Onda Verde

01/06/2009 at 12:33 (Hermano de Melo)

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A expressão “Onda Verde” pode significar muitas coisas: a movimentação da torcida palmeirense na arquibancada do Pacaembu em dia de jogo contra o Corinthians; o recém-lançado tênis biodegradável da Brooks, o “BioMoGo”, que quando posto em aterros sanitários, em condições especiais, leva 20 anos para se degradar; uma entidade ambientalista de Tinguá, no Estado do Rio de Janeiro que se dedica à educação ambiental de jovens e adultos; o programa “Wal-Mart na onda verde”, que tem como meta transformar, até 2012, todos os hipermercados dessa rede varejista em lojas ecoeficientes; e várias iniciativas encabeçadas por instituições governamentais e não-governamentais (ONGs) que visam preservar o meio ambiente e evitar o aquecimento global.

Mas a “Onda Verde” tratada aqui não tem aparentemente qualquer relação com as citadas acima e está sendo implementada em várias cidades brasileiras, inclusive em Campo Grande: é a sincronização automática e progressiva dos semáforos. Com ela, espera-se que ao invés de um trânsito modorrento e “picadinho” onde o motorista, após passar por um sinaleiro verde, se depara logo em seguida com um vermelho e depois mais outro vermelho,tenha a chance de cruzar vários semáforos de uma só vez e, todos eles, “verdinhos da silva”! Daí a denominação supostamente ecológica de “Onda Verde”.

A reivindicação, porém, é antiga. Há sete anos (02/05/02), aqui mesmo neste espaço, fez-se a pergunta:“Quando é que a sincronização progressiva dos semáforos será implantada em Campo Grande?” A resposta somente chegou em 21/05/09, com a instalação do primeiro equipamento de sincronização de semáforos no centro da cidade. De acordo com a Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito), nesta primeira fase, serão sincronizados sinaleiros de 90 cruzamentos e a previsão é de que os trabalhos estejam concluídos em 60 dias. O diretor-presidente da Agetran, Rudel Trindade Júnior, resumiu assim a importância da “Onda Verde”: “Nós vamos ter um maior fluxo no trânsito, o motorista chegará mais rápido aos lugares e gastará menos combustível. Outro ponto positivo é a redução no número de acidentes, que hoje são causados quase sempre por motoristas que ultrapassam o sinal vermelho, além da redução na emissão de poluentes, porque os carros ficam menos tempo parados”.

É bom que se diga, no entanto, que, apesar da aprovação quase unânime da “Onda Verde” nas diversas cidades brasileiras onde foi implantada, ela não deve ser vista como uma panacéia, capaz de resolver todos os problemas do trânsito da Capital. Primeiro, porque muitos cruzamentos vão continuar no sistema antigo e, portanto, nesses locais tudo continuará como dantes. Depois, o sistema privilegia principalmente os motoristas, mas talvez complique ainda mais a vida dos pedestres. É preciso então reativar as faixas de passagem de pedestres, colocar botoeiras em pontos estratégicos e solucionar a questão da travessia em esquinas onde os carros vêm de todos os lados. Em Natal, RN, por exemplo, onde o sistema foi implantado há algum tempo, os motoristas reclamam da falta de retornos e do número excessivo de botoeiras, e dizem não sentir os benefícios da novidade. Mas em Campos, RJ, a novidade “colou”.

A prioridade do trânsito na maioria das cidades brasileiras, porém, não deve se restringir apenas à implantação de “Ondas Verdes”, mas também de decidir sobre o que fazer com o número cada vez maior de carros e motos nas ruas! Conforme dados do DETRAN/MS, Campo Grande recebe, em média, 72 novos veículos particulares por dia e a frota no final de abril/09 era de 291.240 carros, o que representa uma média de quase dois habitantes por veículo! Em conseqüência, há um aumento no número de acidentes de trânsito com vítimas fatais, maior deterioração do asfalto (há tempos a Prefeitura não cuida disso), um desgaste precoce das peças dos veículos, e um aumento da poluição do ar e do estresse na população! Daí a necessidade de se privilegiar o transporte coletivo ao invés do individual, o solidário em vez do solitário, além de faixas exclusivas para ônibus e ciclovias protegidas!

Em recente tirinha do “Recruta Zero” no jornal local, o sargento pergunta o que ele está fazendo recostado numa árvore e sem fazer coisa alguma, e o “Zero” responde:“Combatendo o aquecimento global, quanto menos energia uso, menos consumo”. Taí um princípio que deveria ser seguido pela população brasileira nos dias de hoje, nas cidades de médio e grande porte, mesmo após a implantação da “Onda Verde” – desacelerar, ficar quieto! Mas como fazer isso quando se está subindo a ladeira do desenvolvimento?

* Professor, escritor e acadêmico de jornalismo.

**Notícia publicada em 01/06/2009 no Correio do Estado.

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3 Comentários

  1. Laís said,

    É muito engraçado como você se acostuma com o estilo da pessoa escrever. Nem precisei ler o nome do autor pra saber que esse era o ilustríssimo Sr. Hermano de Melo (que saudades!!!).

    Bom, mas de qualquer forma estou passando aqui pra dizer que ainda me lembro de vocês! (Todos os dias). E, também, que sinto muita saudade!!!

    Parabéns Hermano, pelo texto. Se bem que, o que deixou o seu texto ainda mais bonito, foi o nome: Palmeiras.

    Ondas Verdes…

    =P

    Saudades!

    • Hermano said,

      Oi Laís!
      Que bom ter notícias de você. Grato pelas palavras elogiosas ao artigo e a mim. Um abração procê.
      Saudades,
      Hermano.

  2. sebastião said,

    Ola,sou estudante de Física e desejo informações sobre: como posso elaborar uma onda verde em minha cidade. O meu
    Email:sdbdouglas@gmail.com.br

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