Desastres & Silicone
Hermano Melo*
Três desastres recentes foram destaque na mídia neste início de 2012: o naufrágio do navio Costa Concordia no litoral italiano na sexta-feira (13/01) com mais de 4.200 pessoas a bordo, onze mortos e 23 desaparecidos; o repeteco anual dos “desastres naturais”, causados por chuvas e enchentes na região Sudeste e estiagem no Sul, com dezenas de mortos, milhares de desabrigados, e perdas significativas nas lavouras de milho, arroz, feijão, soja e na pecuária; por último, o drama vivido por dezenas de milhares de mulheres que fizeram implante de silicone industrial das marcas PIP e Dorfil nos seios, quer por indicação médica, estética ou por modismo, tanto no Brasil quanto em outros países da América Latina e da Europa.
Em relação ao naufrágio do navio italiano Concordia, tudo indica que o desastre foi devido à barbeiragem do comandante da embarcação, Francesco Schettino, que ao aproximar demais o barco da ilha de Giglio, este se chocou contra um rochedo e adernou. Ele é acusado de homicídio culposo múltiplo, naufrágio e abandono de navio. Deve-se salientar, porém, que o número de mortos e desaparecidos foi pequeno, em se tratando de um acidente de grandes proporções.
Sobre as chuvas na região Sudeste, embora fatores climáticos tenham contribuído para o desastre, fica evidente a incapacidade dos governos em suas esferas federal, estadual e municipal, de prever a repetição da tragédia nos municípios atingidos pela enxurrada no ano passado, quando 900 pessoas morreram na região serrana do Rio de Janeiro. Para os especialistas, “é impossível evitar ou minimizar os impactos dos desastres naturais em razão de eventos climáticos, sem medidas de prevenção e gestão de riscos. A solução está na mudança de cultura nos processos de urbanização do país”. (Fecomércio-SP/fev/2011). Em Sapucaia (RJ), divisa com Minas Gerais, município com 20 mil habitantes, 22 pessoas morreram vítimas de deslizamentos de terra e desabamentos. No Estado do Rio, quase 13 mil pessoas estão desalojadas e outras 3.400 desabrigadas, segundo o último boletim da Defesa Civil.
Em Minas Gerais, subiu para 137 o total de municípios que decretaram situação de emergência devido às chuvas. São 15 mortos, três desaparecidos, ao menos 45 mil desalojados e quase 3.200 desabrigados, segundo dados da Defesa Civil. No Espírito Santo, oito municípios estão em situação de emergência, mas sem registro de mortes. O governo federal liberou 75 milhões de reais para Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, os Estados mais afetados pelas chuvas de verão que já deixaram ao menos 38 mortos na região. (Rodrigo Gaier/Agência Reuters, 12/01/2012).
No sul do País, particularmente na região oeste de Santa Catarina, no centro-sul do Rio Grande do Sul e no Paraná, o problema é a estiagem. O governo gaúcho estima que a seca já causou um prejuízo de 2,2 bilhões de reais para o Estado, 291 cidades decretaram situação de emergência e mais de 1,6 milhão de pessoas foram afetadas. Para Vanclei Zanin, da Fundação de Economia e Estatística (FEE), as chuvas de janeiro serão essenciais para quantificar as perdas, sobretudo para a soja. “A seca afetou de maneira pesada a cultura do milho, que precisava de muita água entre novembro e dezembro. A soja vai precisar de água em janeiro, e por isso as plantações ainda não foram tão castigadas”. Estima-se que a quebra de safra no estado atinja cerca de 20% da produção. (Revista Veja/12/01/2012).
Diante disso, a presidente da República, Dilma Rousseff, criou no último dia 09 de janeiro a Força Nacional de Apoio Técnico de Emergência, um grupo interministerial que atuará na prevenção de desastres naturais e reconstruções de municípios atingidos per chuvas ou pela seca. Neste primeiro momento, uma força-tarefa de 50 especialistas foi alocada em regiões de mais alto risco, nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. Segundo o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, “a Presidente deseja que o trabalho do grupo interministerial não se restrinja ao período de chuvas. Ela pretende identificar ações de médio e longo prazo para traçar uma política de investimento em reconstrução e prevenção”. (G1.com.br/09/01/2012).
Quanto ao Silicone, embora não seja considerado um “desastre natural”, repercutiu intensamente a notícia de que a implantação de silicones industriais nos seios de mulheres brasileiras e, de outros países, ocasionou sérios problemas de saúde para elas. Calcula-se que cerca de 25 mil mulheres brasileiras têm próteses das marcas PIP e Rofil, das quais pouco mais da metade pode estar com implantes problemáticos. Conforme o cirurgião plástico e presidente da SBCP/MS, Alcides Martins Arruda, “a questão é que as próteses das duas marcas utilizam o composto químico industrial, que é tóxico e provocam reações inflamatórias como dor e formação de líquidos”. (Correio do Estado, 13/01/2012). Mas, será que não há exagero em implantes de silicone entre as jovens brasileiras, mesmo quando desnecessários? É muito provável que sim.
* Jornalista e Escritor
Artigo publicado em 20 de janeiro de 2012 no jornal Correio do Estado.



Flaviano Melo disse,
23/01/2012 às 13:32
Ao que parece temos que dividir nossos padecimentos históricos com os irmãos sulistas – a seca deixou de ser infortúnio com o carimbo de exclusividade nordestina; é a natureza forçada a dividir mazelas. Indistintamente.
No mais, pra bem dizer, é impossível desassociar quaisquer desses acontecimentos trágicos, abordados no seu artigo, por descabidas falhas e negligências humanas. Bem que vale o alerta dos nossos saudosos antepassados na antevisão de dores e arrependimentos: ” depois não se queixem “.
De um Recife estranhamente invernoso, saúdo-o:
Flaviano
Hermano Melo disse,
23/01/2012 às 14:29
É isso aí,Flaviano. Talvez seja o caso de dizer que “o ser humano cava sua própria sepultura”,né?
Abração e prazer em reouvi-lo,
Hermano Melo.