O cozinheiro e o jornalista
Hermano de Melo*

Conforme amplamente divulgado pela imprensa local e nacional, o Supremo Tribunal Federal (STF), em 17/06/09, extinguiu por oito votos a um a exigência do diploma universitário para o exercício da profissão de jornalista. Ao justificar o seu parecer, o relator da matéria ministro Gilmar Mendes chegou mesmo a comparar a profissão de jornalista com a de cozinheiro: “Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área. O Poder Público não pode restringir, dessa forma, a liberdade profissional no âmbito da culinária. Disso ninguém tem dúvida, o que não afasta a possibilidade do exercício abusivo e antiético dessa profissão, com riscos eventualmente até à saúde e à vida dos consumidores”. De certa forma, o ministro tem razão.
Mas como disse o jornalista Nelson Sodré no Observatório da Imprensa de 07/11/2001: “Um dos melhores dentistas que conheci em toda a minha vida era também um bom advogado e um razoável trovador. Em paralelo a tudo isso, era editor bissexto de jornais. Na escola, não ultrapassou o curso primário – jamais teve qualquer diploma. Manteve-se, porém, sempre nos limites da legalidade: até meados dos anos 50 no interior da Bahia, era perfeitamente admissível o exercício da profissão de dentista prático (tanto clínico como protético), assim como provisionado ou “rábula”. O profissional em questão era tão bom clínico que lhe acontecia ser convocado por recém-formados e ainda inexperientes para ajudar em extrações de molares muito difíceis. Eu o conhecia muito bem, era o meu pai”. Quem dos atuais sessentões não teria uma história semelhante a essa pra contar, quer seja no campo da medicina, da advocacia, da enfermagem, da veterinária?
O que acontece, caro ministro Gilmar Mendes, é que os tempos mudaram, as profissões se tornaram mais complexas e os saberes atuais não conseguem ser apreendidos por quem não esteja preparado convenientemente. Daí a necessidade do diploma para os profissionais de química, física, letras, ciências sociais, educação física, etc., e, naturalmente, de jornalismo! É também para evitar que a picaretagem tome conta do mundo que se faz a exigência do diploma. É claro que não é só o diploma – no frigir dos ovos, apenas um pedaço de papel – que vai coibir isso, mas é pelo que ele significa em termos de conhecimento,de bagagem cultural, do saber fazer as coisas da melhor forma possível. Ao dizer que, “quando uma notícia não é verídica ela não será evitada pela exigência de que os jornalistas freqüentem um curso de formação”, o senhor está correto. Mas a pergunta é: em que outro campo de conhecimento isso não ocorre?
Logo em seguida, porém, ministro, o senhor dá outro “escorregão”: (Ser jornalista…) “É diferente de um motorista que coloca em risco a coletividade. A profissão de jornalista não oferece perigo de dano à coletividade tais como medicina, engenharia, advocacia nesse sentido, por não implicar tais riscos não poderia exigir um diploma para exercer a profissão. Não há razão para se acreditar que a exigência do diploma seja a forma mais adequada para evitar o exercício abusivo da profissão”. O equívoco reside no fato de que uma notícia insidiosa na imprensa pode liquidar com a vida de uma pessoa, de uma família, de uma comunidade inteira! Não foi assim no caso de Ibsen Pinheiro, da Escola de Base, e tantos outros episódios? Na verdade, a profissão de jornalista talvez seja uma das mais “perigosas” do mundo cibernético atual, mais que a engenharia, medicina, advocacia e tantas outras! Daí justamente a necessidade que os seus profissionais sejam adequadamente diplomados e fiscalizados pelo conselho profissional!
Por fim, senhor ministro, vem a questão da teoria x prática. Que o jornalismo é essencialmente prático, não há dúvida alguma. Existem regras a serem cumpridas ao lidar com a notícia e o jornalista aprende isso na prática. Daí porque existe ainda hoje um grande número de jornalistas-práticos, ou precários no Brasil, isto é, daqueles que exercem a profissão, mas não possuem o diploma que os autorize para tal mister, da mesma forma que os práticos antigos o faziam nos campos da odontologia, veterinária, advocacia, etc. É claro que com os avanços do saber atual, esses práticos tendem a desaparecer porque o conhecimento assim o exige! Mas a decisão do Supremo penaliza principalmente os que entram na universidade para estudar jornalismo, onde além de práticas importantes, aprendem uma gama imensa de conhecimentos teóricos nas áreas de filosofia, antropologia, sociologia, ética, e tantas outras, fundamentais para o exercício profissional. Ao não diferenciar estes dos demais jornalistas-práticos, o Supremo deu, sem dúvida, um passo atrás. Como justificar, por exemplo, o estudo de ética num curso prático de jornalismo de duas semanas?
Se,como afirma o ministro Gilmar Mendes em seu parecer, o Decreto-Lei 972/69, que estabelece que o diploma necessário para o exercício da profissão de jornalista não atende aos critérios da Constituição de 1988 para a regulamentação de profissões, e se origina do período da ditadura militar,ele teria que ser abolido. Mas o Supremo deveria ter engatilhado outro decreto para substituir o atual e que ele reconhecesse a importância da exigência do diploma para o exercício profissional do jornalismo. Essa história de que o diploma de jornalista é uma ameaça à liberdade de expressão é pura balela. O fato é que, da forma como ficou, a decisão do Supremo, além de ir na contramão da história, fere os brios de cozinheiros, motoristas e profissionais da notícia, além de ter que se explicar com o pessoal das escolas de gastronomia de todo Brasil!
* Escritor e acadêmico de jornalismo.
Artigo publicado em 29 de junho de 2009 no Correio do Estado.
Onde meto meu canudo?
Amores, quando li isso aqui fiquei com vontade de compartilhar com vocês. O texto não é de minha autoria, uma amiga me mandou. Mas achei bacana. É rir pra não chorar.
Onde meto meu canudo?
(Edberto Ticianeli-Maceió)
“Jornalista é cozinheiro
Assim falou o “sabe tudo”
Agora diga aí, Dr Gilmar:
Onde meto o meu canudo?
Estudei pra me formar
Sei escrever, sou jornalista
Tenho diploma pra trabalhar
Ganho salário de motorista
Mas nem isso vai sobrar
Dr. Gilmar já decidiu
Agora escrever é cozinhar
Papel virou Bombril
Entrevista é pra lavar
Mas Dr… e a pauta que partiu?
Jornalista é cozinheiro
Assim falou o “sabe tudo”
Agora diga aí, Dr. Gilmar:
Onde meto o meu canudo?”
Com (sem) o diploma na mão

É absurdo ver o que hoje é discutido nos tribunais. Em vez de cuidar do que é da conta da população, eles cuidam o que é da conta deles. Não entendeu? Eu explico. No último dia 17 de junho de 2009, as autoridades decidiram, após muito adiar, julgar a validade do diploma de Jornalismo. Há tantas coisas que realmente precisam ser julgadas e apuradas e não são porque, juízes com a Sra. Carla Rister, criam projetos de lei sem nenhuma validade para “emperrar” ainda mais o processo de julgamento daquilo que é de vital importância.
A Sra. Carla acredita que os jornalistas não precisam de diploma para exercer a profissão e, um de seus argumentos, é que os profissionais dessa área não precisam de nada há mais do que “saber ler e escrever”. Outro argumento é que o Jornalismo não oferece risco nenhum à população e não se compara com profissões como a Medicina e a Engenharia cujos erros podem ser fatais. Bom, nessa comparação esqueceram de colocar o Direito, pois os cidadãos precisam de proteção contra os erros absurdos que saem dos tribunais. Talvez, em meios a esses tantos projetos de lei propostos, alguém crie um que tenha por objetivo rever o que é ensinado nas faculdades de Direito do país. Seria uma grande ironia!
Pois bem, meu objetivo não é atacar ninguém e sim, expressar a minha opinião sobre o resultado do julgamento. Sim, hoje decidiram pela não obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. Rebatendo um dos argumentos mais “chulos” que somos obrigados a ouvir, o de que os jornalistas não precisam de muito para exercer a profissão, apenas “saber ler e escrever”, gostaria de informar que somos muito mais do que palavras; somos formadores da opinião pública. O que sai na imprensa tem um grande poder sobre a população e existem muitos estudos sobre isso na área da Psicologia Social. Para conhecer esses estudos, faça o curso de Jornalismo! Isso o seu editor não vai te explicar, é só na faculdade que você vai descobrir (se quiser, é claro). Mas tudo bem, quem se importa com o que escrevemos, derrubaram o diploma então como acadêmica eu posso falar o que eu bem entender e fazer um trabalho precário por aí… Apenas tenho a impressão que isso não vai agradar muito algumas pessoas, inclusive aquelas que derrubaram o canudo que há muito tempo eu sonho em ter nas mãos.
Quanto a nossa profissão não oferecer risco algum a população gostaria de lembrar para quem parece ter se esquecido, um dos inúmeros casos em que o Jornalismo foi um completo desastre na vida das pessoas: no Brasil, a imprensa colocou os donos da escola BASE frente à sociedade e os malharam como bonecos em praça pública, após uma denúncia de abuso sexual contra as crianças que estudavam em sua escola. A imprensa decretou a culpa dessas pessoas antes mesmo da própria Justiça, e a sociedade acreditou e os julgou; quebraram a escola, acabaram com qualquer vestígio de dignidade que podia lhes restar. Tudo por quê? Porque a imprensa divulgou sem nenhuma prova e responsabilidade que eles eram culpados. Isso só comprova que, quando o Jornalismo é mal feito, quando se esquecem que a mídia deve sim denunciar, mas o que foi devidamente apurado, pessoas inocentes podem passar pelo inferno que é o julgamento do público sem nem ao menos poder mostrar o seu lado e provar que, todo esse espetáculo não passa de um terrível engano. Um só jornal não fez a denúncia contra o casal dono da escola Base, pois, antes de tudo, eles prezaram por aquilo que é mais importante do que a concorrência ou o furo de reportagem: a verdade dos fatos. E a verdade é que não havia prova nenhuma contra o casal, então, não há como acusá-los. Mas a mídia os acusou, os julgou e no final, após ter colocado toda a sociedade contra eles, descobriram que não havia abuso sexual nenhum. Um pedido de desculpas apaga as consequências?
E ainda assim o Ministro Gilmar Mendes vai continuar dizendo que a profissão de Jornalista não oferece riscos a sociedade? Não é digna de um diploma como todas as ouras? Seria melhor que eles nos contassem realmente qual é o verdadeiro motivo para derrubarem o diploma, pois, o que temos ouvido até agora não convence.
Se, com o diploma existem profissionais que exercem um trabalho esdrúxulo por aí (e não é só no Jornalismo, não!), imagine sem a exigência dele! Eu só não vou me conformar com essa decisão. Posso estar romantizando demais o Jornalismo quando sabemos que há muitos outros problemas para enfrentar além da não obrigatoriedade do diploma. Mas ao menos uma coisa eles não poderão tirar de mim: o amor que eu tenho pela profissão que eu escolhi e que me move para o impossível: tentar ser ouvida quando, na verdade, os outros é que deveriam escutar.
Raphaela Potter
Onda Verde
Hermano de Melo*

A expressão “Onda Verde” pode significar muitas coisas: a movimentação da torcida palmeirense na arquibancada do Pacaembu em dia de jogo contra o Corinthians; o recém-lançado tênis biodegradável da Brooks, o “BioMoGo”, que quando posto em aterros sanitários, em condições especiais, leva 20 anos para se degradar; uma entidade ambientalista de Tinguá, no Estado do Rio de Janeiro que se dedica à educação ambiental de jovens e adultos; o programa “Wal-Mart na onda verde”, que tem como meta transformar, até 2012, todos os hipermercados dessa rede varejista em lojas ecoeficientes; e várias iniciativas encabeçadas por instituições governamentais e não-governamentais (ONGs) que visam preservar o meio ambiente e evitar o aquecimento global.
Mas a “Onda Verde” tratada aqui não tem aparentemente qualquer relação com as citadas acima e está sendo implementada em várias cidades brasileiras, inclusive em Campo Grande: é a sincronização automática e progressiva dos semáforos. Com ela, espera-se que ao invés de um trânsito modorrento e “picadinho” onde o motorista, após passar por um sinaleiro verde, se depara logo em seguida com um vermelho e depois mais outro vermelho,tenha a chance de cruzar vários semáforos de uma só vez e, todos eles, “verdinhos da silva”! Daí a denominação supostamente ecológica de “Onda Verde”.
A reivindicação, porém, é antiga. Há sete anos (02/05/02), aqui mesmo neste espaço, fez-se a pergunta:“Quando é que a sincronização progressiva dos semáforos será implantada em Campo Grande?” A resposta somente chegou em 21/05/09, com a instalação do primeiro equipamento de sincronização de semáforos no centro da cidade. De acordo com a Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito), nesta primeira fase, serão sincronizados sinaleiros de 90 cruzamentos e a previsão é de que os trabalhos estejam concluídos em 60 dias. O diretor-presidente da Agetran, Rudel Trindade Júnior, resumiu assim a importância da “Onda Verde”: “Nós vamos ter um maior fluxo no trânsito, o motorista chegará mais rápido aos lugares e gastará menos combustível. Outro ponto positivo é a redução no número de acidentes, que hoje são causados quase sempre por motoristas que ultrapassam o sinal vermelho, além da redução na emissão de poluentes, porque os carros ficam menos tempo parados”.
É bom que se diga, no entanto, que, apesar da aprovação quase unânime da “Onda Verde” nas diversas cidades brasileiras onde foi implantada, ela não deve ser vista como uma panacéia, capaz de resolver todos os problemas do trânsito da Capital. Primeiro, porque muitos cruzamentos vão continuar no sistema antigo e, portanto, nesses locais tudo continuará como dantes. Depois, o sistema privilegia principalmente os motoristas, mas talvez complique ainda mais a vida dos pedestres. É preciso então reativar as faixas de passagem de pedestres, colocar botoeiras em pontos estratégicos e solucionar a questão da travessia em esquinas onde os carros vêm de todos os lados. Em Natal, RN, por exemplo, onde o sistema foi implantado há algum tempo, os motoristas reclamam da falta de retornos e do número excessivo de botoeiras, e dizem não sentir os benefícios da novidade. Mas em Campos, RJ, a novidade “colou”.
A prioridade do trânsito na maioria das cidades brasileiras, porém, não deve se restringir apenas à implantação de “Ondas Verdes”, mas também de decidir sobre o que fazer com o número cada vez maior de carros e motos nas ruas! Conforme dados do DETRAN/MS, Campo Grande recebe, em média, 72 novos veículos particulares por dia e a frota no final de abril/09 era de 291.240 carros, o que representa uma média de quase dois habitantes por veículo! Em conseqüência, há um aumento no número de acidentes de trânsito com vítimas fatais, maior deterioração do asfalto (há tempos a Prefeitura não cuida disso), um desgaste precoce das peças dos veículos, e um aumento da poluição do ar e do estresse na população! Daí a necessidade de se privilegiar o transporte coletivo ao invés do individual, o solidário em vez do solitário, além de faixas exclusivas para ônibus e ciclovias protegidas!
Em recente tirinha do “Recruta Zero” no jornal local, o sargento pergunta o que ele está fazendo recostado numa árvore e sem fazer coisa alguma, e o “Zero” responde:“Combatendo o aquecimento global, quanto menos energia uso, menos consumo”. Taí um princípio que deveria ser seguido pela população brasileira nos dias de hoje, nas cidades de médio e grande porte, mesmo após a implantação da “Onda Verde” – desacelerar, ficar quieto! Mas como fazer isso quando se está subindo a ladeira do desenvolvimento?
* Professor, escritor e acadêmico de jornalismo.
Notícia publicada em 01/06/2009 no Correio do Estado.