Ditabranda*

07/03/2009 at 00:01 (Hermano de Melo)

 Charge de Carlos Latuff. Fonte: Blog Pensar Enlouquece (Pense Nisso).

Charge de Carlos Latuff. Fonte: Blog Pensar Enlouquece (Pense Nisso).

Hermano Melo *

Até bem pouco tempo, seria inútil procurá-la nos dicionários. Da mesma forma, seria perda de tempo pesquisá-la na versão portuguesa da enciclopédia aberta, a “Wikipédia”. E ao buscá-la no Google, o famoso site de consulta americano, ele vai repetir antes por duas vezes “Você quis dizer: dieta branda, não é?” para em seguida defini-la adequadamente. Ou seja, tudo indica que a palavra-título acima –“Ditabranda”– não existia até recentemente no vocabulário tupiniquim e que se trata, na verdade, de um neologismo!

Pois bem, o nascimento de tal neologismo aconteceu em 17/02/09, num editorial da “Folha de São Paulo” intitulado “Limites à Chávez”, e que provocou a maior celeuma na mídia e no seio da intelectualidade brasileira. É que ao comentar sobre uma provável ditadura a ser implantada por Hugo Chávez, na Venezuela – após a vitória dos partidários do presidente no plebiscito de 15/02/09, com 54,9% dos votos, o que lhe permitiria, em princípio, a reeleição ad eternum – o editorial da Folha criou uma nova classificação para as ditaduras que ocorreram na América Latina: as ditaduras realmente duras – as “ditaduras”, tipo Alberto Fujimori no Peru e Fidel Castro em Cuba; e as “ditaduras moles” ou “brandas” – as “ditabrandas”, como a que se deu no Brasil de 64-85!

E o próprio editorial da “Folha” justifica assim a sua já famosa classificação:“Mas, se as chamadas “ditabrandas” – caso do Brasil entre 1964 e 1985 – partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à justiça – o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente”. Diante de tal assertiva, a chiadeira dos leitores da “Folha” foi geral. Um deles perguntou: “A partir de que ponto uma “ditabranda”, um neologismo detestável e inverídico, vira o que de fato é? Quantos mortos, quantos desaparecidos e quantos expatriados são necessários para uma “ditabranda” ser chamada de ditadura?” Em resposta, eis o que disse a “Nota da Redação da Folha”: “Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional”.  É mole?

Mas, como disse recentemente (27/02/09) o jornalista Gilson Caroni Filho em artigo no “Observatório da Imprensa”: “A “ditabranda” (brasileira) teve duas constituições e não respeitou nenhuma delas. Suas “ditabrandas” formas de convencimento incluíam torturas de vários tipos: espancamentos, telefones (tapas simultâneos nos dois ouvidos), corredor polonês, pau-de-arara, choque elétrico, afogamentos, entre tantas outras “técnicas”. E o colunista do “Direto da Redação”, Rui Martins, acrescenta: “Negar ou tentar amenizar os anos da ditadura militar (no Brasil), considerando-a ter sido uma ditadura branda, é cometer crime de negacionismo. É tentar minimizar os malefícios do período discricionário com a intenção de deixar aberta a porta para novas ditaduras. “É querer reescrever a história, para logo mais transformar os criminosos em heróis e as vítimas em culpados”.

Dias atrás, o bispo inglês Richard Wiliamsson acabou expulso da Argentina e está sendo obrigado pelo Vaticano a se retratar publicamente por negar a existência do Holocausto e das câmaras de gás na Alemanha Nazista. Isso apesar da farta documentação existente mostrando os horrores perpetrados pelas tropas de Hitler & Cia contra os judeus nos anos de chumbo que antecederam a Segunda Guerra Mundial. É evidente que não dá para comparar o drama vivido pelos judeus durante o Holocausto com aquele vivenciado pelos opositores do regime de exceção imposto ao Brasil em 64. Mas fica claro que o editorial da “Folha” não poderia, em hipótese alguma, estabelecer uma suposta gradação entre as ditaduras latino-americanas “brandas” e “duras”, porque todas elas foram igualmente violentas e representaram na época uma ruptura significativa nos sistemas político e institucional vigentes nesses países!

E se a tal moda de “ditabranda” lançada pela Folha “pega”, é muito provável que, dentro em breve, os que sofreram os horrores perpetrados pelos militares no Brasil, entre 64 e 85, ao invés de estarem diante dos tribunais exigindo justas reparações por danos morais e materiais que lhes foram causados na ocasião, estarão se curvando diante daqueles que, um dia, foram seus algozes, ou mesmo seus próprios “dedos-duros”. Quem sabe, isso já não esteja ocorrendo durante uma simples caminhada no estádio Belmar Fidalgo, hein?

* Texto publicado no Correio do Estado de 05/03/2009

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11 Comentários

  1. keyciane said,

    Essa história deriva daquela velha mania que a gente tem de achar que a grama do vizinho é mais verde… até na hora da desgraça a gente acha que os outros são “melhores” que a gente! Quanta tolice… e essa alfinetada do final, hein? Parabéns pelo texto Hermano!

  2. Flávio said,

    Entre tantas novas palavras, me lembrei de uma é antiga e velha conhecida da gente, Vergonha! Eu tenho vergonha pela nossa Ditadura, pela Ditadura dos outros!
    Tenho vergonha pelo jornal que escreveu o editoral!

  3. Rubens Luis Urue said,

    Caro Herman, somente elogios ao seu artigo. Aliás, antes de mais nada, venho cumprimentar todos amigos acadêmicos, assíduos no blog. Por motivos pessoais, dei uma ‘ausentada’ desse canal de informação que, a cada dia, se supera no quesito qualidade. Parabenizo a(os) responsável(is) pela ‘repaginada’ a que o blog foi submetido. Quanto ao texto, Hermano, é assustador como nossa história (da política brasileira e todas as outras) tende a ser negada, esquecida em algum canto poirento de nossas memórias. Quem sou eu pra discutir política? Creio que não tenho uma ‘base sólida’ pra expressar-me de modo interiramente lúcido, mas puxo esse ‘mal do esquecimento tupiniquim’ para Brasília. As pizzas e mais pizzas do Senado, Congresso Nacional e por aí vai.. Não à toa, o Brasil é o país que mais consume tal massa no mundo..

  4. Rubens Luis Urue said,

    “Algum canto poeirento..”

  5. Rapha Potter said,

    É inacreditável não é Herman??
    Tantos absurdos que temos de ler e ouvir nessa vida…
    Parabéns pelo texto Herman!

    e que um dia as pessoas sejam melhores.

  6. Flávio said,

    “…um veículo jornalístico, cuja principal matéria-prima é a palavra, não poderia jamais relativizar fatos históricos e fartamente documentados como todos os crimes cometidos pela ditadura brasileira, banalizando tantas mortes e torturas com um trocadilho estúpido e inconsequente”. (Alexandre Inagaki)

    E eu cntinuo com vergonha!

  7. Hermano de Melo said,

    É isso queridos (as) colegas.
    Espero que tais coisas realmente fiquem apenas no passado e não retornem.
    Kisses procês todos,
    Herman.
    PS. E para vosmecês Keyci, Potter, e demais meninas da tchurma, Feliz Dia Internacional da Mulher!!!

  8. Evelin said,

    Ditabranda é um cola brinco no cara que inventou esse neologismo sem vergonha.

    Gostei da nova cara do blog, vermelho e preto estava meio “from hell”.

    =]

  9. matheus cabral said,

    Sabe, Hermann, eu prefiria o outro final!!! UAHSUHASUHASUH Mas, mesmo com esse, o texto está espetacular! Parabéns!

  10. matheus cabral said,

    “From hell” é foda heein, Evelin. Pior de tudo é que eu ri! UAHSUAHSUAHS

  11. keyciane said,

    “Folha” teria perdido 2 mil assinantes, diz o blog do Sakamoto
    (Texto de Rodrigo Viana, extraído de http://tudo-em-cima.blogspot.com/)

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