apesar de Dilma aparecer nas duas últimas pesquisas do Datafolha em primeiro lugar com vantagem numérica de quatro pontos em relação ao seu opositor (52%x 48%). Neste caso, portanto, há claros indícios de que a candidata do PT conseguiu anular em parte o carisma de seu adversário Aécio Neves e poderá, quem sabe, abiscoitar as eleições presidenciais no próximo dia 26/10. Isto, pelo menos, até serem anunciados os novos resultados de intenção de votos pelos institutos de pesquisa.

O fato, porém, é de que qualquer que seja o vencedor do pleito, eles terão que governar com ampla gama de partidos que poderão ir mais para a esquerda, caso a vencedora seja Dilma Rousseff (PT), ou para a direita, inclusive contando com o PP e o PSC (partidos de Jair Bolsonaro e Marcos Feliciano, por exemplo, caso o vencedor seja o tucano Aécio Neves (PSDB)). No entanto, é provável que qualquer que seja o resultado do pleito de domingo (26/10), o Brasil caminhe nos anos vindouros para um modelo político similar ao encontrado nos EUA (apesar dos aproximadamente 31 partidos políticos que existem por lá!), ou seja, uma direita conservadora representada pelos Republicanos (que no Brasil será encabeçada pelos Tucanos), e outra corrente de centro-esquerda que albergará partidos como o PT, PSOL, PSTU, PV e outros, mais à esquerda do espectro político, e que são representados atualmente nos EUA pelo Partido Democrata.

Mas este não deverá ser ainda o desiderato da história que se avizinha no dia 26/10 no Brasil. É que quer se queira ou não, quaisquer que sejam os resultados obtidos aqui, eles influenciarão sobremaneira a política geral na América Latina. A partir daí, por exemplo, haverá mais discussão sobre a implantação ou não de regimes socialistas atualmente vigentes em alguns países latino-americanos, como na Bolívia e Venezuela.

O mais provável é que quem quer que vença a disputa presidencial no dia 26/10, deverá realizar ampla reforma política que contemple a maior parte de setores da sociedade brasileira, mas que não dê lugar a qualquer tipo de retrocesso à direita do espectro político brasileiro. Para que isso ocorra, porém, haverá necessidade que o povo vá às ruas – agora sim, com real motivação – e exijam o retorno do País ao Estado solidário e humano, sem fome, com trabalho, saúde e educação, visto até pouco tempo ser ensaiado em alguns países do continente, inclusive aqui no Brasil. Quem sabe o recomeço não seja aqui e agora?

*Jornalista e escritor

**Este artigo foi escrito na terça-feira (21) que antecedeu o segundo turno  das eleições gerais no Brasil.

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Imprensa europeia repercute vitória de Dilma Rousseff

27/10/2014 at 11:15 (*Liberdade e Diversidade)

Dilma - discurso27/10/2014

Agencia Brasil

A vitória de Dilma Rousseff repercutiu na imprensa europeia nesta segunda-feira (27). O jornal britânico The Guardian estampa uma foto de militantes petistas comemorando os resultados da eleição presidencial e diz que a década de dominação de partidos políticos de esquerda na América do Sul se mantém com a vitória do PT no Brasil.

O espanhol El País relembra a trajetória de Dilma Rousseff e sua luta contra um câncer em 2009, e chama a petista de “a presidenta com caráter”. O diário enfatiza a pequena margem de diferença entre ela e o candidato adversário, Aécio Neves (PSDB), e diz que “um país dividido será mais difícil de governar”.

O Le Monde, da França, traz uma foto de Dilma Rousseff durante seu primeiro discurso após a divulgação dos resultados e observa que a presidenta reeleita defendeu o diálogo e a união. O jornal enfatiza a divisão do país entre esquerda e direita, diz que o PT teve sucesso na redução das desigualdades sociais existentes no Brasil, mas que, com as mudanças no cenário internacional, não conseguiu sustentar o crescimento econômico.

No exterior, quase 142 mil brasileiros votaram para presidente da República no segundo turno das eleições. A abstenção, assim como no primeiro turno, continuou alta: 59%. O candidato Aécio Neves teve 77% dos votos dos brasileiros que vivem fora do país, enquanto Dilma Rousseff teve 23%.

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Aécio e uma curiosa forma de cinismo aristocrático (Leitura pós-eleição)

27/10/2014 at 10:29 (*Liberdade e Diversidade)

AécioComo candidato sintetizou, numa frase, um interessante estratagema das elites. Implica fingir desapego ao dinheiro — mas cuidar para que toda a estrutura de desigualdade e privilégios se mantenha… 

Por Leonardo Gomes Nogueira, editor de Supressão dos Costumes Selvagens | Imagem: George GroszOs Pilares da Sociedade (1926)

Publicado em 26 de outubro de 2014 por Redação

Aécio Neves diz, com orgulho, que quando foi governador de Minas Gerais teria aberto mão de metade do seu salário. “Eu precisava dar o exemplo”, diz o candidato. Não vou entrar no mérito se isso é verdade ou não. A questão não é essa. A questão é avaliar o que estaria por trás desse discurso, aparentemente, nobre.

O que o candidato está querendo dizer, nas entrelinhas, é o seguinte: se você fosse uma pessoa de bem, desapegada como eu sou, faria o mesmo. Ou ainda: o salário não é tão importante assim, gente! Esqueçam isso! O uso da palavra “exemplo” não é por acaso.

Aécio pode abrir mão da metade ou até integralmente do seu salário. Não tenho dúvida de que ele possa fazê-lo. Pois Aécio, mais do que uma pessoa de bem, é uma pessoa de bens. Ele não depende, nem nunca dependeu de salário pra pagar as suas contas. Ele, como se sabe, é um herdeiro.

Se você não é herdeiro, desconfie desse discurso de aparente austeridade que coloca o ônus de muitos dos nossos problemas nas costas de quem vive de salário. E não estou falando dos grandes salários da República Federativa do Brasil.

Juízes federais conseguiram, recentemente, o direito de receber auxílio-moradia de cerca de 4 mil reais por mês (inclusive, o mais absurdo da história, magistrados que atuam na cidade de origem e que possuem residência própria). Se quiser saber mais um pouco sobre o tema, clique aqui. Eles ganham de auxílio o que eu não ganho de salário. Repito: não estou falando desse tipo de aberração, falo de gente comum; sem rendas vultosas ou amigos no judiciário.

O aparente desprezo de Aécio por essa coisa chamada dinheiro tem, obviamente, muitas leituras possíveis. Algumas ocultas e outras evidentes. Uma delas, e cada um decidirá se isso estaria oculto ou bastante evidenciado, é criar uma justificativa moral para o arrocho alheio.

Não é por acaso que Aécio já nomeou, por antecipação, o seu futuro ministro da Fazenda (caso ganhe a eleição, é claro). Armínio Fraga é um notório gerente de fortunas especulativas. E pelos “bons” serviços prestados, para gente como George Soros, se tornou um homem rico.

“O salário mínimo cresceu muito ao longo dos anos”, disse Fraga. Ele defende que o salário, todo o salário e não apenas o mínimo (pense nisso, caso você imagine que isso não te diz respeito: TODO o salário), deve guardar “alguma proporção com a produtividade”.

Se aceitar essa premissa, me sentirei obrigado a perguntar: e o lucro? Ele também deve estar amparado na produtividade? Deve ter algum vínculo com a realidade que o cerca? Não foi o que vimos na Europa ou Estados Unidos nos últimos anos. A despeito de um cenário de recessão (ou algo próximo disso), os lucros ficaram protegidos do mundo real que eles ajudaram a devastar. Mas sobre lucro Armínio Fraga não especula, é claro.

Gustavo Ioschpe, “especialista” em educação de uma certa “revista”, escreve (a cada greve) pedindo que os professores abandonem a sua “obsessão” por essa coisa grotesca chamada salário. Ioschpe, curiosamente, tem a mesma obsessão, da qual ele acusa os outros, por esse ponto específico de um debate tão amplo e complexo como é o da educação.

É luminoso notar que o moço, que assim como Aécio prega o desprendimento alheio, é um homem muito rico. Ele herdou o dinheiro do papai e agora usa o seu tempo livre pra disseminar o seu desprezo por essa coisa que ele tem aos montes.

Além da violência costumeira, parte dos ricos possui uma estratégia inteligente pra manter a vergonhosa concentração de renda no Brasil mais ou menos inalterada: dizem que dinheiro não é importante, mostram até certa repulsa por ele. É uma tática diversionista cínica, mas eficaz.

Os ricos, ao menos uma parte deles, darão milhões de motivos pra justificar a desigualdade social no país (que ainda é brutal). A concentração de muito, mas muito dinheiro nas mãos de uns pouquíssimos iluminados, obviamente, nunca terá relação alguma com isso. Embora essa pareça, exatamente, a raiz ou origem do problema.

Os mais despudorados ainda dirão que não existe essa coisa de “classe social”, que todo mundo é brasileiro e que, por isso, todos teríamos os mesmos objetivos. Ou seja: o dono do banco e o caixa do banco teriam os mesmos interesses na visão (totalmente desinteressada, é claro) dessa gente. Os mais espertos, por outro lado, dirão que somente com educação de mais qualidade e tal é que a desigualdade irá diminuir.

Não nego que uma melhor formação, possa ajudar nós, plebeus, a conseguirmos um trabalho mais bem pago. Mas nem a pessoa mais educada (do ponto de vista formal) poderá fugir da lógica vigente que é: rico paga menos e pobre mais imposto no Brasil. Essa distorção sacana, além de outras, é claro, é essencial pra entendermos a desigualdade em nosso país.

Países como a Suécia e a Dinamarca, sempre apontados como modelo de tudo que é bom, bonito e limpo, muito antes de criarem um sistema educacional universalizado e de qualidade, já tinham tomado medidas no sentido de diminuir as suas desigualdades sociais.

No Capítulo 8 de A Era das Revoluções (1789 – 1848), o historiador Eric Hobsbawm, com base em muita pesquisa e não em achismo (essa “ciência” tão frequente hoje em dia), escreveu que reformas da década de 1780 “aboliram o feudalismo na Dinamarca” e que por volta de 1865 esse país era, primordialmente, “de proprietários camponeses independentes” (página 246).

“Na Suécia, reformas semelhantes, porém menos drásticas, tiveram os mesmos efeitos”, garante Hobsbawm (páginas 246 e 247). Isso não significa, é claro, que os cidadãos desses países já gozassem do padrão de vida que alcançariam a partir da segunda metade do século XX.

A terra, como lembra o historiador no início do capítulo de mesmo nome, era, sem dúvida, a principal fonte de riqueza da época. “O que acontecia à terra determinava a vida e a morte da maioria do seres humanos entre 1789 e 1848”, nos lembra, na página 240, o extraordinário historiador britânico.

Esses dois países, que sempre aparecem muito bem colocados nas listas das nações com os melhores padrões de desenvolvimento, fizeram a monstruosa e temida reforma agrária há muito tempo. E como se pode ver nos dias atuais, isso levou Suécia e Dinamarca ao caos. Essas informações podem ser encontradas na 25ª edição do livro já citado (editora Paz e Terra).

Obviamente, muito da riqueza europeia é fruto do saque, inclusive ao nosso país, mas essa é outra história. O importante aqui é demonstrar que, independente do volume ou extensão dessa riqueza, os aristocratas suecos e dinamarqueses foram obrigados, pelos seus respectivos povos, ainda no século XIX, a começar a dividi-la.

Mesmo essa coisa bolivariana chamada Estados Unidos começa a sua reforma agrária em 1862. A lei que determinou isso, sancionada em 20 de maio daquele ano pelo presidente Abraham Lincoln, partia da ideia de que a terra é de quem a ocupa e trabalha nela. Para mais informações, recomendo um curto e didático texto publicado no Opera Mundi (aqui).

Nesse processo, não custa lembrar, os estadunidenses desconsideraram e massacraram os índios, que já ocupavam e trabalhavam (sem dar esse nome ao que faziam) essas mesmas terras que seriam divididas entre os recém-chegados. Além disso, os EUA presenciariam um retrocesso desse modelo ao longo do século XX.

Aécio, voltemos ao “abnegado”, pode se dar ao luxo de abrir mão de coisas mundanas como o salário. O faz como suposto exemplo de retidão. Soa, pra mim, como puro cinismo. Vou usar um termo um pouco antigo em desuso: Aécio é um demagogo.

Ele faz um voto de pobreza de mentirinha. Bem diferente do de São Francisco de Assis (que, de fato, abriu mão das suas posses). É uma estratégia baixa. Repugnante até: pretende ficar só com o voto, mas sem a pobreza.

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Aécio Neves: “combati o bom combate e cumpri minha missão”

27/10/2014 at 09:50 (*Liberdade e Diversidade)

AécioO candidato a presidente derrotado no segundo turno, Aécio Neves (PSDB), foi recebido antes de seu primeiro discurso após a divulgação do resultado sob os gritos de “Aécio guerreiro, orgulho brasileiro”. Ele afirmou que ligou para a presidente reeleita, Dilma Rousseff (PT), lhe desejou sucesso e lhe disse que “a maior de todas as prioridades deve ser unir o Brasil em torno de um projeto honrado e que dignifique a todos os brasileiros”. (Foto: Paulo Fonseca / EFE) Leia mais

Aécio Neves diz que cumpriu sua missão

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26 de outubro de 2014

TERRA / EFE

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Governo do PT inicia contagem regressiva, diz Agripino Maia

“Minha primeira palavra é de profundo agradecimento a todos os brasileiros que participaram da festa da democracia”, iniciou Aécio. Ele disse que termina “mais vivo do que nunca, mais sonhador do que nunca eu deixo essa campanha”. E terminou o discurso: “combati o bom combate e cumpri a minha missão”.

O candidato a presidente derrotado no segundo turno, Aécio Neves (PSDB), foi recebido antes de seu primeiro discurso após a divulgação do resultado sob os gritos de “Aécio guerreiro, orgulho brasileiro”. Ele afirmou que ligou para a presidente reeleita, Dilma Rousseff (PT), lhe desejou sucesso e lhe disse que “a maior de todas as prioridades deve ser unir o Brasil em torno de um projeto honrado e que dignifique a todos os brasileiros”. Leia mais

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