Operação “Se Te Agarra”

Charge do Sifrônio - Diário do Nordeste
No dia 13 de março, último, foi ao ar mais uma edição do programa “Comitê de Imprensa” exibido pele TV Câmara toda sexta-feira, às 22h. O assunto em debate era “Os Grampos de Protógenes, como a mídia deve proceder nos casos de escutas ilegais”. Foram convidados para falar do assunto os jornalistas Leandro Fortes (Carta Capital) e Jailton de Carvalho (O Globo).
O objetivo do programa era debater a denúncia feita pela Revista Veja (11/03/09) sobre a conduta do delegado Protógenes Queiroz que chefiou a Operação Satiagraha. Ele teria mandado grampear ilegalmente os investigados. A grande polêmica dessa história toda está no fato de que o programa foi tirado do ar sem nenhum motivo ou explicação plausível. E o link do programa gravado desapareceu do site da TV Câmara.
Para explicar essa situação o diretor da TV, Manuel Roberto Seabra, concedeu entrevista ao Portal Comunique-se.
“A gente recebeu muitas reclamações sobre a matéria. Ela teria sido ofensiva e saía do tema. Houve uma tentativa de responder a isso, ouvindo as partes atingidas: o ministro Gilmar e um representante da CPI dos grampos. A ideia era inserir isso no programa, como um direito de resposta. Os assessores deles ligaram e reclamaram. Tentamos entrevistar o ministro Gilmar e o representante da CPI, mas como isso não se consumou, resolvemos voltar com o link no ar”.
O programa teria sido tirado do ar para que se desse direito de resposta ao ministro Gilmar Mendes, que teria sido ofendido por Leandro Fortes. A intenção era entrevistar Mendes e colocar a entrevista como parte do programa. Além disso, o que foi dito pelo repórter da revista Carta Capital saía do tema. Essas foram as palavras de Fortes.
“Do ponto de vista da Imprensa brasileira, eu acho que a cobertura dessa operação Satiagraha tem sido muito desequilibrada porque tem se comprado muitas verdades sem nenhuma apuração jornalística, de fato, e sem apresentação de provas. E há um desequilíbrio muito claro em relação às coisas que dizem respeito, por exemplo, a vontade do Presidente do STF, ministro Gilmar Mendes e a falta absoluta de disposição de tratar de assuntos que são referentes a ele, de verdade. Foi capa da Revista Carta Capital, nós fizemos uma ampla investigação sobre os negócios dele em Brasília. Ele tem um instituto que dá aulas de direito e tem vários professores do Supremo. Ele conseguiu terreno, do governo Roriz, com desconto de 80%, conseguiu dinheiro do Banco do Brasil, que tinha um programa que financiava a produção de alimentos. Escola de Direto não é do setor produtivo. E tem mais de um milhão de reais com contratos sem licitações entre o governo e tribunais. Eu só conto isso e estou, inclusive, sendo processado. Pelo fato de contar uma coisa que não tem nada a ver com aquele incrível grampo do STF entre ele (Gilmar Mendes) e o Senador Demógenes, Aquilo é um dos absurdos que se discute na imprensa brasileira. Cadê o áudio daquilo? Cadê a prova daquilo? E aquilo é colocado como verdade, e o pior, é replicado por veículos de comunicação que não participaram da apuração, como uma verdade absoluta. Ontem no Jornal Nacional (10/03/09, dia anterior a gravação do programa), o Wiliam Bonner falou que o Protógenes fez um grampo no ministro Gilmar Mendes durante a operação Satiagraha, não existe nenhuma prova material disso até hoje…”
A fala de Leandro Fortes continua e ele diz que todas as investigações nunca provaram a existência do grampo. E a CPI que foi criada pra investigar tudo isso nasceu de um jogo político e que nada investiga O Jornalista parece não ter a intenção de ofender o presidente do STF e sim mostrar a posição de mocinho e bandido em que são colocados Gilmar Mendes e Protógenes Queiroz, respectivamente, pela imprensa nacional. Mas isso cabe a cada um decidir, basta assistir ao programa que teve o link recolocado no site da TV Câmara.
Ainda na tentativa de justificar sua decisão de retirar o programa do ar, Roberto Seabra disse: “Só com jornalista acontece isso. Parece que a gente não obedece o que a gente ensina. O episódio chegou a nos envergonhar por não termos o outro lado, mas essa não é a proposta do programa. Não é um programa para acusar ninguém, é para debater a mídia”.
Como bem lembrou Fortes em texto publicado no site da Carta Capital, a TV Câmara é um canal público, pago com o dinheiro do contribuinte e o programa Comitê de imprensa é um programa de debates, em que cada palavra dita é de total responsabilidade de quem as pronuncia.
Esse texto não tem a pretensão de ser informativo, não contem nenhum fato novo, mas de fazer o registro desse caso de censura, motivado por pressões políticas daquele que é o maior represente da Justiça neste país, e é o primeiro a cuidar para que ele não exista, pelo menos não para todos. Como divulgou a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), terça-feira passada (24), o STF de Gilmar Mendes julga no dia 1º de abril – dia da mentira, parece até piada – a inconstitucionalidade da exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista. “Sabe quem deve estar rindo de tudo isso agora”? “O ex-banqueiro Daniel Dantas”.
O Guarda-Roupa da Crise
As dificuldades que o mercado da moda enfrenta em época de crise.
A crise na economia afetou muitos setores comerciais, inclusive o da moda. Grandes marcas temem a falta de consumidores para seus produtos, assim todo aquele círculo pomposo criado em cima de uma inauguração de loja ou de um desfile nas principais semanas de moda do mundo é deixado de lado, escolhe-se mostrar a essência do que se quer vender ao invés do glamour que apenas super-ricos podem comprar.
As semanas de moda, em 2009, vieram com menos vigor, um tanto temerosas com os obstáculos que a crise colocou frente a elas. As marcas menores diminuíram despesas com a passarela e outras optaram por não exibir suas peças em desfiles, realizando assim pequenas apresentações para mostrar aos compradores e jornalistas suas coleções de inverno, estes são sinais claros do impacto da recessão mundial no setor.
Em Milão, o setor têxtil, assim como a indústria automobilística, começou a apelar para o governo à medida que a crise afeta a demanda por roupas e acessórios. Na semana de moda de Nova York os desfiles estiveram menores, faltaram rostos conhecidos do grande público e os brindes foram escassos ou inexistentes, parecem detalhes ínfimos, mas que no mundo luxuoso da moda faz toda a diferença. No Brasil, a São Paulo Fashion Week teve um clima mais contido, muitos estilistas comentaram que a crise de certo modo afetou a parte de criação e que isso está claramente destacado nas peças de roupa. Hoje as empresas estão mais contidas, existe um clima de agouro a cerca deste futuro instável em que comprar chega a ser embaraçoso e até mesmo vulgar.
As coleções andam com um ar triste e soturno, é o guarda-roupa da depressão. Peças minimalistas, em cores neutras, como preto, bege e cinza; nota-se que esta falta de cor é o reflexo do momento de crise em que vivemos. As grifes passaram a estruturar suas peças em uma modelagem mais clássica, deixam de lado os tecidos mais sofisticados em prol dos mais baratos. É o uso da simplicidade e da elegância, roupas com qualidade para se usar sempre.
Vemos está clara transformação tanto no mundo da moda quanto no comportamento do consumidor, é o fim de uma época de consumismo exagerado e desenfreado, onde cartões e cheques estão sempre estourados. Este é o começo de uma era de simplicidade, de comprar porque se precisa de tal peça de roupa. O importante não é ter o novo Prada no armário, mas sim aquela peça básica que combina com tudo e que não valha os olhos da cara.
Vale a pena esquecer de novo?
Após a gafe na semana passada cometida pelo presidente norte-americano Barack Obama, era de se esperar uma reação brasileira. Não, o caso em questão não é uma repreensão ao que foi dito durante entrevista a um programa de televisão sobre os jogos olímpicos especiais. Pelo contrário, trata-se de uma gafe em apoio ao comentário preconceituoso que se alastrou pela mídia mundial recentemente. Chegou a vez do Brasil angariar as manchetes.
“É uma crise causada e fomentada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis que, antes da crise, pareciam que sabiam tudo e que agora demonstra não saber nada”. Durante o encontro com Gordon Brown, no palácio Alvorada, em Brasília, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva referiu-se à “gente branca de olhos azuis” como causadora da crise financeira mundial e lamentou que negros e índios devam sofrer as conseqüências do “cassino financeiro”.
E as declarações não pararam. Questionado por um repórter inglês, o presidente prosseguiu, acrescentando que não conhece “nenhum banqueiro negro ou índio”. No meio da confusão, o que não passou despercebido foi o constrangimento de Gordon Brown diante das “proveitosas palavras” de Lula. No âmbito da política econômica, no qual chefes de Estado são incitados a exigir responsabilidade, como o faremos com um discurso que não pode ser levado a sério?
Mas em contrapartida ao incômodo de Brown, pode-se acreditar que os maiores interessados na ofensa, não estejam desperdiçando seu tempo. Quantias astronômicas anualmente depositadas -a título de juros- nos bolsos dos agiotas, brasileiros ou estrangeiros, pelo desgoverno de Luiz Inácio, representam indenização suficiente aos banqueiros.
Daily, Telegraph, Independent, Times, The Guardian. A imprensa internacional não poupou comentários e ousou arriscar suposições. As discussões no G-20 prometem fortes emoções, afinal Lula já avisou que essas serão “apimentadas” quando os líderes mundiais se reunirem para negociar quem deve pagar os custos da crise.
O comentário do presidente roubou as atenções do anúncio do fundo para estimular o comércio global e surpreendeu o premiê britânico. O que não causa surpresa é o viés racista contido nessa “tirada”, próprio de um defensor das cotas que atribui aos traços genéticos as realizações sócio-econômicas do cidadão brasileiro.
Divagações de um mendigo
Eu não quero o seu dinheiro, nem o seu afeto. Eu nunca quis muita coisa mesmo… Às vezes, eu percebo esse seu olhar desconfiado. Seria pena? Medo? Eu não preciso disso. Afinal de contas, você realmente acredita que eu durmo nesse banco de praça por falta de opção? Bobagem! É que eu gosto desse cheiro imundo da rua. Eu adoro essa sensação de que milhares de pessoas já transitaram nesse meu lar maldito. Embalando-as, o choro melancólico do vento inimigo, essa lança que penetra no corpo e faz um rebuliço na alma.
Anos atrás, eu ainda tinha esperança. Não que eu a tenha perdido, muito pelo contrário! É que, com o tempo, essa coisa chamada “esperança” vai se transmutando, desfalecendo. Dizem que ela é a última que morre, mas, sei lá, acredito que isso seja uma tremenda bobagem. É como se alguém estivesse na estação final de um trem qualquer; mesmo que contra a sua vontade, ele acaba parando. Então, tudo acaba…
Certa vez, fui ao prédio em que minha mãe mora. Um detalhe óbvio: não passei da calçada. É que a covardia sempre foi minha característica principal, mesmo que a rua tenha me ensinado uma autodefesa pífia. Nessa ocasião, eu senti que, lá do alto do nono andar, ela me observava amarguradamente. Senti-me protegido e confortado, mas, ao mesmo tempo, com medo. E se, por ironia do destino, nos esbarrássemos em uma esquina qualquer? Será que eu fugiria? Será que eu choraria? Eu mereço o seu perdão? Eu mereço ser seu filho? Eu…
A rua tem me ensinado muitas coisas. Com ela, aprendi que o frio pode ser muito mais cruel do que um tiro dado pelas costas. Aprendi que a fome transforma o homem no mais cruel dos animais, fazendo-o mutilar (ou até matar) um irmão de rua. E, o pior de tudo, aprendi que um simples beijo de boa noite faz muita falta – mesmo que trinta anos depois.
Muito além do 8 de março – Principais pontos do debate promovido pelo NEG/ UFMS

Lerê, Lerê, Lerêlerêlerê
Na última sexta-feira, 20 de março, teve início o debate “A mulher além do 8 de março”. Organizado pelo Núcleo de Estudos de Gênero (NEG/ UFMS), esse primeiro encontro discutiu o significado contemporâneo do Dia Internacional da Mulher e questões relacionadas à inserção do feminino no mundo do trabalho.
A socióloga, ex-aluna do curso de Ciências Sociais da UFMS, Natália E. Ziolkowski, da Articulação de Mulheres de Mato Grosso do Sul (AMMS), discorreu sobre a apropriação do 8 de março pelo mercado e aproveitou para alfinetar representantes da classe política que utilizaram a data, entre outros fins, para promover a Copa de 2014. Segundo a socióloga, se, inicialmente, a data representava um processo de lutas – com vitórias e derrotas não definitivas – do movimento de mulheres contra o sistema de relações sociais pautado na opressão, hoje, a data serve, justamente, ao propósito originalmente combatido.
Assim, as comemorações do 8 de março insistem em vincular a mulher ao ambiente doméstico (cama, mesa e banho) e à busca de uma beleza construída. A mídia, especialmente, propaga a predestinação da mulher ao espaço privado, tratando o “lar” como um espaço aconchegante e de intimidade. Contudo, para Natália, o “lar” é, também, um espaço de invisibilidade.
Essa invisibilidade talvez explique a desvalorização do trabalho que a mulher realiza no ambiente doméstico. Foi esse o tema escolhido pela coordenadora do NEG, a Profª Ana Maria Gomes, para a sua exposição. Segundo ela, o trabalho doméstico é particular teórica e socialmente pelo fato de não produzir riqueza. Dessa forma, dentro e fora da academia esse tipo de trabalho poucas vezes é tema de análise e discussão.
De fato, como reconhece Ana Maria, não há como comparar o trabalho doméstico a qualquer outro trabalho, pois ele não tem fim. O copo que se lava, em poucos instantes está sujo em cima da pia. A roupa que se lava, idem. Ana Maria compara o trabalho doméstico à figura mitológica de Penélope, rainha de Ítaca e mulher de Ulisses, que para não ser desposada na ausência do marido, tecia o enxoval durante o dia e desfazia todo o trabalho à noite. Para falar, ainda em termos mitológicos, o trabalho doméstico é um verdadeiro trabalho de Sísifo.
O trabalho da “dona-de-casa” é feito em nome da afetividade e é naturalizado como eixo central da vida da mulher. Assumindo o cuidado do lar como função sua, a mulher permite que os demais membros da família estabeleçam relações de trabalho e movimentem a sociedade. Esse “sacrifício”, porém, não é considerado. O trabalho doméstico é profundamente desvalorizado. Para Ana Maria, isso ocorre, justamente, porque quem executa esse trabalho é desvalorizado.
Essa desvalorização do trabalho da mulher é ainda maior no meio rural. Segundo a representante da Marcha Mundial de Mulheres, Marlene Ricardi, dos 17 trabalhos catalogados como “trabalhos tipicamente rurais”, 14 são atribuições das mulheres. Marlene, que trabalha com as mulheres assentadas em Mato Grosso do Sul, sintetizou a vida da trabalhadora rural: “Estamos lá para cuidar, cuidar, cuidar e… cuidar”. A estrutura patriarcal se reflete na fala das próprias mulheres que estabelecem como sua a função de “servir”.
A grande mensagem deixada pelo debate, que levantou ainda as questões dos direitos reprodutivos e da violência contra a mulher, foi sintetizada pela Natália E. Ziolkowski, parafraseando o comentário de um amigo: “A maior arma de luta, ou instrumento, se preferir, das mulheres é o conhecimento. Não o conhecimento que forma grandes teóricas, mas o conhecimento dos direitos”.
Em mim, veio à mente, aquele poema de Bertold Brecht que diz algo como “Não diga nunca: Isso é natural! A fim de que nada possa ser imutável”. É bem essa a situação: enquanto tratarmos como habitual a sujeição do feminino, enquanto tratarmos determinados trabalhos como “obrigações de mulher”, é muito pouco provável que consigamos mudar alguma coisa. Achamos hediondas as violências contra a mulher. Principalmente depois que passa na novela. Mas não vemos essa violência diária, contínua. A violência de só ver a mulher no dia 8 de março. A violência de só ver a mãe em maio. A violência de não dar valor ao que ela faz todo dia, todo tempo, por você.
Os debates sobre “A Mulher além do 8 de março” continuam. Dia 25 de março, será exibido e debatido o filme “Domésticas”. No dia 30, a organização prepara algumas surpresas além de apresentações culturais e oficinas. É sempre às 16h. No Anfiteatro do CCHS. Inscrição gratuita.
Fica, então, o convite. E para terminar, deixo um trechinho do poema “Aviso da Lua que menstrua”, composição de Elisa Lucinda, declamado na abertura do evento:
(…)
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!…
(…)
É lendo que se aprende…
Este post trata de uma coisa extremamente deliciosa e divertida [algumas pessoas vão pensar que é sexo, mas não!], o hábito de devorar livros, mas comumente chamado de hábito de leitura.
Creio que eu comecei a gostar de ler um pouco cedo, e confesso que essa característica foi uma das poucas que eu puxei do meu irmão. Primeiro, eu me deliciava com os gibis [Turma da Mônica, Chico Bento, Mickey, e por aí vai], gostava de tudo aquilo, da reunião de historinhas engraçadas com imagens e cores que chamavam a atenção. Até hoje, eu me divirto lendo gibis [dos antigos mesmo, porque perverteram minha Turma da Mônica].
Não me lembro qual foi o primeiro livro que eu li, mas só sei que depois dele não teve volta, eu me mato de ler. Leitura, para mim, não é só uma forma prática de enriquecer o vocabulário, mas uma forma de me descontrair, de aliviar as pressões do dia-a-dia [ainda tem hífen por aqui?], é a forma que eu procuro de relaxar.
Já fiz lista de quantos livros já li em um ano, já fiz ranking de qual era o melhor, mas isso não conta. Eu simplesmente vejo um livro interessante e trato de ler. Chega a ser automático. Ultimamente eu tenho lido muito, muito mesmo, mas isso não se aplica as coisas da faculdade que eu tenho necessidade de ler. Eu só não tenho vontade de ler essas coisas, acho um pouco chato e, para mim, não passam de um sonífero poderoso. Posso estar com total energia que basta eu começar a ler um daqueles textos que o sono bate.
O melhor presente que eu posso receber é um livro. Deixo de dormir para continuar a ler, se eu conseguisse, até deixava de comer para ler, mas eu não sou lá muito bom de deixar de comer. Leitura é algo intrínseco do meu ser, sem o poder da leitura penso que não sou ninguém. Assim como os músicos que não vivem sem a música, ou como os dançarinos que não vivem sem sua dança, eu não vivo sem minha leitura.
Com a leitura, eu tenho o poder de mudar a realidade, eu posso embarcar em um mundo novo, desconhecido, que eu mesmo crio. Eu tenho o poder de imaginar a história, de pensar com minha imaginação. Eu sou o dono da história, por mais que não seja. É esse o sentimento que me vem toda vez que tenho um livro em mãos. É com o livro que eu me liberto do mundo que tanto me prende. O livro somado a imaginação é o portal da liberdade. Onde se aprende coisas novas e, por muitas vezes, chocantes, excitantes. O máximo do livro é a aprendizagem e a total liberdade.
“O céu é o limite”
Hermano de Melo*

Aí por volta das décadas 50-60, quando a televisão brasileira dava os seus primeiros passos, havia um programa de perguntas e respostas que galvanizava a atenção de todos: “O céu é o limite”, comandado pelo saudoso apresentador João Silvestre. O programa premiava os candidatos pelo grau de conhecimento que tinham sobre um assunto. Era uma febre nacional! Naquela época, para muitas pessoas, participar do programa era coisa para poucos privilegiados. E os telespectadores torciam pelos candidatos com o mesmo afã que o faziam por um time de futebol. É muito provável, inclusive, que até hoje ainda ecoe na mente de muitos sessentões brasileiros a célebre frase de J. Silvestre, quando o candidato respondia corretamente ao que lhe havia sido perguntado: “Está absolutamente ceerto!”
Pois bem, passados quase cinquenta anos desde aquela proeza brasileira, eis que surge um filme anglo/americano, “Quem quer ser Milionário” (“Slumdog Millionaire”), que se utiliza da mesma fórmula do antigo programa J. Silvestre para abocanhar nada menos que oito estatuetas do Oscar 2009, inclusive a de melhor filme! E não é de se estranhar que isso ocorra. O filme de Boyle é emocionante e tecnicamente perfeito. Suas imagens, mesmo quando repugnantes – como na cena em que o guri Jamal toma um banho de fezes para fugir da latrina onde se encontrava preso – são de uma realidade a toda prova. Idem as fotos tiradas de cima mostrando o caos urbano de Mumbai, suas imensas favelas e a prostituição latente, que apesar de grotescas, são também magníficas. O filme, aliás, é interessante até mesmo quando descamba para o lado turístico, ao mostrar o Taj Mahal e as peripécias que os guris aprontam no interior do majestoso templo indiano. Isso sem falar nas variadas e belas trilhas sonoras que são múltiplas e inovadoras, e da atuação primorosa dos atores-mirins!
No entanto, apesar de Danny Boyle mostrar que é possível, até mesmo para um garoto favelado de Mumbai, alcançar o estrelato num programa de TV semelhante a “O céu é o limite”, o filme não consegue imergir o suficiente para responder uma questão primordial nos países em desenvolvimento nos dias de hoje, e visível no desenrolar de toda trama: Quais são efetivamente as chances de uma criança favelada – quer seja no Rio, São Paulo, Recife ou Mumbai – de se tornar uma celebridade, um milionário da noite para o dia? Será uma em hum milhão? Duas em 20 milhões (população atual de Mumbai)?
Ao invés de tentar responder a essa e outras questões prementes na Índia de hoje, porém, o filme “Quem quer ser um milionário?”, inspirado no livro “Sua resposta vale um bilhão”, de Vikas Swarup, prefere trilhar um caminho conhecido e buscar principalmente o sucesso de bilheteria. No intuito de agradar a “gregos e troianos”, e principalmente aos membros da Academia de Hollywood, ele se utiliza de três ingredientes infalíveis para atrair o grande público: 1) a realidade nua e crua de uma imensa favela nas cercanias de Mumbai e a saga vivida pelo garoto Jamal, seu irmão Salim e a menina Latika, personagens centrais do filme; 2) a participação emocionante de Jamal num famoso programa de perguntas e respostas da TV indiana, cujo prêmio final alcança a cifra de 20 milhões de rúpias (cerca de hum milhão de reais!); 3) e como pano de fundo a estória amorosa de Jamal e Latika, desde os tempos de infância até o encontro final como adultos.
Quem parece, entretanto, lucrar com todo o sucesso de “Quem quer ser milionário”, é a Rede Globo de TV. Isso porque, coincidência ou não, esse canal de televisão exibe desde janeiro passado a novela “Caminhos das Índias”, líder de audiência no horário das 21 horas. E o portal da emissora afirma: “Não é necessário fazer muito esforço para perceber que a Índia está na moda. Para nós brasileiros, a principal responsável por isso é a novela “Caminho das Índias”(!?), claro. Porém, no mundo inteiro, as pessoas começam a entender que a Índia tem sáris coloridos e uma tradição milenar, mas vai além disso”. Que tal?
O sucesso do filme indiano é tanto, que conforme noticiário recente do jornal britânico “The Sun”, a atriz Freida Pinto (os portugueses andaram por lá!), que brilhou no papel de Latika no grande vencedor do Oscar 2009, estaria sendo sondada para ser a nova Bond Girl! Enquanto isso, por aqui e na ausência de “O céu é o limite”, com J. Silvestre, a gente vai mesmo é de “Soletrando” com Luciano Huck. Não é um bom começo?
*Texto publicado no jornal Correio do Estado, em 20 de março de 2009.
Mendigo On-line

Que Malu Magalhães que nada! É esse aí, o Edward, o mais novo astro da Internet
Por mais que se tente, não dá para se livrar da crise econômica. Não, não estou falando do preço da alface que está pela hora da morte… Estou falando de notícias mesmo. Você muda de canal, desliga a televisão, vai para a internet, vai ler qualquer coisa de banal e… que saco!… lá está ela de novo.
Até num texto com o inofensivo título de “Mundo digital” (Carta Capital, 13 de março), ela aparece. E da forma mais inesperada. Todo mundo já sabe que a “crise” vem causando demissões em massa nos Estados Unidos (ah, se fosse só lá…) e que muita gente que num dia tinha carro do ano e uma casa a pagar em um sem-número de prestações está hoje sem emprego e sem nada! O efeito imediato é a proliferação dos sem-teto nos Estados Unidos. Mas, incrivelmente, a gente se preocupa muito mais com os banqueiros e investidores. De qualquer forma, momentos de crise são bons momentos para exercitar a solidariedade.
E tem gente que até nessa hora apela para o marketing. Os empresários Kevin Dolan e Sevin Dolan (pai e filho), passando por um viaduto em Houston, Texas, conheceram o mendigo Tim Edwards. E resolveram ajudar criando um site. Mas em vez de propagandear “ajude os mendigos” ou “salve os sem-teto”, criaram o “Pimp This Bum”, ou “Incremente Esse Mendigo”. Resultado: as pessoas se apaixonaram por Edwards. Ser o primeiro mendigo-online do mundo deve ter lá o seu charme… Além das doações, muitas pessoas vão ao viaduto oferecer comida, vales-refeição ou simplesmente conversar com o mais novo astro da Internet.
Com as doações Edward pôde (esse acento não mais devia estar aqui) cortar o cabelo, tirar a barba, entrar para um centro de desintoxicação alcoólica… e tudo, claro, foi filmado e disponibilizado no site no melhor estilo realitie que é tão caro aos norte-americanos. Os empresários foram acusados de usar a imagem de Edward, mas o mendigo não concorda. Aliás, quero ver alguém que está na pior reclamar por receber ajuda. Tomara que o site dê certo. Que Edward e outros mendigos voltem a gozar felizes e satisfeitos do american way of life. Que Lula e Obama dêem um jeito na crise. E que esperemos patetamente os próximos colapsos da economia mundial. Afinal, no capitalismo, tudo são ciclos, ou não? E se vai… volta!
Para alguém especial
Era um dia um tanto estranho para mim… Sabia que eu ia para um lugar desconhecido, cheio de gente que ia me olhar e pensar “quem é essa por aqui?”… Mas era um sonho que eu estava realizando, não era hora de ficar envergonhada. Era hora de enfrentar essas impressões tolas.
Mas este texto não é sobre mim. É sobre alguém que conheci, aliás, sobre uma pessoa que eu não imaginava que iria conhecer. Afinal, gente com idade de criança, mas com cabeça de gênio (ela vai ficar brava quando ler esta passagem), que fala sobre tudo com tamanho conhecimento e prolixidade que não se encontra todo dia.
Pois eu encontrei. E olha ela veio de muito longe, hein?! Quando na aula mais famosa do curso de Jornalismo da UFMS essa garota nos contou onde tinha nascido, ouvi muitos murmúrios de “ooooooooh!”. Também pudera, não vemos pessoas do Acre todos os dias em Campo Grande. Mas se eu fosse estudar em uma universidade paulista, por exemplo, e contasse aos outros que sou do Mato Grosso do Sul, os mesmo murmúrios de surpresa seriam ouvidos, com certeza!
Esquecendo essa história dos lugares de onde viemos, vou dizer o porquê deste texto. Hoje é dia 16 de março de 2009, dia em que a pessoa a quem escrevo completa 18 anos de vida. Quem diria, há pouco tempo atrás ela estava impressionando a todos quando dizia ter 16 anos! O tempo passa rápido demais… Mas não vou começar uma crise de idade por aqui. Só queria dizer a você, Keyciane, P.A.R.A.B.É.N.S! Pelo seu aniversário, pela pessoa inteligente que você é, pela sua força, pela sua coragem, por ser sempre a mesma pessoa em qualquer situação e nunca ter medo disso. Obrigada pela sua companhia, por me ensinar a cada dia coisas que eu nem imaginava poder aprender com uma pessoa. E por me MATAR de rir mesmo que você não ache metade das coisas do que eu dou risada engraçadas!
Parabéns de novo Keyci, que você seja feliz sempre e sempre!
Hoje é o dia que em que ela nasceu, é isso que importa. Eu aprendi com a Keyciane que a idade não significa nada. Eu admiro muito o jeito que ela tem de ver o mundo (eu e minha obsessão pela visão, a Keyciane sabe). Essa história dela ser prolixa deve ser porque ela sabe que o mundo é muito grande e com muitas pessoas diferentes. Não dá pra falar desse mundo com meia dúzia de palavras.
Ela já me falou algumas vezes que se acha meio doida. Eu gostaria de conviver com muitos outros doidos assim. Eu tenho certeza que o mundo seria melhor, mas ainda bem que ela escolheu ser jornalista. Com ela o jornalismo vai ser melhor.
(Flávio Marques e Raphaela Potter)
