Durban 2011

12/12/2011 at 15:04 (Hermano de Melo)

Hermano Melo*

Desde segunda-feira (28/11/2011) até a madrugada deste domingo (11/12/2011), cientistas, diplomatas e alguns chefes-de-estado de 194 países reuniram-se em Durban, África do Sul, para mais uma Conferencia do Clima das Nações Unidas, a COP-17. Nela se discutiu mudanças climáticas do planeta e medidas que devem ser tomadas para reduzir o aquecimento global. Há consenso entre os cientistas de que o aumento de temperatura até o ano 2020 não deve ultrapassar dois graus centígrados, a fim de evitar danos climáticos irreversíveis. Para isso, tanto os países ricos quanto os em desenvolvimento devem reduzir ainda mais as suas emissões de gases efeito-estufa nos próximos anos. (Globo online, 30/11-05/12/2011; Correio do Estado, 30/11; 05 e 06/12; Tribuna da Bahia, 11/12/2011).

Nos últimos anos, a Terra está em processo acelerado de aquecimento. Isto acontece devido à alta concentração de gases do efeito estufa – dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) – provenientes da própria atividade humana na agricultura, comércio, indústria, automóveis, desmatamento, queimada de florestas, etc. Como resultado, as temperaturas médias globais são as maiores nos dois últimos séculos, e aumentou cerca de 0,74°C nos últimos 100 anos. Conforme relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) de 2007 poderá ocorrer o acréscimo médio de 2°C a 5,8°C na temperatura do planeta nos anos vindouros.

Dados apresentados em Durban revelam que, mais da metade de todas as emissões de carbono liberadas na atmosfera são geradas por apenas cinco países: China, Estados Unidos, Índia, Rússia e Japão. O Brasil aparece na sexta posição no ranking, seguido de Alemanha, Canadá, México e Irã. Em 2010, as emissões de CO2 bateram recorde histórico e cresceram 5,9% em relação ao ano anterior, devido à recuperação rápida da economia mundial após a crise de 2008/09, especialmente nos países em desenvolvimento. Os dez países são responsáveis por 2/3 das emissões globais de carbono. (Folha online, 30/11-05/12/2011).

Mas, se antes era comum jogar a culpa do aquecimento global nas costas dos países industrializados, hoje a situação se inverteu, e o comportamento dos países em desenvolvimento é crucial para isso. Assim, pacotes de estímulo como o adotado pelo Brasil, para aumentar o consumo de carros e eletrodomésticos, aliados à queda no comércio internacional, fizeram com que o carbono que os países emergentes lançam no ar para alimentar o próprio consumo tivesse um crescimento maior no lado de cá do mundo do que no hemisfério Norte pela primeira vez na história!

Além disso, as políticas adotadas pelos países ricos (os mais atingidos pela crise financeira mundial), também contribuíram para essa escalada, pois em vez de iniciarem mudanças estruturais na economia, eles aliviaram restrições ao consumo de combustíveis fósseis. Por outro lado, os pacotes de “estímulo verde” à economia em vários países desenvolvidos e em emergentes como a Coreia do Sul, ainda não tiveram efeito nas emissões.

Embora não se esperasse resoluções mais impactantes em Durban, duas medidas aprovadas ao apagar das luzes, “salvaram a lavoura” do evento sul-africano: uma extensão do Protocolo de Kyoto atual até 2015, com inclusão de metas de redução de emissões para os dois maiores poluidores do planeta, Estados Unidos e China, a partir de 2020, e aprovação de regras do Fundo Verde do Clima, que disponibilizará aos países em desenvolvimento US$ 100 bilhões anuais, a partir de 2020, para o desenvolvimento de energias “limpas” e combate às alterações climáticas.

“Temos de nos orgulhar muito, este é um momento histórico”, disse o embaixador brasileiro Luiz Figueiredo ao final da COP mais longa da história. “Esta plataforma tem uma chance real de se tornar uma conquista ainda maior que o Mandato de Berlim”, disse a comissária europeia do Clima, Connie Hedegaard em referência ao processo legal em 1995 que deu origem a Kyoto. “Os países sairão daqui dizendo que foi um grande sucesso, especialmente os Estados Unidos. Mas para o clima não foi”, afirmou Samantha Smith, da ONG WWF. (Tribuna da Bahia, 11/12/2011).

Resumo da ópera: até 2020, Estados Unidos e China receberam aval para continuarem emitindo gases efeito-estufa ao seu bel prazer, enquanto outros países, como o Brasil, continuarão obedecendo às regras frouxas estabelecidas pelo protocolo de Kyoto e pela COP-15 de Copenhague (2009). Isto significa que a Terra vai continuar esquentando nos próximos oito anos, colocando em risco rios, florestas, megacidades, etc., e a existência humana no planeta.

Mas o Brasil ganhou o prêmio “Fóssil do Dia” oferecido por ONGs durante a COP17 em Durban, África do Sul. É que a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, sugeriu que o Código Florestal brasileiro – recentemente aprovado no Senado Federal – pode ajudar o Brasil a chegar à meta de redução de gases-estufa em nível global. Elas duvidam disso. Nós também.

* Escritor e Jornalista

Artigo publicado em 12 de dezembro de 2011, no jornal Correio do Estado.

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