Acredite, se quiser!

31/08/2008 at 17:00 (*Liberdade e Diversidade)

Keyciane Lima Pedrosa*

 

Toda a vida, ouvimos que as pessoas são iguais. E, também, que são diferentes. Em que acreditar? Não tenho conhecimento, habilidade, nem sensibilidade necessários para fazer uma análise consistente, com bases filosóficas, sociológicas, biológicas, ou de quaisquer outras áreas do saber. Mas, tenho tempo e vontade para escrever um texto sobre esse tema. E isso é o que basta.

Não faltam edições impressas, audiovisuais ou virtuais de relatos (pseudo) científicos, explicando que as diferenças entre os sexos está nos genes. Na genética, também, procuram uma explicação para o homossexualismo. Vira e mexe, aparece alguma pesquisa sobre uma suposta superioridade intelectual do homem sobre a mulher. Também, há pesquisas que apresentam o resultado inverso.

Longe das discussões de gênero, há as discussões sobre faixa etária. Para alguns, a juventude é revolucionária. Tem a energia para mudar o mundo. Para outros, não passa de um aglomerado de “aborrecentes”, criaturas sem juízo e sem moral, rebeldes sem causa, inconseqüentes e irresponsáveis. Nem os cabelos brancos escapam do debate público. Há quem abomine a previdência social e defenda que lugar de idoso é no asilo mesmo. De qualquer forma, encontramos, num mesmo círculo social, uma mãe que ensina ao seu filho que se deve respeitar os mais velhos.

Há, também, inúmeros conflitos, mais velados, é verdade, sobre raças e etnias. Conflitos, esses, historicamente improdutivos. Mesmo assim, ainda escapa, nas bocas, por aí, aquele discurso de que o índio é indolente e só presta para beber cachaça, que o negro é safado, que o branco é um usurpador.

Bastante associados a esses, temos o debate sobre as classes sociais. Já há todo um abecedário de classes, o escalonamento da miséria. E, surgem a cultura erudita e a popular. Os dominadores e os vencidos. O que não faltam são discursos desse tipo.

Nesse sentido, acredito que vivemos, de fato, numa democracia. Cada um fala o que pensa. E, às vezes, falamos sem pensar! Falamos que uns são melhores, que uns são mais espertos, que outros são mais inteligentes e nos esquecemos de que, quando elegemos um ao paraíso, estamos relegando os outros ao inferno. Estamos sempre classificando tudo e todos. Estamos sempre medindo, colocando pesos e medidas. Mas, todo peso, toda medida, todo rótulo é arbitrário. Sempre que vamos à feira, pedimos quilos de qualquer fruta ou verdura. O que é o quilo, senão o peso de um cilindro de platina que fica trancafiado num palácio perto de Paris? Todo padrão não passa de uma convenção.

Por isso, não há nada de errado em querer expressar opiniões, nem em tentar confirmar essas opiniões com pesquisas científicas – só não nos esqueçamos de analisar a metodologia adotada –, tampouco, há problema em acreditar nesta ou noutra teoria, nem em adotar certa ideologia. Tudo é relativo mesmo. E não fui eu quem inventou essa história.

Só não podemos nos esquecer, jamais, que nossas visões acerca desse tema não passam de opiniões, teorias, ideologias. Não há verdade absoluta em nenhuma das hipóteses apresentadas. Se houvesse alguma verdade, não seriam hipóteses.

O fato é que em se tratando do ser humano, não há unanimidade nem certezas. Nem aquela de que todos que nascem, morrem está acima de qualquer suspeita em vista dos avanços da ciência. Nada é impossível.

O grande problema em todas essas discussões é que cada um dos argumentos se quer apresentar como legítimo e verdadeiro. E, com toda a robusteza de um membro da família real, cada um chama para si a atenção. Exibindo clichês como se fossem diamantes, nos exibimos com teorias diversas, como se, realmente, fôssemos chegar a algum lugar com tudo isso.

Não adianta querer ter mais razão que os outros, nem querer ser o dono da verdade. No final, todos são iguais. Na inconclusividade do tema, na incompletude de qualquer discussão, nas limitações que todos temos para apreender a realidade, nisso somos todos iguais.

Quando queremos ser os donos da verdade, acabamos por cair no abismo do preconceito. E perdemos a razão. Cada um tem o direito de dizer o que quiser, de fazer o que quiser. Respeitando somente os limites da lei e/ou morais de cada grupamento humano. Se quiser incorrer em mentiras, calúnias e ofensas diversas, ninguém lhe impedirá, mas existirá (sempre, há a possibilidade, ao menos) algum profissional da lei honesto e competente para infligir-lhe a devida punição.

Somos livres. Completamente livres para cumprir nossos deveres e usufruir os nossos direitos. Claro que, no Brasil, nem tudo costuma ser assim tão simples, preto no branco. Para usufruir alguns dos nossos direitos, precisamos gastar algum dinheiro e ter muita paciência. Mas, isso não é manifestação de uma exceção à regra. Somos livres, e somos mais livres ainda, quando gozamos de algum nível de instrução e alguns tostões na conta bancária. Até aí, nada demais, para a era do capitalismo selvagem.

Somos todos diferentes. Cada um tem um jeitinho todo seu. As coisas semelhantes não passam de coincidências. Ninguém está lendo esse texto no mesmo lugar, ao mesmo tempo e do mesmo jeito. Você, eu, todos somos únicos. E livres. E nisso, somente nisso, somos iguais.

É absolutamente inútil você querer tomar o que escrevi neste texto como verdade absoluta. Inútil resultará, também, qualquer esforço em provar a tese contrária: a de que essa história de igualdade entre os homens é pura balela politicamente correta. No final, cada um que pense o que quiser. Essa é que é a graça.

 

 

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2 Comentários

  1. Rubens Luis Urue Filho said,

    Belo texto, Keyciane.

  2. Rubens Luis Urue Filho said,

    É isso aí.

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