Outro mundo possível

11/02/2009 at 00:01 (Hermano de Melo)

Charge de Gilberto Marangoni, publicada na Agência Carta Maior

 Hermano de Melo*

Nesta época do ano em Belém do Pará (1,42 milhão de habitantes – IBGE/2008), os compromissos do dia-a-dia são agendados geralmente para antes ou depois da chuva! Isso porque chove uma barbaridade naquela terra, especialmente do meio-dia em diante. Pois bem, foi justamente isso o que ocorreu na passeata de abertura do Fórum Social Mundial (FSM) em 27 de janeiro último naquela cidade e que contou com pelo menos 60 mil pessoas (a imprensa local noticiou 30 mil) provenientes de diferentes regiões do Brasil e de mais 150 países. Marcada inicialmente para acontecer às 15 horas, ela só começou de fato na “boca da noite”, após uma chuvarada de 60 a 80 mm, saindo do cais do porto em direção ao centro da “Cidade das Mangueiras” num trajeto de aproximadamente quatro quilômetros.

O FSM volta ao Brasil após um giro por Mumbai, na Índia e Nairobi, na África, e se constitui hoje no principal contraponto ao Fórum Econômico de Davos, na Suíça, onde os oito países mais ricos do mundo, mais a Rússia, se reúnem e traçam a política econômica que vai vigorar nos próximos anos para o resto do mundo. Dessa vez, no entanto, devido à crise financeira mundial e à recessão iniciada nos EUA e espraiada hoje para o resto do mundo, Davos viveu um clima fúnebre e nem o presidente Lula, que costuma dar suas “palpitadas” por lá, resolveu ficar por aqui e ir apenas ao Fórum de Belém. E com ele estiveram presentes no FSM mais quatro presidentes sul-americanos: Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Fernando Lugo (Paraguai) e Rafael Correa (Equador). Também estiveram por lá vários ministros da “face esquerda” do governo Lula, inclusive a futura candidata à presidente, ministra Dilma Roussef. Parecia até uma reunião de governo fora de Brasília!

Durante o evento de seis dias que aconteceu em dois territórios do FSM – um na Universidade Federal do Pará (UFPA) e o outro na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) – discutiu-se tanto os chamados temas “terrenos” quanto os “exóticos”. Dentre os primeiros: a preservação da Amazônia, a crise econômica global, a reforma agrária brasileira, os povos indígenas latino-americanos, os cinqüenta anos da revolução cubana e a devolução de Guantânamo, modelos de desenvolvimento sustentável, etc. Dentre os segundos: meditação transcendental; a seita do Santo Daime; a legalização da maconha, danças e ritmos africanos, massagem Ayurvédica, etc. É como mostra a charge de Maringoni publicada em 30/01 no “Carta Maior”: Pergunta: “Você sabe onde é o debate da unificação das esquerdas?”; Resposta: “Vai pelo protesto da IV Frota, segue pelos direitos das minorias, dobra na questão da água, passa pela ecologia sustentável, atravessa a luta contra as demissões e chega na crise internacional. Logo adiante está o que você quer. É fácil!”.

É bom que se diga, no entanto, que apesar dessa aparente pulverização de temas discutidos no FSM em Belém do Pará, houve um certo consenso entre os participantes de que a crise econômica que o mundo capitalista vive nos dias de hoje não se deve apenas a um fator isolado – como a especulação financeira, por exemplo – mas sim, ao que parece, a uma conjuminância de fatores que contribuem para a deterioração da vida humana no planeta Terra, dentre os quais o modelo capitalista ora vigente no mundo talvez seja o seu principal responsável. Agora, mais do que nunca, é preciso construir um novo modelo de civilização que passe necessariamente a ser mais humano, mais justo e ético, mais limpo, menos consumidor de energia, menos faminto e essencialmente mais solidário!

Como disse o editorial de um jornal local de Belém do Pará, em 29/01: “O FSM foi uma das melhores coisas que já aconteceu nos últimos anos, como alternativa política para chamar atenção de todo o Planeta para questões que não dizem respeito só aos governantes e sim aos cidadãos. Para entender o mundo, é preciso discutir sobre ele, é necessário passá-lo sob a lupa do olhar crítico, é indispensável aglutinar contradições, confrontar propostas, estimular alternativas viáveis”. No entanto, como disse também alguém no próprio FSM de Belém: “A discussão é sempre importante, mas é preciso ir mais além. É fundamental encontrar um novo modelo alternativo de sociedade que venha se contrapor realmente ao sistema capitalista ora em falência no mundo”. A questão central é: onde está esse novo modelo, esse outro mundo possível? Quem sabe a resposta seja dada no próximo FSM, que deverá acontecer na África, Oriente Médio, ou até mesmo nos EUA em 2011, hein?

* Artigo publicado no Correio do Estado em 06/02/2009.

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12 Comentários

  1. keyciane said,

    Hermano, o artigo está simplesmente excelente! Gostaria muito de ter ido à Belém, embora eu tenha alguns problemas com o “verão amazônico”. E o FSM desse ano já nos deixou uma contribuição importante: em meio ao Fórum para Democratização da Comunicação, o presidente comprometeu-se a realizar a Conferência Nacional de Comunicação. Enfim (eu espero), vamos colocar o dedo na ferida e rever esse modelo pouco (pouquíssimo!) comprometido com a cidadania seguido pela principalmente pela TV. Ah, uma outra coisa que me deixou muito feliz foi a cobertura midiática (a alternativa, claro) do FSM. Pude perceber que uma série de grupos fizeram a cobertura completa do evento.
    Para mim, outro mundo é mais que possível, é necessário! Parabéns Hermano.

  2. Evelin said,

    É engraçado, logo no início do texto pensei na frase do último parágrafo: “A discussão é sempre importante, mas é preciso ir mais além. ”

    Eu tinha um professor no 3º ano que vivia falando sobre o desapego que as pessoas tinham que ter sobre os bens materiais e que o orgulho e a vaidade acabavam com o amor e o sentimento de compartilhar, que faltava humildade e humanidade. Reclamava da má distribuição de renda, tinha pena dos pobres. Junto com isso, ia todos os dias com seu Citroen e notebook Mac pro colégio. Num dia, ele começou a falar dessas coisas na sala. Não aguentei e falei: Então pq o senhor mesmo não começa a aplicar o que pensa? Tem necessidade de ter um carrão desses, tão caro? Compra um escort em bom estado e aplique o dinheiro do carrão para fazer suas idéias funcionarem.

    Resultado: Silêncio. E nunca mais o assunto “humanidade” foi tocado em sala.

    Gostei, Hermano! Muito boa reflexão.

  3. Hermano de Melo said,

    Valeram os comentários,Keyci e Evelin. A idéia era fazer com que quem não pode ir ao FSM tivesse uma idéia sobre o que rolou por lá. Infelizmente o espaço disponível no jornal é relativamente pequeno e assim a gente tem que restringir a matéria ao que é essencial. Um beijão procê, Keyci (parabéns e grato pela idéia do blogue, né?)e procê Evelin (minha quase eterna líder!)- a eterna é a Fernanda Kintcher (será que tá certo?) do 2o ano de jornalismo!-um abração e a sua observação não deixa de ser válida, embora com alguns senões! Inté monday!Herman.

  4. Flávio said,

    Eu to aqui para dar uma dica. Já que o espaço no Jornal é pequeno, Hermano pode usar o Blog para contar tudo o que de mais interessante ocorreu lá no FSM.
    Parabéns Herman.
    Abraços.

  5. Hermano de Melo said,

    Valeu, Flavito,fico feliz que você pense assim, mas creio que a gente sempre tem que deixar algumas questões (algumas pulgas atrás das orelhas) que não tenham sido devidamente respondidas ou até mesmo equacionadas, quer seja no FSM, quer em qualquer outro evento que por ventura a gente venha a participar,né? Caso, porém, você esteja interessado no FSM, trouxe comigo vasto material recolhido lá no Fórum de Belém, ok? Saiba, no entanto,que você é uma pessoa muito querida pra mim, viu? Nos vemos em breve…
    Um abração,
    Herman.

  6. Hermano de Melo said,

    E antes que a Fernandinha (Kintscher – será que tá certo agora?) chie, ela é do 3o e não do 2o ano de jornalismo como coloquei na minha primeira mensagem.
    Sorry, Fer.
    Um abraço,
    Herman.

  7. keyciane said,

    Hermano, é Fernanda Kintschner o nome dela. Escrever eu sei, mas falar, nem me atrevo… Eu também quero ver o material que você trouxe de Belém. Você deixa? Aproveitando, quero perguntar se você tirou alguma foto. Em caso afirmativo, pode enviar para ilustrar o seu texto?

  8. Flávio said,

    Tinha voltado para reler o texto e me lembrei desse poema do Drumond de Andrade – O Sobrevivente, olha só:
    O SOBREVIVENTE

    Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
    Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.
    O último trovador morreu em 1914.
    Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

    Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
    Se quer fumar um charuto aperte um botão.
    Paletós abotoam-se por eletricidade.
    Amor se faz pelo sem-fio.
    Não precisa estômago para digestão.

    Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
    muito para atingirmos um nível razoável de
    cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.

    Os homens não melhoram
    e matam-se como percevejos.
    Os percevejos heróicos renascem.
    Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
    E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

    (Desconfio que escrevi um poema.)

  9. Hermano de Melo said,

    Oi Keyci/Flavito,
    Grato pela correção do sobrenome da Fernanda, mas que é complicado é, né?
    Infelizmente não tirei qualquer foto do FSM, pois acreditei na companheirada que estava comigo.
    Talvez consigamos algumas delas com eles, ok? O ideal talvez fosse se a gente pudesse colocar no artigo a charge de Maringoni publicada numa edições do boletim do “Carta Maior” na sua versão eletrônica e que é citada no artigo acima. Mas como consegui-la?
    Kisses,
    Herman.
    PS. Parabéns Flavito pela poesia do Drumond. Tá um barato!

  10. keyciane said,

    Deixa comigo Hermano. Eu dou um jeito! E o mais legal é que é copyleft.

  11. keyciane said,

    Ih, a charge ficou meio pequenina, mas esse é o tamanho original. Para quem quiser, clique na imagem e automaticamente vocês serão redirecionados para o sítio de origem e poderão ver essa e outras charges do Maringoni.

  12. Hermano de Melo said,

    Oi, Keyci,
    Você é demais!
    Kisses,
    Herman.

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