Lavoisier e o lixão

14/05/2009 at 12:31 (Hermano de Melo)

Hermano de Melo*

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          Quando, aí pelos idos de 1774, o químico francês Antoine Lavoisier enunciou filosoficamente a frase “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, ele desconhecia a existência do plástico e seus derivados, que só surgiram tempos depois (1862). Ele não poderia nunca imaginar, por exemplo, que um simples saco plástico pudesse permanecer na natureza por mais de cem anos sem sofrer qualquer alteração em sua estrutura físico-química, o que de certa forma contrariava a teoria criada por ele mesmo. Daí que a questão da destinação correta do lixo urbano se constitui, ao lado do esgotamento sanitário, numa das questões mais prementes a serem resolvidas pela humanidade nos dias de hoje. O que fazer com a crescente quantidade e complexidade do lixo urbano que é produzido nas diversas metrópoles mundiais e brasileiras, inclusive aqui em Campo Grande, MS?

          Quem transita pelo macro-anel rodoviário, que contorna a cidade de Campo Grande em direção à Sidrolândia ou ao Pantanal Sul-mato-grossense, percebe uma imensa montanha artificial com cerca de dois quilômetros de extensão e de dez metros de altura à margem da rodovia. Trata-se do “Lixão” da Capital, onde são depositadas diariamente 500 toneladas dos chamados Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) – exceto o hospitalar – produzidos pela população da cidade. De perto, a cena impressiona: a montanha de lixo esfumaça como se estivesse queimando, os catadores de lixo sobem e descem em busca de bugigangas para vender às empresas de material reciclável e os caminhões adentram ao recinto a cada cinco minutos trazendo mais lixo. Isso sem contar o mau cheiro que exala do monte e a presença constante de insetos e outros bichos domésticos e selvagens que freqüentam o local.

          Diante desse quadro, e pelo fato de que a obra se arrasta há quase dez anos sem conclusão, o juiz Dorival Moreira dos Santos, da Vara dos Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos (ufa!), determinou,em 28/04/09, que a Secretaria de Obras de Campo Grande desative o lixão, conclua o aterro sanitário ao lado dele e recupere a área num prazo máximo de seis meses. O assunto foi motivo de extensa reportagem no jornal Correio do Estado, de 29 e 30/04/09, e todo qüiproquó se deve ao seguinte: a prefeitura da Capital alega que a Funasa (Fundação Nacional de Saúde) não repassou a verba necessária para a conclusão do aterro e a Fundação diz que a verba não foi repassada porque a Prefeitura não prestou adequadamente contas de uma fatura de R$16.000 reais no passado! Mas que nos próximos dez dias ela vai repassar o recurso de R$ 1,2 milhão para que a Prefeitura conclua a obra do aterro (a contrapartida da Prefeitura é de apenas R$150.000!). No total, a obra deve consumir R$8 milhões (!?), incluída aí verba proveniente do Ministério das Cidades.

          Ora, não há dúvida de que o aterro sanitário representa um avanço importante no tratamento do lixo urbano quando comparado ao lixão atualmente em uso. É que ao promover a impermeabilização do solo, ele evita a infiltração do chorume e de outras substancias tóxicas advindas do lixo e a contaminação do lençol freático. Além disso, ele possibilita o aproveitamento de gases produzidos durante a fermentação do material armazenado, como o gás carbônico e o metano, na produção de energia limpa. Para a Professora Sonia Hess, Engenheira Química e Ambiental, no entanto, isso não é suficiente. Tendo em vista que cerca de 60% do lixo coletado em Campo Grande é de origem orgânica, dois tipos de tratamento dos RSU são indispensáveis: a compostagem e a coleta seletiva. Na compostagem, o lixo orgânico é colocado em grandes tanques, na ausência do ar, a fim de obter dois subprodutos importantes: o adubo orgânico que pode ser utilizado pelos produtores rurais nas plantações de hortas comunitárias, e os gases resultantes da fermentação do lixo orgânico que podem ser aproveitados na produção de energia elétrica!

          Quanto à coleta seletiva, não há mais como fugir dela. É preciso seguir o exemplo de cidades onde essa prática virou rotina, como Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis. E a Prefeitura local tem que assumir isso! Dados recentes da Secretaria de Obras Públicas de Campo Grande, indicam que além do orgânico, 32% do lixo coletado na Capital são de materiais recicláveis, principalmente papéis, 15%, plásticos, 12%, materiais ferrosos e não ferrosos, 3%, pano e vidro, 2%, pedras, madeira, couro e borrachas, 1%, dos RSU coletados. Tudo isso pode ser reaproveitado! Por que não começar desde já uma campanha em prol da coleta seletiva de lixo em Campo Grande?

          Em entrevista concedida ao Jornal-Laboratório “Projétil” da UFMS, em junho do ano passado, a Professora Sonia Hess disse: “Ao invés de se contratar uma empresa para fazer o trabalho de reciclagem, deve-se incluir o catador como agente desta ação”. E acrescentou: “Fala-se muito em lixo, em meio ambiente, mas o que eu vejo nas ruas desmente o que as pessoas falam”. “É preciso iniciar a coleta seletiva a partir da conscientização da população, inclusive no seu comportamento na rua, não jogando sacos plásticos na calçada”. Imaginem agora se de repente Lavoisier saísse do túmulo e fizesse uma visitinha-surpresa ao “Lixão” de Campo Grande. O que ele diria, hein?

* Professor, Escritor, e Acadêmico de jornalismo

(Este artigo foi publicado em 14/05 no jornal Correio do Estado)

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Novo vestibular, nova educação?

09/05/2009 at 00:41 (Raphaela Potter)

Deixando de lado um pouco os meus textos “sentimentais”, e roubando a pauta da Keyciane (mil desculpas Keyci!), vou escrever hoje sobre a proposta do governo federal de unificar o vestibular, ou seja, fazer apenas uma prova – no caso o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) – para todas as universidades públicas (as que adotarem a medida, claro).

Ontem, no dia 7 de maio, a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – UFMS – anunciou que vai utilizar o ENEM como forma de avaliação para o ingresso dos alunos na Universidade. Porém, a mudança vai ocorrer de forma gradativa; o vestibular de verão 2010 ainda vai contar com a prova de específicas, mas a prova de Conhecimentos Gerais, aplicada anteriormente no primeiro dia de provas, será substituída pelo ENEM, que terá 200 questões objetivas do que eles denominaram de “áreas de conhecimento”, e uma redação.

Mas, quem quiser saber melhor sobre a proposta do Governo, a opinião de especialistas sobre o assunto e dos maiores afetados por toda essa mudança – os estudantes – leiam a matéria da Keyci que vai sair em breve! Aqui no blog, quero deixar apenas a minha opinião, a minha crítica.

Mais do que a favor que todos tenham acesso ao ensino superior, eu sou a favor da educação. E eu não concordo que o Governo “aumente” as chances dos candidatos a Universidade, aplicando uma prova fácil, e deixando que o candidato se inscreva em cinco faculdades diferentes pela mesma prova! Na minha opinião isso é mais um dos “tapa-buracos” para cobrir um, perdão pelo trocadilho, “buracão” que vem aumentando e aumentando conforme o passar dos anos.

Pela lógica, todos nós deveríamos estudar na Rede Pública de Ensino, afinal, pagamos impostos para isso. Mas, muitos pais preferem economizar o máximo que podem para dar uma melhor educação para seus filhos, já que todos nós sabemos o caos que a estrondosa maioria das escolas públicas passa todos os anos. Mas não cobramos essa melhora das autoridades, nos adequamos ao sistema e, sorte a nossa, podermos estudar em um colégio particular!

Sei que é fácil dizer que a culpa é do governo, que nós deveríamos cobrar uma educação melhor etc. etc., mas eu acredito que uma reforma (e das enormes!) deve ser feita no ensino do país, e não na maneira como o vestibular é aplicado pelas universidades. Se a educação fosse valorizada desde o primeiro momento que colocamos os pés na escola, se aprendêssemos desde cedo o quanto é importante estudarmos e cultivarmos valores conosco, o acesso ao ensino superior não seria visto como um “desafio” ou uma “competição” da maneira que é visto hoje, mas sim, como uma etapa importante da nossa formação como seres humanos.

Mas também não sei, essa opinião é dada por alguém que conseguiu passar rapidamente no vestibular de uma universidade federal. Talvez, se os anos se passassem e eu não conseguisse entrar na universidade, eu iria agradecer por uma medida que facilitasse o meu ingresso no ensino superior. Porém, egoísmo por egoísmo, acredito que é melhor para todos ter acesso a uma excelente educação, que não se contente com a média de 4,2 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), mas sim, com a formação de cidadãos pensantes, críticos, com vontade e espírito de mudanças na péssima estrutura em que o Brasil cresceu e vive hoje.

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O que vem de baixo também atinge

05/05/2009 at 11:10 (Matheus Cabral)

Eu creio que todos já notaramm que as séries provenientes dos nossos vizinhos de cima estão dominando o mercado televisivo brasileiro. Mas, as coisas tem se revertido. As séries normalmente eram visadas somente em canais pagos, e raramente entravam no campo da tevê aberta. Bem, agora a coisa mudou de figura.

Os grandes sucessos da poderosa empresa seriada dos estadunidenses sempre geraram suspiros por todo o continente americano (eu sou um belo exemplo disso) e também pelo resto do mundo. Mas ainda sim era limitado o acesso a essas séries. A situação tem se revertido a alguns anos. A Rede Globo começou com a brincadeira de colocar a maior série estadunidense no ar, The Simpsons, e não parou por aí. Logo veio “24 Horas”, do destemido agente antiterrorista Jack Bauer, e a mais recente aposta global, o “Prison Break”.

Agora quem também apostou nessa mesma receita, foi o SBT. Lançando ao ar na tevê séries como “Smallville”, “Friends”, “Freddie”, “Veronica Mars”, “Grey’s Anatomy”, entre outras. O SBT, toma como uma idéia principal exibir mais de um seriado por semana, a maioria deles em fim de noite, creio eu para tentar roubar um pouco dos telespectadores noturnos da grande inimiga global. A Record também não fica atrás. O aclamado seriado médico, “House”, entra na emissora e o engraçado “Everybody hates Cris”  fazem parte da programação semanal da emissora.

É sabido de todos que os seriados estadunidenses são uma máquina de fazer sucesso. E é com eles que as emissoras abertas brasileiras tentam geram uma receita um pouco maior do que aquelas que já possuem. Mas o que ninguém reparou é na força dos seriados produzidos aqui.

As grandes emissoras estadunidenses, agora, apostam na criação de seriados baseando-se em seriados de sucesso produzidos por meros países de terceiro mundo, como Brasil e México. É a produção seriada brasileira e mexicana com força para além de suas fronteiras.

Como se segue com a série “Ugly Betty”, estrelada pela atriz America Ferrera. Série que se baseia em uma série mexicana, “Betty, a feia”. Está previsto acontecer a mesma coisa com uma série brasileira. Quem se lembra de “Os normais”? Aquela mesma série estrelada por Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães. Aquela mesma série que é uma produção legítima brasileira. Essa série vai seguir os mesmos passinhos que “Betty” e vai chegar ao estrelado estadunidenses, quisá mundial.

Como muitos pensavam que as séries brasileiras não tinham potencial para alcançar um patamar mais elevado que o público nacional, “Os normais” é prova disso. Quem nunca riu com as peripécias do casal Rui e Vani? “Os normais” reflete o humor brasileiro, mas não apenas isso, reflete também a capacidade da indústria brasileira de produzir algo que seja bom, engraçado e que possa mostrar o brasileiro é criativo, e não se resume apenas a samba, praia e mulheres peladas.

Made in Brazil

Made in Brazil

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Vai saber… tem cada doido no mundo…

02/05/2009 at 18:14 (Keyciane Pedrosa)

      Na mesma semana em que assuntos/ eventos culturais ficaram – a contragosto de alguns alunos – fora da pauta da semana para determinada turma do curso de Jornalismo da UFMS (situação que deve repetir-se nas próximas reuniões de pauta), visitei – meio sem querer – um blog espanhol intitulado 86400 (visite).

     Meu péssimo espanhol e a falta de tempo me impediu de entender especificamente do que trata o blog, mas pude perceber que o(s) autor(es) gostam muito de temas relacionados à arte, TV, internet e acontecimentos cotidianos. Bien, não é isso que importa agora. Chegando ao site deparei-me com o post “Arte Moderno”.

     Nele, um texto simples e direto revela o encantamento do autor perante uma obra que naquele momento se me apresentava. No mesmo momento salvei a imagem, afinal a Internet, muitas vezes, nos oferece caminhos sem volta e é bem possível que tão cedo eu não retorne ao referido blog espanhol. Exponho-a agora a vocês.

Qual a diferença entre a arte e o lixo?

Qual a diferença entre a arte e o lixo?

     Não sei de quem é, onde a obra foi exposta ou se é montagem. Mas me lembrei que há um ano, mas ou menos por essa época, eu me debatia sobre o questionamento “o que é arte?” graças ao querido – que, enfim, já não é tão querido – Adorno. Na ocasião eu, que considerava possuir generosa tolerância (e ignorância) para assuntos de natureza artístico-cultural, falava de uma prostituição da arte por meio dos meios de comunicação de massa.

     Mas passada a convulsão apocalíptica, a tolerância parece ter diminuído. E dado espaço para a dúvida. Arte é espaço de sublimação ou de entretenimento? Cultura se vende? Juca Ferreira, atual Ministro da Cultura, defende que sim. E perante imagens como essa, não sei bem o que pensar. É arte, não é arte… É cultura, não é cultura… Show do Paralamas é cultura, não é cultura… Balé é arte, não é arte… Quem saberá responder a essas perguntas? E entre os que se atreverem, com quem estará a razão?

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Estrutura fundiária

01/05/2009 at 14:31 (Fernando Vilela)

       A grande propriedade de terra é uma marcante característica do Brasil desde o início de sua colonização. Teve seu território inicialmente dividido em grandes terrenos com o intuito de explorá-los sem qualquer preocupação com o desenvolvimento, e a situação ainda permanece semelhante em muitas regiões do país nos dias atuais.

      Foi apenas com o início da vinda dos imigrantes europeus, que se viu necessário o loteamento em pedaços menores. O que veio a trazer, indubitavelmente, mais progresso para essas áreas, devido à maior variedade de atividades que se desenvolveram lá. Complementaram-se e deram impulso econômico ao local.

      Isso ocorreu em apenas pequena parte da pátria, principalmente Sul e São Paulo, continuando a maioria de suas terras a pertencer a uma pequena oligarquia. O que, inversamente, gerava pouco desenvolvimento, visto que nelas a produção buscava o lucro de poucas famílias enquanto o grosso da população, inicialmente escrava, que veio depois a tornar-se assalariada com baixo poder aquisitivo, era extremamente dependente dos líderes locais. 

      Com tudo, mostra-se mais que evidente a necessidade de uma divisão mais justa da riqueza nacional. Não somente em prol da igualdade para todos, mas principalmente em favor do desenvolvimento econômico que trará.

      Maior quantidade de propriedades implica em maior número de pessoas com trabalho, que geram riqueza para si próprias, o que cria melhores condições para ocorrerem trocas comerciais e aumentar a qualidade de vida. Isso também acabaria com os extensos vazios demográficos que existem no interior do país. Imensas distâncias entre pequenas cidades que nem sequer possuem condições de oferecer serviços dignos a seus moradores.

      Até que o dito ocorra, o Brasil continuará a viver numa grande discrepância regional opondo o norte pobre ao sul rico. Mas para tal objetivo ser atingido, faz-se necessária uma brusca mudança de consciência nos governantes e nas elites possessoras de latifúndios.

      O INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) é o órgão público responsável por tentar sanar essa questão. Indeniza os proprietários de terra improdutiva, depois loteia e assenta famílias para que produzam em seu próprio pedaço de chão.

      Uma possível solução para o problema seria uma reforma agrária em grande escala. Algo que, na atualidade, se encontra totalmente fora dos planos das autoridades, visto que causaria uma grande oposição por parte dos fazendeiros. Movimentos sociais como o dos sem-terra lutam por ela há anos, embora muitas vezes tomando atitudes extremas e condenáveis.

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