O trator e o laranjal

06/11/2009 at 09:15 (Hermano de Melo)

Fonte: Jornal Nacional, 05/10/2009 – G1.com.br

Hermano de Melo*

Na noite de segunda-feira (05/10/2009), o Jornal Nacional da TV Globo mostrou imagens captadas de um helicóptero no momento em que um trator conduzido por lideranças do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), derrubava uma fileira de pés de laranjas da fazenda Santo Henrique, da Cutrale, em Iaras, interior de São Paulo. Calcula-se que de 3 a 7 mil pés de laranjas foram destruídos de um milhão plantados. Na ocasião, a coordenadora do MST, Claudete Pereira de Souza, justificou assim a ação: “Não destruímos nada, retiramos os pés de laranja para garantir o plantio de feijão, porque ninguém vive só de laranja”. As imagens, porém, foram chocantes e serviram de munição para os que não querem ver a reforma agrária implantada no Brasil.

A reação foi imediata. No dia seguinte, a justiça de São Paulo determinou a reintegração de posse da fazenda invadida pelas 250 famílias de Sem-Terra desde o dia 28 de setembro. Tanto o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, quanto o presidente do INCRA, Rolf Hackbart, condenaram a ação do MST.“Uma imagem grotesca, injustificável sob qualquer ponto de vista”, disse Cassel. Hackbart acrescentou: “O movimento tem errado muito e espero que uma situação grotesca como essa o faça refletir sobre suas ações”. E o presidente Lula classificou o ato do MST como de “vandalismo” (JC Online, 07/10/2009).

Mas a reação maior se deu no Congresso Nacional. A bancada ruralista recolheu assinaturas em nova tentativa de abrir a CPI para investigar o repasse de dinheiro público ao MST. Senadores da oposição e governistas criticaram no plenário a ação do MST. A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidenta da CNA (Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária), afirmou: “Isso é mais uma ação do MST irracional e ilegal e com financiamento público que é o que mais traz indignação à população”. O presidente do STF, Gilmar Mendes, condenou a invasão da fazenda Santo Henrique e disse que “não pode haver nenhuma tolerância com quem desrespeita a lei e que o governo corte qualquer tipo de ajuda a entidades que cometem crimes”.

O MST, por outro lado, argumenta que as terras pertencem de fato à União, mas são usadas ilegalmente há dez anos pela Cutrale, uma das maiores produtoras de suco de laranja do Brasil. Em nota, o INCRA condenou a ação dos sem-terra, mas disse que reivindicou as terras em 2006 e que aguarda decisão da justiça federal. A multinacional Cutrale, por outro lado, apresentou documentos à Justiça de São Paulo em que afirma ser proprietária da área e argumenta que a terra é produtiva. Mas o MST rebateu: “A produtividade da área não pode esconder que a Cutrale grilou terras públicas”.

Coincidência ou não, em 13/10/09, a CNA apresentou resultados de uma pesquisa encomendada ao Ibope que revelou que 47,7% das propriedades de assentamentos rurais consolidados não produzem o suficiente nem para a família e que 75% dos assentados não têm Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). A presidenta da CNA, senadora Kátia Abreu (DEM/TO),voltou à carga: “Estamos criando verdadeiras favelas rurais, distantes de todas as políticas públicas, já que tudo no campo custa mais caro”. Mas tanto o INCRA quanto o MST afirmam que a amostragem foi mal feita e é insuficiente para tirar conclusões, porque as pessoas ouvidas representam apenas 0,1% das 920.861 famílias assentadas.

É evidente que a ação do MST foi infeliz e injustificável. Mas é preciso entender que o movimento dos trabalhadores sem-terra não se constitui num bloco monolítico e está sujeito a erros. É provável também que no interior do movimento existam “olheiros” sempre dispostos a colocar o MST em maus lençóis perante o governo federal e a opinião pública. Senão,como explicar a presença do helicóptero do serviço de inteligência da PM sobrevoando o local no momento exato em que o laranjal era destruído pelo trator? Sabe-se que o cinegrafista amador Flávio Jun Kitazume filmou as imagens uma semana antes de serem veiculadas no Jornal Nacional. Ele é oficial da PM em Bauru, SP, e foi afastado da cidade em 2007 porque integrava um grupo de policiais que cometiam sérios abusos contra os direitos humanos (site “Vi o mundo”, de Luiz Carlos Azenha, 08/10/09).

Outro ponto importante é saber se a área em questão é de fato da Cutrale e se é produtiva. Segundo texto recente do doutor em Geografia, Ariovaldo Umbelino de Oliveira (Brasil de Fato, 22-28 de outubro de 2009), a Cutrale possui 30 fazendas em São Paulo e Minas Gerais, totalizando 53.207 ha. Desses, seis delas de 8.011 hectares foram classificadas como improdutivas pelo INCRA, desde 2003, e das 30 fazendas relacionadas não consta a área de Iaras. Isto significa que a fazenda Santo Henrique não é de propriedade da Cutrale – é grilada!

Por fim, não se pode analisar o episódio de Iaras isolado de seu contexto. A cena do trator devastando o laranjal vai muito além de uma simples tentativa de “satanização” do MST no Brasil. Ela se encaixa em um conjunto de “sinais de fumaça” que indica uma forte guinada para a direita nos atuais cenários políticos interno, latino-americano e internacional, particularmente após o fim da crise financeira mundial. Nesse rol, se encaixam, dentre outros: o tratamento dado à questão indígena e agrária no Brasil e no MS, a direitização crescente do governo Lula-PMDB, a assunção de prefeitos e governadores ultraconservadores, o ressurgimento de figuras políticas do passado – leia-se Ronaldo Caiado e outros, o golpe de Estado em Honduras, o envio de tropas pelos EUA ao Afeganistão, a demonização dos governos de Chávez na Venezuela e de Ahmadinejad no Irã. Não é de admirar, portanto, que a Reforma Agrária no Brasil caminhe em passos tão lentos, em passos de tartaruga.

* Médico-Veterinário, escritor e acadêmico de jornalismo da UFMS.

Artigo publicado em 05 de novembro de 2009, no Correio do Estado.

*****

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3 Comentários

  1. Clarissa Melo said,

    Muito bom o artigo!
    É interessante expor deste modo como você fez vários aspectos imbricados nos jogos de poder que existem em todas as instâncias das sociedades. É fato dado e explícito que se tenta sempre manter as antenas ligadas para captar incoerências, “erros” dos movimentos que estão às margens da sociedade. Além disso, sabemos dos mecanismos dos “poderosos” de mudar a direção dos fatos de acordo com seus interesses, vide 11 de setembro e todas as causas atribuídas as guerras iniciadas pelos “países desenvolvidos”. Poderíamos dizer que para esses países, “o real é tão imaginado quando o imaginário”, mudam-se os fatos, atribuem-se culpas e responsabilidades…
    Por outro lado, vivemos um período histórico em que o mundo está em pedaços, fragmentado, recortado e entrecortado – como diria Clifford Geertz, antropólogo que aborda entre outros assuntos a discussão em torno do conceito de cultura. Tanto não podemos falar em “cultura” como um conceito que abrange um país, um Estado, bem como grupos, pois sabemos de suas distinções internas e diferenciações. Assim como não podemos falar em “sociedades indígenas”, “povos indígenas”, e classificá-los com algum adjetivo característico, pois existem diferentes povos, com diferentes línguas e com diferentes costumes…
    Enfim, acredito também, que temos que olhar todos os lados da moeda, como bem faz você…Na antropologia, uma boa etnografia é aquela que leva em conta o que dizem os sujeitos sobre o que fazem, o que nós observamos sobre o que fazem, e o que querem dizer quando dizem aquilo que dizem sobre o que fazem…confuso?
    Explico… muitos fatos chegam aos nossos ouvidos, mas temos que estar sempre atentos para observar a realidade e todas as relações imbricadas, assim como os interesses envolvidos em dizer certas coisas para que cheguemos a certas interpretações. Muitas idéias e pensamentos estão escondidos nas entrelinhas…
    Parabéns por captar todos esses jogos de poder e interesses distintos!

    Clarissa Melo
    Antropóloga

    Responder

  2. Hermano said,

    Valeu, Cla.
    Um abraço.
    De seu pai,
    Hermano.

  3. Sem título « Liberdade! Liberdade! said,

    […] Para quem não se lembra ou quer refrescar a memória em relação aos contextos originários das duas fotos, recomendo a leitura dos artigos do Hermano “Colarinho Branco” e “O trator e o laranjal“. […]

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