Dois desafios para Dilma

10/01/2011 at 11:10 (Hermano de Melo)

Hermano Melo*

Duas manchetes recentes em um dos jornais mais importantes de Santa Catarina revelam que apesar da riqueza crescente daquele estado, duas antigas pragas nacionais continuam à solta por lá: o analfabetismo e a pobreza. A primeira diz: “Estamos na contramão do Brasil – cresce número de analfabetos em SC. Pesquisa aponta que entre 2004 e 2009 a quantidade de pessoas que não sabe ler nem escrever aumentou 14% no estado, enquanto que o número caiu 7% no país”. A segunda fala sobre o mapa da pobreza e diz que “Santa Cecília é a única cidade catarinense que aparece entre as mais miseráveis do Brasil, segundo levantamento do governo federal”. (Diário Catarinense, 22/12 e 26/12/2010).

Sobre o analfabetismo em SC, uma análise do Instituto de Economia Aplicada (Ipea), baseada em dados de Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios feita anualmente pelo IBGE, revela que entre 2004-2009 cerca de um milhão de pessoas deixaram de ser analfabetos no país. As maiores quedas foram registradas no Nordeste – 22,4 para 18,7%, e Norte – 12,7 para 10,6%%, e o Amapá passou a ter a menor taxa de analfabetismo do Brasil – 2,8%, com redução de 66%. Apesar da queda nacional, cinco estados tiveram crescimento no número de analfabetos: Acre, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Santa Catarina (SC). Em SC, o número de analfabetos aumentou em 29.339, totalizando 238.213 mil pessoas. Os dados revelam, no entanto, que o crescimento foi registrado somente na faixa de idosos com 65 anos ou mais (Vanessa Campos/DC- 22/12/2010).

Segundo Paulo Corbucci, pesquisador do Ipea, dois fatores contribuíram para o crescimento na faixa mencionada: o aumento da expectativa de vida da população e o envelhecimento das pessoas que em 2004 estavam na faixa de 60 a 64 anos; e a migração de pessoas de outros estados para as cidades catarinenses. E completa: “Quando aumenta o número de analfabetos, é preciso aumentar o investimento na área”. Na avaliação da Secretaria de Educação de SC, o número de analfabetos idosos aumentou por causa do crescimento na expectativa de vida da população catarinense. Mas a coordenadora de Educação de Jovens e Adultos do estado, Maria das Dores Pereira, admite que, mesmo com o Programa Brasil Santa Catarina Alfabetizado, a meta de alfabetização de 30 mil por ano está longe de ser alcançada. (D.C., 22/12/2010). 

Em relação ao mapa da pobreza, a inclusão de Santa Cecília, um pequeno município do meio-oeste catarinense, a 290 km de Florianópolis e população em torno de 16 mil habitantes, é também um fato inusitado. A reportagem inicia assim: “A presidente eleita Dilma Rousseff não conhece Santa Cecília. O município catarinense fica no meio-oeste do estado e o mais perto que ela chegou, durante a campanha eleitoral, foi Florianópolis e Joinville. Mas a realidade da cidade tem muito a ver com o futuro governo, especialmente quando o assunto é erradicação da pobreza. Para Dilma tornar concreta a promessa, terá de mudar a realidade das famílias cecilienses”.

No município, a dependência econômica da madeira é apontada como uma das causas do empobrecimento da população. Para o secretário de administração e finanças de Santa Cecília, Francisco Inácio Luvisa, “há uma extensa área de plantio de pinus e cerca de 30 serrarias no município. O problema é que a matéria-prima sai bruta daqui para outros municípios”. Lá são 1.721 famílias cadastradas e, levando em conta a média de cinco pessoas por família, pelo menos metade da população recebe algum tipo de benefício do governo. Somente no Bolsa Família são 650 famílias cadastradas. Apesar de o município fazer parte do Mapa da Pobreza, o estado está bem posicionado no ranking. Enquanto o custo médio para eliminar a pobreza no Brasil é de R$ 9,33 por habitante/mês e em alguns estados (Alagoas) chega a R$ 22,21, em SC é de R$ 2,78. Outro dado importante na reportagem é que existiam no país até o final de 2008, cerca de 18,5 milhões de pobres (renda familiar mensal per capita de até R$ 140) e 12,4 milhões de indigentes (renda familiar mensal per capita de até R$ 70,00), mas houve uma queda significativa desses contingentes no período de 2001-2008 (D.C., 26/12/2010).

Diante das reportagens do Diário Catarinense e do discurso de posse da presidente Dilma Rousseff, é de se prever que, além de ter como uma das principais metas de seu governo a eliminação da pobreza, ela terá que se debruçar também sobre outra mazela que envergonha o povo brasileiro nos dias de hoje: o analfabetismo (vide o episódio do Tiririca!). Quanto à pobreza, a nova ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, foi enfática ao tomar posse no último dia 02/01/2011: “A erradicação da pobreza é o objetivo central que assumimos aqui e agora”. Em sua despedida do cargo, por outro lado, a ex-ministra Márcia Lopes destacou o fato do Bolsa Família ter se tornado o maior programa de transferência de renda do mundo. “Superamos a idéia de políticas descontínuas, fragmentadas e pequenas”, afirmou, acrescentando que o ministério ganhou a credibilidade e a confiança de parceiros. “Não é a toa que estamos assistindo a queda da desigualdade e o movimento forte da economia”, disse.

Ufanismo à parte, uma iniciativa da atual administração de Palhoça-SC pode ser o caminho para pôr um ponto final no analfabetismo no município (6%) e, quem sabe, servir de modelo para o resto do país. O programa “Alfabetizador Amigo”, da Secretaria Municipal de Educação e Cultura, pretende alfabetizar o maior número de pessoas possível. “A Secretaria irá até a comunidade buscar o alfabetizador e o analfabeto. Eles devem se conhecer. Assim não é o professor que recebe o aluno na escola, é o aluno que recebe o professor em sua casa”, diz a Secretária de Educação, Jocelete Silveira dos Santos. O programa irá atender pessoas maiores de 15 anos, não alfabetizadas. Além da certificação de escolaridade, o aluno irá receber cursos profissionalizantes e inclusão digital. “Queremos deixá-lo apto ao mercado de trabalho para a região da Grande Florianópolis”, diz ela. O lançamento do programa aconteceu em 14/12/2010, no gabinete do Prefeito e o início das aulas está previsto para o dia 14 de fevereiro de 2011. No mais, Floripa continua linda, embora os cães continuem nas ruas do mesmo jeito!

*Professor, Escritor e Acadêmico de Jornalismo da UFMS – Direto de Floripa-SC.

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6 Comentários

  1. cabreira said,

    Pois é, meu amigoi! A gente demora para entender que “beleza não enche a mesa”. A fome anda ao lado do analfabetismo. E o Brasil inteiro não se toca!

    • Hermano Melo said,

      É isso aí,meu mestre.
      Forte abraço,
      Hermano.

  2. Miriam Raimundo da Silva said,

    Olá fiquei feliz por mencionar o Programa Alfabetizador Amigo, sou a coordenadora. Estamos otimistas, esta sendo um grande desafio, pois é inovador. Esperamos realmente ser exemplo positivo e esperamos estender o programa aos municípios que tem mesma preocupação, erradicar o analfabetismo no país.

    • Hermano Melo said,

      Ok, Miriam,parabéns pelo programa.
      Também esperamos que dê certo.
      Grande abraço,
      Hermano.

  3. Bruno Melo said,

    Prezado,

    Questiono os dados. Não acredito nos índices. É muito pior. Bem sei que as coisas não mudam num passe de mágica. Só não acredito na forma de medir, principalmente quando se trata de variáveis sociais. Não confio nos termômetros, nem em quem os utiliza.

    Apesar disso, sei que algo tem que ser publicado, números têm que ser comparados. É bom achar que essa ideia lá em Palhoça/SC vai ser boa, vai resolver o problema, ou pelo menos aliviar as coisas. Pode contribuir para a re-eleição do Prefeito, a manutenção dos cargos de seus amigos, essas coisas que não estão nos índices.

    Se Floripa continua linda, Recife também. Só que os cães daqui estão armados !

  4. MARCUS said,

    Sou cecililense de nascimento, tenho minha empresa aqui, e discordo dos dados publicados, acho que foi materia paga, outra coisa, pesquisei e pesquisei bastante para encontrar o tal mapa da pobreza, não o achei, o que achei foi pelo menos trinta e tres cidades de nosso estado com indices como IDH bem piores que o nosso, o dado mais relevante que encontramos eh o mapa da pobreza do IPEA, onde apenas quatro municipios de SC estão com médio indice de pobreza(Passos Maia, Entre Rios, Cerro Negro e Timbó Grande), sendo que em nosso Estado todos os demais municipios inclusive Santa Cecilia, apresentam baixo indice de pobreza, ai eu faco a pergunta, a quem interessa que Santa Cecilia seja a mais miseravel do Sul do Brasil, por favor, alguem me responda

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