Uma estrada para Luiza*

25/02/2009 at 00:01 (Hermano de Melo)

As curvas da MS-Luiza Brunet. Que tal?

As curvas da MS-Luiza Brunet. Que tal?

Hermano de Melo*

Homenagem é uma palavra que define retribuição de honra, agradecimento, tornar público com um ato de gratidão algum favor prestado a alguém. O ato de homenagear é muito antigo, pois desde os primórdios as civilizações tribais pré-históricas homenageavam com rituais seus guerreiros e os seus Deuses (Wikipédia). Mas isso parece não ter mudado muito nos dias atuais. Homenageia-se a tudo e a todos, muitas vezes, sem qualquer critério ou cuidado! Há, no entanto, uma diferença fundamental entre os tempos de ontem e os de hoje: antes se sabia exatamente porque determinada pessoa estava sendo homenageada, enquanto que hoje nem sempre é possível estabelecer isso com a devida clareza.

Não se está falando aqui, é claro, daquelas homenagens clássicas e merecidas que são dirigidas às mães, aos professores, aos mortos, aos vultos históricos, aos grandes gênios da humanidade,etc. Alguém em sã consciência, por exemplo, negaria uma homenagem a Albert Einstein, Charles Darwin, Leonardo da Vinci, Mozart, Martin Luther King, Machado de Assis, Chico Mendes, Ayrton Sena, Helder Câmara, Madre Tereza de Calcutá, Lady Diana, e tantos outros?  O que se contesta são aquelas homenagens vazias e sem sentido, geralmente concedidas pela classe política a certas pessoas que, muitas vezes, não sabem nem porque estão sendo condecoradas, ou de outras que trazem no seu bojo algum tipo de ilegalidade!

Pois foi justamente uma homenagem furada desse tipo que causou o maior frisson na sociedade sul-mato-grossense até muito recentemente. É que em 29/01 passado, no Centro de Convenções de Campo Grande, MS, o governador do Estado André Puccinelli – num momento de arroubo esportivo – anunciou o nome que seria dado à “nova estrada” MS-156, que liga Dourados e Itaporã, após sua duplicação e melhorias: “Avenida (sic) Luiza Brunet”. Segundo ele, “a homenagem é o reconhecimento pelo sucesso nacional e internacional da ex-modelo, que sempre demonstrou orgulho das origens e que agora aderiu à mobilização para fazer da capital uma das subsedes da Copa do Mundo de 2014”. Imediatamente, dois ilustres deputados estaduais assumiram a subpaternidade da homenagem: o presidente da Assembléia Legislativa do MS, Jerson Domingos e Paulo Corrêa. Enquanto isso, no paralelo, a nova estrada já estava sendo chamada de “Rodoboa” em homenagem à Luiza!

Mas, como se sabe, o projeto de lei que recebeu o número 003/2009 foi bombardeado por todos os lados, desde que deu entrada na Assembléia Legislativa do Estado, e foi posteriormente descartado. É que no afã de agradar ao governador e homenagear a empresária e musa nascida em Douradina-MS, três vezes capa da revista Playboy, rainha da bateria da Imperatriz Leopoldinense e madrinha do MS na Copa de 2014 (qual terá sido o cachê dela, hein?), Luiza Brunet (46 anos), os deputados Jerson Domingos e Paulo Corrêa se esqueceram de alguns “pequenos” detalhes: 1) A citada rodovia já havia sido batizada com o nome de Pedro Palhano e a família deste estava fula de raiva com o referido projeto; 2) Além disso, o projeto de lei 003/09 contrariava duas legislações – uma federal, Lei 6.454, de 24 de outubro de 1977, e outra estadual de número 3.276/06 – ambas vedando a proposição dos dois deputados de designar uma obra pública com nome de pessoa(s) viva(s).

É evidente que no caso em apreço o fator principal que deve ter pesado contra a aprovação do nome do projeto de lei 003/09, ao que parece, não foi o fato da musa Luiza Brunet estar viva – aliás, não apenas viva, mas linda e sensual como sempre, e merecedora de todas as homenagens possíveis! – mas sim o fato da rodovia ter sido batizada previamente com outro nome. Senão, como explicar a quantidade de obras na Capital e no Estado que receberam nomes de pessoas que estão aí “vivinhas da silva” e capazes de aprontar “poucas e boas”, hein? Aliás, o mais recente exemplar dessa casta de obras destinadas erroneamente a pessoas vivas foi inaugurado em meados de dezembro do ano passado pela prefeitura da capital: a concha acústica da Praça do Rádio Clube, que recebeu a denominação de “Família Espíndola” (nada contra a performance e a importância artística da família Espíndola!).

Por último, vale acrescentar que a razão principal da não escolha do nome Luiza Brunet para denominar a rodovia MS-156 (uma idéia não muito feliz, por sinal), além das mencionadas acima, pode ser resumida na pergunta que é feita no blog “Malditas” de 13 de fevereiro último na Internet: “Será que a estrada MS-156 é cheia de curvas?” A julgar pela destinação que foi dada ao projeto, tudo indica que não, né? E dê-lhe carnaval!

 * Texto publicado no jornal Correio do Estado no dia 21/02/09.

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8 Comentários

  1. keyciane said,

    Tanta coisa para fazer e o pessoal inventando nome de rodovia? E pior, inventando nome para rodovia que já tem nome! Para você ver como nossos representantes andam ocupados em fazer coisas que beneficiem o estado… enfim, Hermano, excelente como sempre.

  2. Matheus said,

    Concordo com a Keyci. Mas eu gostei muito do texto. Estava pensando que seria uma leitura um tanto diferente, mas mesmo eu gostei. Parabéns, Herman!!

  3. Damilo Nery said,

    Hermano,parabéns pelo seu texto! Principalmente pela sutil ironia por meio da qual você comenta este cômico capitulo da política de MS. Eu e meus irmãos demos boas gargalhadas ao ler seu jogo de palavras. Parabens pelo trocadilho da foto.

  4. Hermano de Melo said,

    Valeu, Danilo, Matheus e Keyci,
    Creio que realmente a ironia é o que mais conta nesse artigo, né?
    É claro que eu esperava muito mais reação por parte da tchurma, mas fazer o que, né?
    Será que são as férias?
    Kisses,
    Herman.

  5. keyciane said,

    Herman… acontece… os leitores não são propriedade dos escritores. Muito menos na internet, onde podem viajar libertos por um mundo (aparentemente) sem fronteiras… Mas bem, por falar na classe política sul-matogrosense, tenho que manifestar minha profunda decepção. Estava eu ontem na Casa das Leis assistindo a uma audiência pública e que ao final não era mais pública (primeiro porque o Cabeludo disse que não era para ser pública e segundo porque o negócio virou palanque político ao invés de servir ao seu verdadeiro propósito) sobre o aumento da tarifa do transporte coletivo em Campo Grande. Pois bem, o prefeito autorizou o aumento que passará a vigorar a partir do dia 1° de março e ninguém estava nem sabendo, nem mesmo os vereadores. E sabe do que mais: o contrato de concessão estipula isso. O empresariado pinta e borda e o trabalhador paga o pato! E qual a resposta dos nossos repesentantes? Meia dúzia de palavras (tá foi bem mais de meia dúzia, por que político tem mania de falar, falar, falar e não dizer nada!) de indignação, outras poucas de que se vai estudar a planilha apresentada para justificar o aumento, e o resto? Agradecimentos, bajulações, e ataques aos estudantes. Sim, aos estudantes e a todos os outros que desfrutam da gratuidade no transporte coletivo. Caríssimos, o secretário do prefeito anunciou em claríssimo tom que a passagem será reajustada todos os anos (!!!!) e até o representante do CEDAMPO criticou a forma de concessão de passe livre para estudantes. Sim, meus caros, a casa que serve para lutar por nossos direitos é a primeira a querer tirar os poucos benefícios de que desfrutamos! Enquanto eles (a classe política em geral) se ocupam de puxar saco do prefeito e da Luiza Brunet, nós é que saímos no prejuízo. No final, todos se mostraram contra o aumento da tarifa (sei!), mas mostraram-se conformados e fizeram promessas de evitar que o mesmo ocorra ano que vem (e não falo do aumento da tarifa, mas do fato de eles não serem consultados nem haver debate popular). Numa reunião posterior que aconteceu ontem à tarde, houve propostas de congelamento de tarifa por um ano e revogação do decreto que aumentará a tarifa a partir de amanhã. Mas quem disse que saiu do papel, ou melhor, que as palavras viraram papel? Palavras ao vento… Enquanto isso… vamos pagando mais caro por um serviço que passa muito (muito) longe do excelente. É dose viu! OBS.: O DCE foi total e completamente ignorado durante a “audiência pública”.

  6. Evelin said,

    Ah, Hermano! Depois desse texto vc morará eternamente no meu coração!
    Eu quase chorei quandi li, huisahuishsar

    Adorei e não acreditei que vc fosse escrever um texto sobre tal fato, pois na minha humilde percepção de vc a sociedade e os problemas que a permeia seriam seus principais temas de discussão.

    Bacana perceber que esse assunto também toca diretamente a sociedade, pois muitas pessoas acreditam que escrever sobre os bobinhos da módoa é perder tempo, mas, na verdade, é também defender os valores e exaltar a sociedade e os sacrifícios de quem realmente merece ser homenageado. O seu texto mostra isso, sem dúvida nenhuma.

    Milhões de parabéns. E eu não gosto dessa mulher, ela é tão comum como qualquer outra, fala sério.

  7. Hermano de Melo said,

    Pois é, Keyci,
    Quando você falou em audiência pública e da presença do Wanderlei Cabeludo por lá, deu pra perceber que a coisa não seria tão séria como deveria, né? Imagino bem a cena:você e mais uns gatos pingados tentando argumentar o absurdo do aumento da tarifa do transporte coletivo para R$2,50 e os “nossos” vereadores fingindo-se de interessados no assunto quando na verdade deveriam estar coonestando a medida.Não é assim que funciona o Estado privatizado?
    É dose pra leão! Parabéns pela sua persistência, querida!
    Oi Evelin,
    Grato pelos elogios ao artigo acima, mas quanto ao seu diagnóstico sobre a Brunet discordo completamente, ok? Aprecio as curvas delas!
    Um beijo,
    Herman.

  8. keyciane said,

    Hermano, eu não fui representando o DCE. A plenária estava cheia, mas só com políticos e com a imprensa (inclusive alguns colegas de UFMS recém-formados). De fato, poucas pessoas “leigas” como eu estavam lá. E não argumentei. Só pude ouvir as baboseiras e os discursos – por vezes demagógico – dos políticos e outras pessoas ligadas ao governo. É uma coisa a se pensar: a prestesa com que projetos inúteis como o da Rodoboa-Luíza são levantados pela classe política, enquanto coisas como o fato de uma pessoa precisar desembolsar 5 reais por dia para andar pela cidade não mobilizam ninguém (ou quase ninguém). É Hermano, é assim que funciona um estado privatizado… o jeito é eu ir arranjar uma bicicleta, porque de ônibus não vai mais dar para andar…

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