Kurussu Ambá

07/08/2009 at 23:20 (Hermano de Melo)

índioHermano de Melo*

Esse é o nome guarani da aldeia Cruz Sagrada situada em Coronel Sapucaia, na divisa de Mato Grosso do Sul com Capitão Bado, no Paraguai, a 383 km de Campo Grande. Na verdade, não há ali uma aldeia indígena propriamente dita, mas cerca de 150 índios da etnia guarani-kaiová – inclusive 70 crianças de zero a 8 anos de idade e 18 ainda bebês – que vivem acampados em barracos de lona, às margens da Rodovia MS 284, na altura do km 18, entre a cidade de Coronel Sapucaia e Amambaí no Mato Grosso do Sul. Ali eles passam por toda sorte de necessidades – isolamento, fome, frio, falta de atendimento médico, etc. – enquanto aguardam a demarcação das terras indígenas pela FUNAI (Jacqueline Lopes, Midiamaxnews, 24/07).

A história é mais ou menos a seguinte: há três anos esses guaranis disputam uma área de 2,2 mil hectares da Fazenda Madama de propriedade de Antonio e Maria Cecília Vendramini. Ano passado, em decisão polêmica, líderes indígenas que comandaram a segunda ocupação da área em maio de 2007 (a primeira aconteceu em janeiro daquele ano), foram condenados a 17 anos de prisão pelo juiz da 2ª Vara de Amambaí, Thiago Nagasawa Tanaka, acusados de extorsão, roubo e seqüestro e cárcere privado. O conflito terminou com jagunços atirando contra os índios e na confusão a índia Xuretê (Julite) Lopes, 70, foi atingida por tiros e morreu. Os assassinos ainda não foram identificados e os índios foram então para a beira da rodovia MS-284, a 30 quilômetros da área urbana, onde permanecem até hoje.

O que acontece em Kurussu Ambá é só a ponta do iceberg de um problema que aflige o Estado de Mato Grosso do Sul e o Brasil como um todo e que necessita de uma solução urgente: a demarcação das terras indígenas. Na matéria citada acima, intitulada, “Ventania deixa índios ao relento sob frio de 0ºC”, percebe-se claramente o grau de acirramento do conflito existente entre fazendeiros e indígenas a partir dos comentários feitos ao final da reportagem. O primeiro leitor diz: “(…) nessa área que os indígenas estão acampados nunca foi aldeia nem sequer um dia, porque antropólogos não levam esses índios pra suas casas vocês querem tanto esses indígenas, porém, lá eles terão cama, roupa limpa e chuveiro elétrico”. O segundo, argumentou: “(…) Por que esses índios não vão trabalhar, hein?…Ah esqueci, os brancos tomaram as terras deles…pura demagogia”. E o terceiro foi mais longe: (…) “É muito triste ver a situação desses índios, porém, é mais triste ainda saber que proprietários de terras, que as adquiriram de forma legal, serem prejudicados com uma falsa premissa de que o índio precisa é de terra, isso é uma mentira!”.

Além de contribuir ainda mais para o acirramento de posições entre brancos e índios, esses tipos de comentário caberiam num período de franca expansão territorial quando os índios eram vistos como um empecilho na consecução desse objetivo. Mas o que dizer nos dias de hoje? O que parece ocorrer é que essa “nova visão” sobre a questão indígena combina perfeitamente com o modelo neocapitalista, oligárquico e positivista que está sendo implantado no Brasil rural, apesar de algumas políticas sociais implementadas pelo governo Lula. Uma demonstração disso é o artigo recente (03/08) publicado aqui e intitulado “A destruição criadora”, do veterinário Augusto Araújo, baseado na obra de Joseph Schumpeter, onde ele diz: “Parte dos indígenas brasileiros ainda estão em um processo de “destruição criativa”. O seu antigo modo de vida, que era o que toda a Humanidade possuía há uns 5 mil anos atrás, foi confrontado com um modo de vida que, sem sombra de dúvida, é mais eficiente para manutenção da espécie”.

É claro que deve haver sempre uma constante renovação e substituição do velho pelo novo, quer se trate de humanos ou de tecnologias, mas isso não significa extinguir o antigo, o que havia antes! Senão o que seria dos monumentos históricos, das obras de arte antigas, das múmias e das tumbas dos faraós egípcios, do Coliseu romano, das grandes navegações chinesas, portuguesas e espanholas do século XV, dos grandes vultos históricos, etc.? Neste caso, a preservação das etnias e dos costumes indígenas é fundamental não só para o Brasil, mas para o mundo civilizado e a demarcação de suas terras não significa qualquer retrocesso evolutivo da espécie humana. Significa, isto sim, respeitar as tradições dos antepassados e reconhecer a sua capacidade de intervir no futuro da humanidade, mesmo nos dias de hoje. E de uma coisa você pode estar certo, caro Augusto: Se realmente Schumpeter se referiu à “destruição criadora” no contexto em que é colocado em seu artigo, ele cometeu, de fato, um erro imperdoável!

PS. Este artigo foi escrito antes da decisão do TRF – 3ª região de São Paulo que suspendeu o início dos trabalhos de identificação e demarcação das terras indígenas no MS, mas a luta para que isso ocorra o mais breve possível deve continuar.

*Escritor e estudante de jornalismo

**Artigo publicado no jornal Correio do Estado em 14 de agosto.

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1 Comentário

  1. Hermano said,

    Por favor, leiam Joseph Schumpeter ao invés de Joseph Schumpter, como consta no artigo.
    Um abraço,
    Hermano.

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