PIB em alta
Hermano Melo*
Notícia divulgada ao apagar das luzes de 2011, por uma consultoria britânica especializada em análises, assegura que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro superou o da Grã-Bretanha e que o Brasil já é a sexta economia mundial, atrás de Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França. Segundo ela, o PIB do Brasil deve fechar o ano em £ 1,61 trilhão (US$ 2,51 trilhões), contra £1,58 trilhão (US$ 2,48 trilhões) do Reino Unido. Para o chefe-executivo da agência, Douglas McWilliams, “isto faz parte da grande mudança econômica, não apenas do Ocidente para o Oriente, mas também de países que produzem commodities vitais – comida e energia, por exemplo – que estão se dando muito bem e sobem gradualmente na ‘tabela do campeonato econômico’”. (BBC-Brasil, 26/12/2011).
A imprensa inglesa não economizou elogios ao feito brasileiro, embora com certa ponta de ironia. O jornal The Guardian, por exemplo, atribui a perda de posição britânica à crise bancária de 2008 e à crise econômica que persiste, em contraste com o “boom vivido pelo Brasil na rabeira das exportações para a China”. O Daily Mail diz que a Grã-Bretanha foi “deposta” de seu lugar de sexta maior economia do mundo pelo Brasil, cuja imagem está associada ao “futebol e às favelas sujas e pobres, mas que se torna rapidamente uma das locomotivas da economia global, com vastos estoques de recursos naturais e classe média em ascensão”. Ao invés de ver o declínio como um baque ao prestígio britânico, o jornal assegura que “o Brasil não deve ser considerado um competidor por hegemonia global, mas um vasto mercado a ser explorado”.
Na mesma linha, o Financial Times considera o fato como um “marco”, mas lembra que “todos os Brics (países emergentes) ainda estão muito atrás em PIB per capita”. Os dados confirmam análises feitas ao longo do ano, inclusive do FMI, na qual todos apontam que Brasil, Rússia e Índia vão ultrapassar os maiores mercados europeus nesta década. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, festejou a projeção, mas diz que serão necessários até 20 anos para que os brasileiros tenham um padrão de vida semelhante ao dos europeus.

O assunto foi tema também do editorial do Correio do Estado, “Alento de 2011” (31/12/2011): “A notícia de que o Brasil desbancou o Reino Unido e está colocado hoje como a sexta economia mundial, soa como alento e reforça a tese de que, segundo o Censo 2010, o País melhorou em todos os seus indicadores sociais”. Revela também que “mais domicílios têm acesso a bens de consumo como computadores, telefones ou automóveis, e mais brasileiros conseguiram um emprego formal e aumentaram a escolaridade. A mesma amostra, no entanto, mostra que a desigualdade continua: a renda do 1% mais rico equivale à dos 40% mais pobres”.
Nesse sentido, o artista plástico e jornalista Enio Squeff em artigo “O Brasil tem um PIB maior do que o da Inglaterra: e daí?”, no Correio Braziliense on-line (29/12/2011), afirma: “O anúncio feito por alguns jornais londrinos e, mais tarde, pelo mundo, de que o PIB do Brasil superou o da Grã-Bretanha, talvez tenha estremecido o coração patriótico de alguns brasileiros. Mas continuamos a ostentar índices de pobreza alarmantes, a ter uma mídia assustadoramente medíocre e não conseguimos nos alçar culturalmente acima de outras muitas nações, que não têm o mesmo PIB que o nosso”. E completa: “Digamos, a propósito, que o tamanho de nosso PIB, por mais desmesurado que venha a ser, jamais será suficientemente grande, a curto prazo, para gerar escritores, pintores ou músicos como os ingleses. Se é que o PIB conta alguma coisa a mais para este tipo de mister”.
É evidente que a notícia de que o PIB brasileiro cresceu e ultrapassou o da Grã-Bretanha é alvissareira e deve ser comemorada. No entanto, é fundamental que essa somatória de riquezas materiais que o País produz – incluído aí os royalties do Pré-Sal – reverta, de fato, em benefício de seu próprio povo, corrija suas distorções e mazelas e promova o bem-estar e o sentimento de dignidade nacional.
Como diz, aliás, parte da mensagem de fim de ano da revista “Carta Maior” on-line: “Que em 2012 o nosso país aproveite o enfrentamento da crise econômica internacional como uma oportunidade para corrigir injustiças sociais aqui dentro, que crie impostos para os banqueiros, que aumente os investimentos em educação, saúde e reforma agrária. E que o Brasil, em 2012, torne-se cada vez mais um país com a cara do povo brasileiro”.
Quanto à declaração do Ministro Guido Mantega de que em 10 ou 20 anos o brasileiro terá o mesmo padrão de vida do povo europeu, é bom dar uma olhada na charge de Benett, publicada na página A2-opinião da Folha de São Paulo, de 1º de Janeiro de 2012. Diante de um imenso lixão, dois catadores de lixo conversam e um deles pergunta ao outro: “Puxa, o padrão europeu vai decair tanto assim?”. Um primor.
* Jornalista e Escritor
Artigo publicado no jornal Correio do Estado em 04 de janeiro de 2012.

